sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O AFASTAMENTO DA CEIA, COMO INSTRUMENTO DE DISCIPLINA, É BÍBLICO?


Estas são minhas primeiras reflexões sobre o tema. Acredito que ela pode, pelo menos, fomentar uma discussão mais substancial. Por isso, leia o artigo e apresente sua opinião com base na análise séria das Escrituras.


INTRODUÇÃO



Um dos temas menos discutidos na Igreja contemporânea é o da disciplina eclesiástica. Certamente, boa parte desta apatia diante do tema se deve a permissividade de nossos dias aliada a uma pseudo tolerância. Como filhos da Reforma Protestante precisamos resgatar não apenas a discussão como também desenvolvê-la à luz dos ideais da Reforma, que sempre volta às Escrituras quando um tema precisa ser provado por ela.
Assim, neste trabalho procuraremos discutir o tema da suspensão da comunhão da Ceia do Senhor como método disciplinar e, para tanto, analisaremos o desenvolvimento do pensamento na história da igreja, a interpretação dos principais reformadores e o estudo das Escrituras na discussão do tema.
Certo de que essa é uma discussão que tem escapado da maioria dos reformadores, que praticamente aceitaram a questão como um ponto pacífico, adentramos no tema com temor e tremor, na esperança de fornecer uma pequena contribuição para futuros desenvolvimentos do pensamento acerca da disciplina eclesiástica.
Que a leitura desse artigo contribua para o início de uma discussão ainda incipiente.

* Se você deseja ler o texto na íntegra envie um email para cleversongilvan@gmail.com

O VOLUNTARISMO TEOLÓGICO DE CHARLES FINNEY


INTRODUÇÃO



Certamente Charles Finney tornou-se um dos nomes mais conhecidos do cristianismo. Suas teses avivalistas e seu estilo peculiar lhe renderam títulos que não condizem com o conteúdo da sua obra literária. Então, não seria adequado chama-lo de um dos maiores teólogos que o mundo conheceu, pois ele mesmo declara que não havia definido ainda muitos aspectos da sua teologia sistemática.
Então, Finney não é propriamente um teólogo sistemático, mas não se pode negar que suas doutrinas acabaram formando gerações de pregadores, plantadores de igrejas e avivalistas. Seu pragmatismo, talvez seja um dos legados mais nocivos à vida da igreja contemporânea que luta para definir com clareza sua identidade evangélica.
Neste trabalho procuraremos analisar a sua principal obra, conhecida como a sua teologia sistemática, no intuito de verificar como ele trata a questão da volição humana e que importância ele confere a ela. De antemão podemos afirmar que o pensamento de Finney é uma espécie de voluntarismo ético, ainda que em alguns momentos ele esboce algum tipo de voluntarismo teológico.
O estudo e a difusão clara do pensamento de Finney podem ser um instrumento valioso para auxiliar as comunidades cristãs influenciadas pelo seu pensamento a reconsiderarem a soberania de Deus na clareza da revelação bíblica.




1 O VOLUNTARISMO


Definição


Basicamente podemos dizer que o voluntarismo é uma teoria filosófica que ensina que a vontade tem primazia sobre o intelecto. Nele, a vontade é tradicionalmente entendida como a capacidade de fazer escolhas e decisões sem ser limitada pelo intelecto.
O voluntarismo como filosofia e como aspecto ético tem sido entendido também como “a tese que podemos adotar crenças e outras atitudes proposicionais de acordo com nossa vontade. Em outras palavras, é a tese que acreditamos porque queremos. ”, ou ainda a teoria do conhecimento segunda a qual a vontade intervém em todo juízo. Desta maneira o voluntarismo insiste no ato e na responsabilidade do indivíduo que afirma. Assim, podemos vê-lo como uma doutrina “que afirma que o fundo das coisas deve ser concebido como uma vontade, em analogia à vontade humana. Um querer... como na concepção de Schopenhauer, de Nietzsche ”.
No decurso deste trabalho procuraremos analisar as proposições de Charles Finney dentro dos limites estabelecidos pelas definições supracitadas. Isto significa que não trataremos do chamado voluntarismo teológico, propriamente dito, que segundo William Craig recebe a seguinte definição:

O voluntarismo (teológico) é uma visão, defendida por alguns teólogos, de acordo com a qual os valores morais são baseados inteiramente na vontade soberana de Deus. Não existe explicação a não ser a escolha de Deus sobre os valores morais. Ele arbitrariamente escolhe o que é bom e o que é ruim.


Assim, no presente estudo consideraremos o voluntarismo de Charles Finney no que diz respeito ao homem. Como ele apresenta a vontade como o elemento mais importante e dominante do ser humano.






2 PEQUENA BIOGRAFIA DE CHARLES FINNEY




Charles Grandison Finney nasceu na pequena cidade norte americana de Connecticut, em 24 de agosto de 1792. Cedo ele já demonstrou espírito de liderança e logo começou a trilhar o caminho do direito, que foi interrompido na sua conversão, quando ele resolveu seguir o caminho de pregador do evangelho.
Sob a orientação do pastor George Washington Gale formou-se ministro da Igreja Presbiteriana em 1824, mas desde cedo revelou sérias discordâncias com aspectos fundamentais da doutrina calvinista.
Sua ênfase na volição humana, como sendo praticamente autônoma, é percebida já no testemunho que ele mesmo registra da sua própria conversão. Então, em 10 de outubro de 1821, ao dirigir-se para uma floresta, ele declarou: “vou dar o meu coração a Deus ou nunca vou sair de lá...” .
A partir daí seu ministério começou a ser desenvolvido em comunidades das fronteiras superiores de Nova Yorque. Lá, seus sermões logo chamaram a atenção dos seus ouvintes, que até então, nunca tinha visto aquele estilo que mais parecia o de um advogado do que propriamente de um pregador.
Em suas mensagens ele popularizou os chamados “apelos evangelísticos”, onde o convite à resposta humana era fortemente explorado. Frases como “você já tem tomado a sua posição”, ou o “que você tem feito” eram comuns, e, em princípio, chegaram a provocar algum desconforto em seus ouvintes. O seu mais popular sermão já demonstrava também sua forte ênfase na volição humana como fator preponderante na sua salvação. Aquele sermão foi intitulado como “Os pecadores estão obrigados a mudar seus próprios corações”. Esse estilo já revelava sua ênfase no voluntarismo como determinante na sua soteriologia.
Naturalmente, a postura teológica e ministerial de Charles Finney encontrou enorme resistência entre os teólogos de orientação reformada. Uma das mais contundentes críticas é a de Michael Horton, que declara:


O avivalista não apenas abandonou o princípio fundamental da Reforma (a justificação), tornando-se um rebelde contra o cristianismo evangélico, como também rejeitou as doutrinas que têm sido acreditadas por católicos e protestantes (tais como o pecado original e a expiação vicária). Por isso, Finney não é simplesmente um arminiano, mas um pelagiano. Ele não é apenas um inimigo do protestantismo evangélico mas também do cristianismo histórico, no mais abrangente sentido da palavra.



Certamente, os aspectos supracitados já nos ajudam a entender que a teologia de Finney tem um forte apelo moral. E não poderia ser diferente considerando sua ênfase na volição humana.
Charles Finney faleceu aos 83 anos, vítima de problemas cardíacos, em 1875 .
A partir daqui observaremos como o pensamento de Finney é desenvolvido na obra que é chamada sua Teologia Sistemática.








3 O VOLUNTARISMO NA TEOLOGIA DE CHARLES FINNEY


O voluntarismo de Charles Finney está claro em toda a sua obra. Ele faz questão de afirmar sua tese da liberdade da vontade com toda clareza possível. Logo no início da sua obra, ainda no prefácio, ele declara:


Nesta obra empenho-me por definir os termos empregados por clérigos cristãos e as doutrinas do cristianismo, conforme os compreendo, e levar às conclusões lógicas as conseqüências das admissões cardeais de autores teológicos mais recentes e típicos. Insisto, especialmente, em levar às suas conseqüências lógicas as duas afirmações de que a vontade é livre e que o pecado e a santidade são atos voluntários da mente.



Mais adiante, já no seu capítulo introdutório, quando ele discute sobre várias classes de verdade, ele faz questão de declarar que a vontade é a nossa faculdade executiva, ou a faculdade de fazer ou agir. Para ele, a vontade tem o poder, inclusive de comandar o próprio intelecto, uma vez que o intelecto é uma receptividade em contraposição a um poder voluntário.
Certamente, essa sua ênfase na vontade como uma faculdade executiva é um dos elementos centrais na elaboração daquilo que foi chamado nessa obra de sua teologia sistemática. Michael Horton declarou que a teologia sistemática de Finney gira em torno da moralidade humana, o que inclusive torna impróprio chamá-la de teologia sistemática.
Essa ênfase na moralidade humana como elemento fundamental na elaboração da sua tese da liberdade da vontade é clara na sua definição de livre arbítrio, como veremos a seguir:


Por livre-arbítrio entende-se o poder de escolher ou recusar-se a escolher, em cada situação, em obediência à obrigação moral. Livre-arbítrio implica o poder de gerar e tomar escolhas próprias e de exercer nossa soberania em cada situação de escolha em questões morais — de decidir ou escolher de acordo com o dever ou não em todos os casos de obrigação moral. Que o homem não pode estar sob a obrigação moral de executar uma impossibilidade absoluta é uma verdade primeira da razão. Mas a causalidade do homem, toda sua capacidade de causalidade para executar ou fazer algo está em sua vontade. Se não puder ter vontade, nada pode fazer. Toda sua liberdade deve consistir em sua capacidade de desejar. Suas ações externas e seus estados mentais estão ligados às ações de sua vontade por uma lei de necessidade.



Percebemos que seu conceito de livre arbítrio não considera as inclinações interiores do ser humano, com suas disposições morais e espirituais, como determinantes no seu processo de escolha.
E a diferença de pensamento com o conceito calvinista fica evidente na sequência, quando ele continua argumentando sobre a essência da liberdade da vontade.


As seqüências de escolha ou volição estão sempre sob a lei da necessidade e, a menos que a vontade seja livre, o homem não possui liberdade; e se ele não possui liberdade, não é um agente moral, ou seja, é incapaz de ações morais e de caráter moral. O livre-arbítrio, portanto, no sentido acima definido, deve ser uma condição da agência moral e, é claro, da obrigação moral.



Deste modo Finney insiste que todas as ações só podem de fato ser realizadas se a vontade for realmente livre. E aqui Finney pensa inclusive na capacidade de desejar fazer o que se quer fazer. E essa conclusão o leva a dizer textualmente: “a menos que a vontade seja livre, o homem não possui liberdade; e se ele não possui liberdade, não é um agente moral” Assim, o livre arbítrio, como definido por ele, é uma condição de agência moral. E isso, de tal forma, que nenhuma obrigação ou responsabilidade moral pode ser atribuída aos homens sem que eles gozem desta plena liberdade: “A consciência de afirmar a liberdade da vontade, ou seja, da capacidade de desejar de acordo com a obrigação moral ou de recusar-me a fazê-lo é uma condição necessária para a afirmação da obrigação.”
Essa questão da responsabilidade como decorrente da liberdade é um dos pontos de maior concentração na argumentação de Finney. Ele reconhece a existência de uma obrigação moral do homem, mas ele só a admite se a vontade for verdadeiramente livre.


Em teoria, o livre-arbítrio no homem tem sido negado. Ainda assim, os mesmos que o negam têm, em seu julgamento parcial, pressuposto a liberdade da vontade humana, do mesmo modo que os defensores mais dedicados do livre arbítrio humano e de maneira tão completa quanto eles. Aliás, ninguém jamais conseguiu nem conseguirá, na prática, questionar a liberdade da vontade humana, sem ser com justiça acusado de insanidade. Por uma necessidade de sua natureza, cada agente moral tem consciência de que é livre.



A idéia, no argumento que vai sendo construído por Finney, leva-nos a entender que a liberdade da vontade deve necessariamente ser caracterizada pela possibilidade de recusar ou rejeitar algo, preferindo outra coisa de natureza diferente.
Assim, todos esses elementos acabam declarando a importância que Finney confere à volição como o elemento central na constituição do homem.








4 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NOS CHAMADOS ATRIBUTOS DO AMOR


Finney continua apresentando o seu voluntarismo, nessa discussão dos chamados atributos do amor, reassumindo a premissa de que todos os agentes morais possuem a vontade ou a capacidade de escolher ou rejeitar em todos os casos de obrigação moral.
Para ele os atributos de amor podem ser considerados da seguinte maneira:

Demonstrou-se que o resumo e o espírito de toda a lei é devidamente expresso em uma palavra: amor. Também se demonstrou que esse amor é benevolência ou boa vontade; que consiste em escolher o máximo bem de Deus e do ser universal, pelo próprio valor intrínseco, num espírito de inteira consagração a isso como um fim último da existência.


Finney começa o seu pensamento sustentando a teste de que a voluntariedade, a liberdade e a inteligência são atributos naturais do amor. E ele destaca que a mente é livre e espontânea em seu exercício desses atributos. Esses atributos, que de certo modo apontam para a nossa relação com Deus, são virtudes que devem ser entendidas como um fenômeno da vontade .
O voluntarismo é percebido na seguinte declaração:


O intelecto, por necessidade, aprova de modo perfeito o caráter de Deus quando o compreende. O intelecto está tão ligado à sensibilidade que, quando percebe a excelência divina ou a excelência da lei divina em sua plena luz, a sensibilidade é afetada pela percepção do intelecto como algo decorrente e necessário; de modo que com freqüência brilha e queima na sensibilidade, enquanto a vontade ou o coração não é afetada.


O argumento dele caminha no sentido de sustentar que a religião então e sempre é necessariamente um fenômeno da vontade, uma vez que possui tais atributos da volição que pode comandar ou obedecer.









5 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NA SUA DOUTRINA SOBRE EXPIAÇÃO



Nossa primeira providência é destacar o conceito de expiação, como esboçado na teologia de Finney:

A palavra "expiação" vem do termo hebraico cofer. Trata-se de um substantivo do verbo caufar, cobrir. O cofer ou a cobertura era o nome da tampa ou cobertura da arca da aliança e constituía o que era chamado propiciatório. A palavra grega traduzida por expiação é katallage. Isso significa reconciliação com o favor ou, mais estritamente, os meios ou condições para que haja reconciliação com o favor; de katallasso, "mudar ou trocar". O significado estrito do termo é substituição. Um exame dessas palavras originais, no contexto em que se apresentam, mostrará que a
expiação é a substituição governamental da punição dos pecadores pelos sofrimentos de Cristo. São os sofrimentos de Cristo cobrindo os pecados dos homens.


Contudo, alguns conceitos estranhos acerca da expiação de Cristo começam a sugerir a volta ao argumento voluntarista. Quando Finney trata da idéia de substituição vicária, ele parece confundir o real significado da obra de Cristo. Ele diz:

(2) Se tivesse obedecido por nós, não teria sofrido por nós. Se sua obediência substituísse nossa obediência, com certeza Ele não teria cumprido a lei por nós, como nosso substituto, sob uma aliança de obras e, ao mesmo tempo, sofrido como substituto, submetendo-se à penalidade da lei. (3) Se Ele obedeceu à lei como nosso substituto, por que se insiste na nossa volta à obediência pessoal como sine qua non de nossa salvação? (4) A idéia de que alguma parte da expiação consistia na obediência de Cristo à lei por nossa causa, em nosso lugar e em nosso favor indicaria que Deus requer: (a) A obediência de nosso substituto; (b) O mesmo sofrimento, como se nenhuma obediência fora prestada; (c) Nosso arrependimento; (d) Nosso retorno à obediência pessoal; (e) E isso o mostraria, afinal, atribuindo nossa salvação à graça. Estranha graça essa que requer que um débito seja pago várias vezes, antes de cumprir-se a obrigação.



Para ele a expiação de Cristo tinha o propósito de satisfazer a justiça pública, que para ele “Consiste na promoção e proteção dos interesses públicos por tal legislação e tal administração da lei, conforme é exigido pelo bem maior do público .”.De certo modo, Finney acaba sugerindo que a expiação de Cristo serviu como uma espécie de influência sobre os agentes morais . Deste modo, ela serviria como uma motivação para que os agentes morais buscassem a virtude. Isso tornaria a salvação como resultado de uma imitação do exemplo observado no próprio Cristo, quando este obedeceu perfeitamente todas as exigências da lei moral de Deus.
A partir daí é preciso considerar o conceito de extensão da expiação por Finney. Diferentemente do pensamento reformado que apregoa uma expiação limitada, Finney crê numa expiação ilimitada, o que ele mesmo declara em sua obra:



6. Que foi feita por toda a humanidade é evidente pelo fato de ser oferecida indiscriminadamente a todos. 7. Os pecadores são universalmente condenados por não a receber. 8. Se a expiação não fosse destinada a toda a humanidade, seria-nos impossível não considerar Deus insincero ao lhe fazer a oferta da salvação por meio da expiação. 9. Se a expiação foi feita para uma parte apenas, nenhum homem pode saber se tem o direito de abraçá-la até que uma orientação direta de Deus lhe faça saber que ele faz parte do grupo.




Esse universalismo soteriológico de Finney acabará ressaltando o seu voluntarismo, como ficará evidente na medida em que caminhamos na análise do seu pensamento.
Ele segue insistindo na tese do convite universal como um argumento em favor de uma expiação universal. A partir daí ele afirma que o fato de Deus censurar aqueles que rejeitam a expiação é mais uma prova do seu caráter indiscriminatório. Naturalmente, perceberemos que o voluntarismo repousará sobre o fato dele crer que esse convite é feito a vontade dos agentes morais, que livremente a receberão ou a recusarão. Deste modo, Finney crê que é possível que todos aceitem ou até mesmo que todos a rejeitem, mas nesse último caso ela continuaria ainda tendo um valor infinito para o universo, pois nos traria a mais gloriosa revelação de Deus.






6 O VOLUNTARISMO NA DOUTRINA DA REGENERAÇÃO



Finney apresenta uma visão claramente sinergista quando discute e regeneração. Para ele não é possível regeneração sem uma cooperação de Deus, do homem e até mesmo do “outro”, uma referência aquilo que podemos “operar” na vida do próximo , citando para isto textos como Tg. 5.19-20 .
Para ele a regeneração é uma mudança radical no coração. Contudo, o termo coração aqui acaba sendo equivalente a volição, pois trata do lugar onde ele vê a intenção última da alma.


A regeneração, portanto, é uma mudança radical da intenção última e, obviamente, do fim ou alvo da vida. Vimos que a escolha de um fim é eficiente em produzir volições executivas ou o uso dos meios para obter seu fim. Uma escolha última egoísta é, pois, um coração perverso, do qual flui todo o mal; e uma escolha última benevolente é um coração bom, do qual fluem todo o bem e atos louváveis.



Mais adiante os elementos relacionados à vontade ficam ainda mais explícitos.


A regeneração, para possuir as características atribuídas a ela na Bíblia, deve consistir numa mudança na atitude da vontade, ou numa mudança em sua escolha, intenção ou preferência última; uma mudança que troque o egoísmo pela benevolência; a escolha da gratificação própria como o fim último e supremo da vida pela escolha suprema e última do máximo bem-estar de Deus e do universo; de um estado de inteira consagração ao interesse próprio, indulgência própria, gratificação própria, por si ou como um fim, e como o fim supremo da vida, para um estado de inteira consagração a Deus e aos interesses de seu reino como o supremo e último fim da vida.


Finney faz questão de enfatizar a agência volitiva dos seres morais na regeneração. No tópico onde ele trata sobre as chamadas “Agências empregadas na regeneração”, logo após discutir a participação do Espírito Santo, dentro de sua perspectiva sinergista, ele declara:


2. Vimos que o indivíduo é ativo na regeneração, que a regeneração consiste em o pecador mudar sua escolha, intenção, preferência última; ou em mudar do egoísmo para o amor ou benevolência; ou, em outras palavras, em voltar-se da suprema escolha da gratificação própria para o supremo amor a Deus e a amor equivalente a seu próximo. É claro que o objeto da regeneração deve ser um agente na obra.



Essa agência do indivíduo na obra da regeneração é o que dá para ele, segundo Finney, a noção de responsabilidade para com a obra de Deus em sua vida. A ênfase na volição humana como um elemento imprescindível à obra da regeneração chega a produzir afirmações completamente inconvenientes, do ponto de vista da teologia reformada, como quando ele declara: “Nem Deus nem qualquer outro ser podem regenerá-lo, caso ele não se decida. Se ele não mudar sua escolha, é impossível ela ser mudada..” Por isso, reside nos agentes morais a capacidade constitucional de aprovar o que é certo e de reprovar o que é errado.






7 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NA SUA ANÁLISE DA CAPACIDADE NATURAL E NA CAPACIDADE DA GRAÇA



Por capacidade ou incapacidade natural Finney discute se o homem pode ou não obedecer aos mandamentos de Deus. Isto, para ele, é uma questão fundamental na moral e na religião.
Por isso, Finney começa a discutir a importância da vontade:


Sabemos pela consciência que a vontade é a faculdade executiva, e que não podemos fazer absolutamente nada sem a vontade. O poder ou capacidade da vontade são absolutamente indispensáveis para a nossa ação. Se não temos o poder de querer, não temos o poder ou capacidade de fazer qualquer coisa. Todo poder ou capacidade de fazer reside na vontade, e o poder de querer é a condição necessária da capacidade de fazer. Na moral e na religião, como veremos mais adiante, o querer é o fazer. O poder de querer é a condição da obrigação de fazer.



Na verdade, a primeira preocupação de Finney é combater o pensamento reformado, conforme exposto por Jonathan Edwards. Segundo Finney, a concepção reformada não dá ao homem qualquer capacidade natural, ou qualquer liberdade da vontade. Por isso, mais adiante em sua obra, quando ele mesmo começa a definir o que seria a capacidade natural, ele diz:


1. Que a obrigação moral respeita estritamente só os atos da vontade. 2. Que o todo da obrigação moral se soluciona numa obrigação em ser desinteressadamente benevolente, isto é, em querer o mais alto bem do ser humano para o próprio bem de quem o deseja. 3. Que a vontade é o fazer exigido pelo verdadeiro espírito da lei moral. A capacidade de querer conforme a lei moral tem de ser a capacidade natural de obedecer a Deus. Mas: 4. Esta é e tem de ser a única liberdade adequada da vontade, na medida que a moral e a religião e a lei moral estão relacionadas. Isto tem de constituir a verdadeira liberdade da vontade que consiste na capacidade ou poder de querer, quer de acordo, quer em oposição às exigências da lei moral. Em outras palavras, a verdadeira liberdade da vontade tem de consistir no poder ou capacidade de querer em toda instância, quer de acordo, quer em oposição à obrigação moral.



Assim, para ele a responsabilidade diante de qualquer obrigação moral, principalmente em relação à lei de Deus, está diretamente relacionada à capacidade de se fazer aquilo que é exigido. Sem essa capacidade não pode ser atribuído a nenhum agente moral qualquer responsabilidade. Por isso, para ele capacidade natural tem a ver, necessariamente, com a liberdade da vontade.


1. O governo moral de Deus presume em todos os lugares e implica a liberdade da vontade humana e a capacidade natural dos homens em obedecer a Deus. Cada mandamento, cada ameaça, cada advertência e denúncia na Bíblia implica e presume isto. Nem a Bíblia viola a inteligência humana com esta pressuposição, pois: 2. A mente presume necessariamente a liberdade da vontade humana como uma verdade primeira.



Para ele, sem essa liberdade nunca poderíamos pensar em fazer qualquer coisa. Além do mais Deus não poderia exigir que o homem obedecesse se ele não fosse verdadeiramente livre. A despeito da tese calvinista da depravação total e, como decorrência desta doutrina, da incapacidade total, Finney assegura que as páginas das Escrituras sempre salientaram a possibilidade do homem responder de forma voluntária a Deus, de tal forma que seria um absurdo declará-lo como incapaz.


A Bíblia em todos os lugares e em todos os sentidos presume a liberdade da vontade. Este fato se salienta em alto relevo em todas as páginas da inspiração divina. Mas esta é apenas a pressuposição necessariamente feita pela inteligência universal do homem. A linguagem forte freqüentemente encontrada nas Escrituras sobre o assunto da incapacidade do homem em obedecer a Deus só é designada a representar a força do seu egoísmo voluntário e a inimizade contra Deus, e nunca a implicar numa incapacidade natural própria. E, pois, uma perversão bruta e muito prejudicial das Escrituras, como também uma contradição da razão humana, negar a capacidade natural, ou, o que é a mesma coisa, a agência livre natural do homem e sustentar uma incapacidade natural própria em obedecer a Deus e o dogma absurdo de uma capacidade da graça para fazer o nosso dever.



E ele ainda acrescenta:


A questão da capacidade é de grande importância prática. Negar a capacidade do homem em obedecer as ordens de Deus é representar Deus como um Senhor cruel que exige uma impossibilidade natural de suas criaturas sob pena da condenação eterna. Isto necessariamente é gerado na mente que tem pensamentos duros acerca de Deus. A inteligência não pode ser satisfeita com a justiça de tal requisição. De fato, na medida que este erro ganha possessão da mente e obtém consentimento, na mesma medida se desculpa natural e necessariamente pela desobediência ou por não cumprir os mandamentos de Deus.


Finney sabia que por conta disso poderia ser acusado de não dar o devido valor ao Evangelho e a realidade da necessidade de recebermos a influência do Espírito Santo em nossas vidas, tanto na conversão quanto na santificação. Por isso ele diz que não nega, mas continua sustentando a idéia de que os homens são capazes de fazer o seu dever. E quando eles não o fazem não é porque são incapazes mas por causa de um egoísmo voluntário .
Deste modo percebemos contornos completamente antropocêntricos em sua soteriologia. E sua sinergia, ainda que ele não assuma a conclusão dessa tese, rouba de Deus a glória que lhe é devida exclusivamente.
Ainda dentro desta perspectiva soteriológica é importante observar a maneira como Finney se posiciona diante do arrependimento, um elemento importante envolvido na redenção do pecador. Sobre isso, ao definir o que significa o arrependimento, ele declara:

O arrependimento evangélico faz também a ligação da vontade com a sensibilidade, pois implica no fato de que a tristeza pelo pecado é necessariamente o resultado da mudança da vontade, junto com as opiniões intelectuais do pecado implícitas no arrependimento. Nem a convicção do pecado, nem a tristeza por ele constituem arrependimento. Todavia, da correlação estabelecida entre a inteligência, a sensibilidade e a vontade, tanto a convicção do pecado quanto a tristeza por ele estão implícitas no arrependimento evangélico, um como necessariamente precedente e o outro como freqüentemente precedente, sendo sempre e necessariamente o resultado do arrependimento.



E quanto à fé, ele faz questão de declará-la como um fenômeno da vontade. O que nos leva a entender que em sua soteriologia o arrependimento e a fé são vistos dentro de uma perspectiva voluntarista. A fé, portanto, é, para Finney, um estado eficiente da mente . Em contrapartida ele também afirma que a incredulidade, portanto, também deve ser vista, então, como um fenômeno da vontade e um estado voluntário da mente, como ele mesmo declara: “A fé é a recepção da vontade; a incredulidade, a rejeição da vontade, da verdade.” .






8 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NA DOUTRINA DA ELEIÇÃO



A primeira definição de Finney sobre a doutrina da eleição é mais genérica e não nos permite ver claramente elementos voluntaristas.
Ao discutir o que a doutrina bíblica da eleição significa, ele declara:


Ela trata de todos aqueles, da raça de Adão, que foram ou que ainda serão salvos, e que por Deus foram escolhidos desde a eternidade para uma eterna salvação, através da santificação de seus corações pela fé em Cristo. Em outras palavras, são escolhidos para a salvação por meio da santificação. A sua salvação é o final — a sua santificação é o instrumento. Tanto o fim como o instrumento são eleitos, designados, escolhidos; os meios são realmente como um fim, e existem por causa desta finalidade. A eleição de certos indivíduos e nações para certos privilégios, e para que façam determinadas coisas, não é o tipo de eleição do qual estou tratando neste momento; porém estou considerando a doutrina da eleição no tocante à eleição para a salvação, como acabei de explicar.



Finney admite que Deus escolheu alguns para a vida eterna, e ele o fez por sua própria benevolência. Mas ao mesmo tempo ele afirma que a rejeição de outros não pode ser colocada na conta de uma soberania arbitrária. Assim, Deus tem razões boas o suficiente para escolher os que herdarão a vida eterna.
Contudo, o seu pensamento começa a revelar certas distorções quando ele tenta discutir as razões que levaram Deus a escolher os que herdarão a vida eterna. Ele diz:


Deus deve obrigatoriamente ter conhecido quem eram as pessoas que Ele poderia sabiamente salvar, previamente, na ordem natural, à sua determinação de salvá-las. Porém o seu conhecimento sobre quem deveria ser salvo deve ter sido, na ordem natural, subseqüente à eleição que Ele realizou, ou à sua determinação de salvá-los, e dependente daquela determinação.



No entanto, um conceito completamente estranho à idéia de eleição é apresentado por Finney quando ele diz que a eleição não se constitui um obstáculo a salvação dos não eleitos. De certo modo, quando ele retoma o argumento da oferta do evangelho, ele acaba voltando ao voluntarismo, onde a vontade de aceitar ou rejeitar o evangelho torna-se a base última da salvação.


1. Deus tomou o cuidado de trazer a salvação de modo que esta esteja ao alcance de todos, e fazendo-a possível a todos. 2. Ele sinceramente se oferece para salvar a todos, e faz todo o possível para salvar a todos aqueles que Ele pode sabiamente salvar. 3. O fato dEle salvar a uns não deve ser desencorajador para outros, pelo contrário, este fato deve encorajá-los a apegar-se à vida eterna. 4. A eleição de alguns não se constitui uma barreira à salvação de outros. 5. Aqueles que não são eleitos também devem ser salvos, se porém cumprirem as devidas condições para isto. 6. Deus sinceramente chama os não eleitos à salvação, e assim também devem proceder os seus ministros. 7. Não há nenhum dano ou injustiça feita aos não eleitos pela eleição de outros. Porventura Deus "não tem o direito de fazer o que quiser daquilo que é dEle?". Se Ele oferece a salvação a todos sobre termos mais razoáveis, e se Ele faz tudo o que pode sabiamente fazer pela salvação de todos, alguns reclamarão se Deus, fazendo tudo aquilo que é capaz de sabiamente fazer, garante a salvação de alguns e não de outros?



Assim, para Finney, cada pecador que está sob o poder do Evangelho tem a liberdade para aceitar ou rejeitar o evangelho, o que torna a eleição baseada na presciência divina e não sua soberania. Esta tese anula por completo a idéia da graça salvadora de Jesus e acaba, ainda que indiretamente, lançando sobre os méritos humanos previstos a salvação do pecador.


Ninguém pode apenas dizer: se sou escolhido para ser salvo, serei salvo a despeito daquilo que eu faça. Ninguém também pode dizer: se sou designado para a condenação, serei condenado a despeito daquilo que eu faça. Porém a questão está presente, até onde lhes consta, como um assunto de completa contingência. Para os pecadores, a sua salvação ou condenação está absolutamente sob sua completa escolha, como se Deus jamais conhecesse ou designasse qualquer coisa a este respeito.



Ao comentar sobre a reprovação, ainda dentro da perspectiva da eleição, ele acentua mais a sua tese:

Novamente, este fato segue-se a partir da doutrina da eleição. Se Deus planeja salvar os eleitos, e somente os eleitos, conforme já foi mostrado, não por meio da razão, porém sob a condição de seu previsto arrependimento e fé em Cristo, certamente Ele planeja ou tem o propósito de lançar fora os maus, pela maldade prevista destes. Ele tem o propósito de fazer algo com aqueles que, de antemão, vê que serão impenitentes.


Claramente percebe-se que a sua visão sobre a doutrina da eleição nada tem a ver com o ensino apresentado nas Escrituras. Seu argumento pesadamente racionalista se perde em meio a uma pseudo lógica que não consegue amparo bíblico por não ter sustentação hermenêutica, ou seja, sua lógica é apenas um sofisma, e por conseguinte, uma falácia.
Contudo, percebe-se que para ele a volição dos agentes morais é muito mais definitiva e decisiva que os supremos decretos eternos e soberanos do Senhor.





CONCLUSÃO


A chamada teologia sistemática de Charles Finney acaba revelando a inconsistência do seu pensamento com relação a vários pontos fundamentais da doutrina cristã. Embora em alguns momentos ele use terminologias muito próprias do calvinismo, não se pode negar a forte ênfase libertária de suas teses.
Mais especificamente no que concerne a volição humana, observamos o lugar de destaque que ele confere a ela, fazendo uso inclusive da idéia de liberdade da vontade, como sendo essa uma das suas teses mais caras.
Deste modo não é difícil determinar o caráter voluntarista de seu pensamento, o que difere muito do pensamento da maioria absoluta dos teólogos de linha reformada.
Estudar Finney e esclarecer aspectos como os discutidos neste trabalho certamente contribuirão para uma visão mais adequada acerca do seu real legado para o cristianismo contemporâneo.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



CRAIG, William. MORALIDADE ORDENADA POR DEUS E VOLUNTARISMO. Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

Biografia de Charles Finney. Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

______. Charles Finney. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2010

______. Charles Finney – Father of American revivalism. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2010

FINNEY, Charles. Teologia Sistemática. 1. ed. Rio de Janeiro. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2001. 743p.

HORTON, Michael – O Legado de Charles Finney. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2010

THEOLOGICAL VOLUNTARISM – Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

VOLUNTARISMO – Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

______. – Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

No Ponto!!!!



Essa pode ser a diferença entre o sucesso de um delicioso prato preparado pela vovó e o fiasco preparado pelo melhor “chef” – o ponto. Acertá-lo é privilégio de poucos, mas algumas pessoas são mestres nisso e como é bom provar do que elas fazem.
A mulher da minha vida não é uma apaixonada pela cozinha e suas delícias. Ela prepara com carinho tudo o que a gente come em casa, mas nada a deixa mais feliz do que um convite para almoçar fora. Mas uma coisa é verdadeira, ela sabe como me tratar, no ponto certo.
Acredito que tive uma convicção ministerial muito cedo em minha vida. Não me lembro de na infância querer fazer outra coisa que não ser pastor. Sempre quis pregar, ensinar e seguir os caminhos do ministério da Palavra. Tudo o que fiz foi direcionado para este propósito e sempre tive a confirmação do Senhor, em meu coração, de que era isso mesmo que deveria fazer. Uma vez pastor, comecei a desenvolver o meu ministério e, como acontece com quase todo mundo (creio eu) tive e tenho também minhas dificuldades e minhas limitações. De certo modo, posso dizer que muito das minhas dificuldades são na verdade faltas que eu preciso corrigir. E de onde vem o maior estímulo, a melhor análise e a maior cobrança para que eu seja um bom pastor? Dela, da mulher da minha vida! E ela faz isso no ponto! Dói, mas muitas vezes ela fala exatamente o que eu preciso ouvir.
Por outro lado, na minha vida mais “comum” (rsrsrsrs – é que tem gente que pensa que pastor é sobrenatural), sempre tive as coisas muito bem definidas e de certa forma, no controle das minhas mãos (ou até da minha mãe – o que é quase a mesma coisa – rsrsrsrs), mas um estresse, um resfriado mais sério ou qualquer outra coisa que eu não consiga resolver rápido, me derruba. E ai, vem ela de novo, no ponto! Carinhosa, atenciosa e incentivadora. Ela dá colo e manda levantar em seguida. Ela diz, coitadinho, faz carinho em mim, mas diz que eu não posso ficar assim. Sempre ela, no ponto!!!!!!
Hoje eu sei que sem ela (e isso não é clichê – pode até parecer - rsrsrrs) eu não vivo!!!!!! Te amo, Marly

PS – E agora ainda tem o baixinho do Matheus....... quando ele chega dizendo: “Deus me deu uma palavra” ....... pode esperar que lá vem chumbo. Rsrsrsrrsrsrsrrs – Minha família, minha vida!!!!!!!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

OS JUÍZOS PARCIAIS DE DEUS NOS ELEMENTOS DA NATUREZA


INTRODUÇÃO




O Ano de 2010 foi marcado por inúmeras tragédias envolvendo a natureza. Desde os primeiros dias do ano notícias sobre enchentes, terremotos, erupções vulcânicas e os mais variados tipos de devastações naturais ocuparam a mídia e despertaram os mais divergentes tipos de pensamento. Houve quem apressadamente, sem uma reflexão biblicamente orientada, saísse responsabilizando Deus por tudo o que aconteceu, mas também houve quem acreditasse que tudo não passava de uma simples movimentação da natureza.
Diante disso nos debruçamos sobre um tema atual, crendo que podemos oferecer uma contribuição a partir de uma cosmovisão bíblico-reformada. Assim, escrevemos sobre o tema: Os Juízos Parciais de Deus nos Elementos da Natureza. Aqui devemos ressaltar que por juízos parciais não estamos dizendo acerca de uma possível parcialidade de Deus em relação ao mal e a sentença sobre ele, mas apenas diferenciando este ato judicial daquele que, conforme o ensino das Escrituras definimos como o juízo final de Deus.
Inicialmente procuraremos observar as primeiras relações desta matéria nos efeitos da queda sobre a criação e, depois, buscaremos estabelecer a relação entre o decreto, o juízo e a providência de Deus. Só então, consideraremos alguns exemplos bíblicos que revelam o controle de Deus nos elementos da natureza como instrumentos de manifestação do seu juízo.
Como as Escrituras nos asseguram que ainda sobrevirão nos últimos dias terremotos e pestes, a pesquisa sobre este tema deve ser alvo de atenção da igreja dos nossos dias. Assim, não pretendemos ser pragmáticos em nossa análise sobre das tragédias que nos cercam, nem céticos diante do que Deus está nos dizendo.
Deste modo adentramos no tema na certeza de que uma visão orientada pelas Escrituras nos fornecerá um alicerce seguro para a discussão do assunto.





1. MANIFESTAÇÕES DO JUÍZO DE DEUS NA QUEDA




Antes de discutir os efeitos da queda na natureza e, principalmente, a manifestação dos juízos parciais de Deus nos elementos da natureza, devemos lembrar que a criação, de forma geral, foi afetada pelo pecado. Deste modo, não é completamente ilógico pensarmos em manifestações de juízo através de elementos da natureza. Então, precisamos considerar as questões relativas à manifestação do juízo de Deus na queda, mais especificamente no que concerne a criação ou a outros elementos da natureza além do homem.
Assim, uma das informações mais importantes sobre a criação conforme o registro de Gênesis, diz respeito ao seu estado depois de Deus terminar a criação. A cada momento do seu ato criador, e especialmente no final dele, Deus observava a perfeição de toda a sua obra. Ele mesmo declarou que tudo era bom e, depois, muito bom, cf. Gn. 1.31. Não obstante, este estado de perfeição durou até que o pecado passasse também ao mundo dos homens. A partir daí, a própria criação começou a vivenciar alguns desajustes, que sinalizam a primeira manifestação do juízo de Deus através de elementos da natureza, pois a terra passou a produzir cardos e abrolhos, cf. Gn. 3.18.
Berkhof discorre sobre esta questão quando ele trata da punição do pecado na sua teologia sistemática. Ao falar, especialmente, sobre a punição do pecado ele diz:


... toda a criação ficou sujeita à vaidade e à escravidão da corrupção. Especialmente os evolucionistas nos ensinaram a ver a natureza “rubra (de sangue) nas garras e nos dentes”. Muitas vezes as forças destruidoras são liberadas causando terremotos, ciclones, tornados, erupções vulcânicas e inundações que trazem indescritível miséria à humanidade. Pois bem, há muitos, principalmente em nossos dias, que não vêem a mão de Deus nisso tudo e não consideram essas calamidades como parte da penalidade do pecado. E, todavia, é exatamente o que elas são, num sentido geral. Contudo, não será seguro particularizar e interpretá-las como punições especiais por graves pecados cometidos pelos que vivem nas áreas atingidas. Tampouco será prudente ridicularizar a idéia de que essa relação existiu no caso das cidades da planície (Sodoma e Gomorra), que foram destruídas pelo fogo do céu. Devemos ter sempre em mente que há uma responsabilidade coletiva, e que sempre há motivos suficientes para Deus visitar cidades, regiões ou países com calamidades medonhas.


Sua fala deixa claro o conceito de que a partir do pecado os elementos da natureza podem ser parte do juízo parcial de Deus sobre o homem.
Na mesma linha de raciocínio Lloyd Jones argumenta sobre os efeitos da queda dizendo que:


A própria terra foi amaldiçoada - surgiram os espinhos e cardos. Não havia nenhum antes. O homem não tinha problemas com espinhos e cardos. No entanto, agora isso passa a ser uma parte da punição, e todos somos conscientes disso.


Perceba que o texto de Lloyd Jones fala sobre uma punição que vem sobre o homem a partir dos efeitos do pecado na criação. Esses efeitos sinalizam os desajustes da natureza, que presenciamos em nossos dias e também nos prepararam para entender como elementos de uma natureza desajustada pelo pecado podem fazer parte dos instrumentos punitivos de Deus.
Ao comentar sobre os efeitos da queda para o homem, Gerard Van Groningen faz algumas afirmações interessantes:

Seu trabalho (Adão) não seria uma maldição; sofrimento e frustração no seu trabalho, sim. Vários termos tem sido usados para descrever o que Yahweh disse: labuta dolorosa, suor, espinhos e cardos (em lugar da planta da vida apropriada para o alimento), e um retorno ao pó, i.e., a morte física e a deterioração do corpo. Debaixo desta maldição sobre o solo, Adão não deveria esperar uma resposta pronta aos seus esforços. Sua existência física temporária continuada deveria depender de uma terra hostil e refratária. Mas essa maldição sobre o solo deve ser considerada mitigada, pois Adão não seria separado completa e imediatamente do seu lugar de trabalho e fonte de sustento. Ambos, ele e o solo continuariam juntos, mas nessa proximidade existiria muito desapontamento, frustração, dor e destruição. As Escrituras nos informam que o próprio cosmos criado reagiria com dor e gemidos à maldição (Rm. 8.22). Também, enfatiza que as pessoas experimentariam evidências trágicas da maldição, particularmente quando quebrassem o pacto com Yahweh; Moisés avisou que no curso da história a maldição seria executada em forma de secas, penúrias e doenças (Dt. 28.15-24).

No argumento de Van Groningen fica ainda mais evidente a relação entre a queda e a manifestação dos juízos parciais de Deus nos elementos da natureza. Perceba que ele relaciona os males com a queda e se vale de Moisés para afirmar que então, secas, penúrias e doenças viriam sobre o mundo.
Estes conceitos tem encontrado eco entre teólogos brasileiros também, como por exemplo o livro “Razão da Esperança – Teologia para hoje”, de Leandro Antônio de Lima, que traz num capítulo intitulado “A queda: a mãe das tragédias” a seguinte conclusão:

Todas as tragédias do mundo, toda violência e corrupção do homem e da natureza são consequências do pecado. E o pecado gera ainda mais tragédias, violência e corrupção. De fato, o pecado é tanto causa quanto resultado da miséria humana”. Toda miséria começou com ele, e agora o homem não consegue exterminá-lo, pois ele origina a miséria e se origina dela; isso se torna um círculo vicioso, bem como mostra que a escolha de Adão foi uma má escolha.

Deste modo nossa argumentação caminha para a idéia de que mesmo que possamos pensar nos desastres naturais como resultado dos desajustes provocados pela queda, não podemos vê-los como simples consequências indiretas, mas como ações punitivas de Deus em razão do pecado.
Essa idéia de que os sofrimentos, no nosso caso especificamente os da ordem dos desastres naturais, são ações punitivas de Deus contra o pecado, é sutilmente defendida pela Confissão de Fé de Westminster, um importante documento de tradição reformada, que diz:


Todo pecado, tanto original como atual, sendo transgressão da justa lei de Deus e a ela contrário, torna culpado o pecador, em sua própria natureza, e, por essa culpa está sujeito à ira de Deus e à maldição da lei, e, portanto, sujeito à morte, com todas as misérias espirituais, temporais e eternas.


Quando a CFW fala sobre as misérias espirituais, temporais e eternas, como expressão da ira de Deus, ela deixa implícita, mas certa, a idéia de que os males naturais também são resultado do pecado original, portanto, da queda. Assim, a causa última dos males é a queda e neste contexto Deus está manifestando o seu juízo.
Com este capítulo argumentamos que os chamados efeitos do pecado também podem e devem ser vistos como manifestações parciais do juízo de Deus contra o pecado. Perceber esta primeira relação é de extrema importância para a fundamentação que virá a seguir.




2. A RELAÇÃO NECESSÁRIA ENTRE O DECRETO, OS JUÍZOS E A PROVIDÊNCIA



Embora esta abordagem seja mais ampla ela é extremamente necessária para o construção do pensamento sobre os juízos parciais de Deus como elementos de manifestação da sua justiça. Se não estabeleceremos esta conexão nosso trabalho ficará limitado pela apresentação de exemplos bíblicos sem uma conexão teológica plausível. Desta maneira devemos lembrar o que são os decretos e como ele se relacionam com o juízo e a providência divina.
Assim, lembramos que os decretos de Deus revelam a sua soberania e seu senhorio sobre a história. Providencialmente ele governa todas as coisas de tal forma que o seu plano sempre é executado e sua vontade é sempre satisfeita. Deste modo nos preparamos para entender uma relação necessária e íntima entre o decreto de Deus, a sua providência e os juízos que ele executa.
A análise deste tema é justificada pela certeza, provinda das Escrituras, de que não existem males gratuitos. Portanto, nos preocupamos com o devido entendimento dos decretos divinos.
A. Hodge, define os decretos da seguinte forma:



O decreto de Deus é Seu propósito soberano, eterno, imutável, santo e sábio, abrangendo ao mesmo tempo todas as coisas que existiram, existem agora e em qualquer tempo existirão, com suas causas, condições, sucessões e relações, e determinando sua futurição certa. Nós, em consequência da limitação das nossas faculdades, concebemos as diversas partes desse propósito único e eterno sob aspectos diversos e em relações lógicas, e por isso o chamamos DECRETOS.



Quando entendemos que até mesmo as contingências são objetos do decreto divino, vislumbramos então os laços necessários entre todos os eventos da história, os juízos de Deus, quer sejam parciais ou final, e a doutrina da providência. Não obstante, ainda devemos lembrar que a própria Confissão de Fé de Westminster fala sobre contingências de causas secundárias estabelecidas , dando-nos a idéia de que até mesmo os meios para se chegar a um fim determinado são objetos do decreto divino.
Sobre isso também lemos em “A Providência e sua Realização Histórica”: Todas as coisas que acontecem em nossa história são o produto de um plano previamente elaborado por Deus. Mais adiante, na mesma obra encontramos o desenvolvimento da idéia de uma relação entre o decreto e a providência:


Todas as obras providenciais de Deus na vida do mundo e de seus habitantes são produto do decreto eterno de Deus, que é plano de Deus para a totalidade da sua criação. Todas as coisas que acontecem na história do mundo, das nações e dos indivíduos são o produto deste mesmo decreto.



Contudo, nossa proposta ainda é mais específica: Como ver os juízos parciais de Deus nos elementos da natureza?
A argumentação precedente mostra que não é possível dissociar todos os eventos da história do decreto divino. A partir daqui observaremos mais especificamente como relacionar os desastres naturais, por exemplo, com a manifestação do juízo parcial de Deus.
O Dr. Héber Campos escrevendo sobre a Retribuição Por Meio de Fenômenos Naturais, declara:


O princípio geral da retribuição divina através dos fenômenos da natureza tem sua base numa verdade bíblica do Antigo Testamento que está repetida com todas as letras em Gálatas 6.7 – “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará”. Esse é o princípio geral que é ilustrado de muitas maneiras na Escritura. Os desobedientes sempre haverão de colher a ira divina através de privações decorrentes da semeadura do mal.
O profeta Oséias trabalha com o mesmo princípio na sua profecia. Afinal de contas, ele entendia da matéria, porque era um lavrador. Veja o seu ensino:
Os 8.7 – “Porque semeiam ventos, e segarão tormentas: não haverá seara; a erva não dará farinha; e se a der, comê-la-ão os estrangeiros.”
O povo de Israel havia transgredido o pacto de Deus (v.1). No entanto, o povo alegava ter conhecimento de Deus (v.2), o que tornava a situação deles ainda mais culposa. Eles procederam como se não houvesse Deus. Eles fizeram as suas próprias leis, estabeleceram reis e príncipes, cometeram o pecado da idolatria (v.4-6). Estavam semeando ventos e haveriam de colher tempestades (v.7). O que aconteceria com eles? Deus iria usar a natureza para puni-los severamente. Eles haveriam de passar fome: não mais colheita. Se alguma coisa a terra produzisse, eles mesmos não haveriam de provar, mas os estrangeiros, os inimigos (v.7). A conseqüência da privação foi que Israel foi devorada (v.8). Em outras palavras, a economia de Israel foi à bancarrota. Israel ficou falida e tornou-se presa para os inimigos.
Além desse exemplo textual, há muitos outros onde Deus traz males físicos sobre o povo através de terremotos, enchentes, secas, pestes nas plantas, pragas de animais, etc. A natureza é um instrumento divino para a execução da sua providência retributiva.



Calvino, numa linha de argumentação similar, chega a afirmar que nada é fruto do acaso, tudo está sob o controle da providência de Deus, inclusive os fatos que ele denomina como naturais.

Afirmo ainda que os eventos particulares são, em geral, testemunhos da providência especial de Deus. Este suscitou no deserto um vento sul que levasse ao povo abundância de aves [Ex 16.13; Nm 11.31]. Quando quis que Jonas fosse lançado ao mar, enviou um vento, suscitando para isso um furacão [Jn 1.4, 6]. Os que não crêem que Deus sustenta o leme do universo dirão que isso se processou fora do curso natural das coisas. Daí, porém, concluo que vento algum jamais surge ou se desencadeia a não ser por determinação especial de Deus.



Ainda mais adiante Calvino segue argumentando como seria impróprio pensar que Deus não executa sua providência através dos elementos da natureza, nos seguintes termos:


Aliás, nem doutra sorte seria isto verdadeiro: que aos ventos faz seus mensageiros, e ao fogo flamejante, seus ministros; que faz das nuvens suas carruagens e cavalga sobre as asas dos ventos [Sl 104.3, 4]; a não ser que, por seu arbítrio, revolvesse tanto as nuvens quanto os ventos e neles manifestasse a presença especial de seu poder. Assim também, em outro luar [Sl 107.25, 29], se nos ensina que, sempre que ao sopro dos ventos referve o mar, essas agitações atestam a presença especial de Deus; que ele ordena e suscita o alento da procela e ao alto eleva as vagas do oceano; então, faz quedar-se em silêncio a tempestade para que cessem as ondas para os que navegam; assim como declara em outra parte [Am 4.9; Ag 1.11] que flagelara o povo com ventos candentes.


Perceba que a argumentação do teólogo francês é a de que todas as coisas estão sob o controle soberano e providencial do Senhor.
Contudo, em função das diferentes cosmovisões religiosas, crer que Deus executa juízos parciais através de elementos da natureza tem sido um grande desafio para muitos.
Mesmo no meio do povo de Deus, nem sempre foi tão tranquilo entender que Ele governa também no meio dos desastres.
Cheung observa que desde os tempos do profeta Miquéias o povo não conseguia observar a realidade deste instrumento punitivo como uma obra da providência de Deus. Deste modo, Cheung registra: Como nos dias de Miquéias, elas ainda dizem: “A desgraça não nos alcançará. O Espírito do Senhor perdeu a paciência? É assim que ele age?” . Contudo, sabemos que negar este expediente divino é fechar os olhos para a clareza da revelação bíblica.
Retomamos aqui então a argumentação de João Calvino, que diz:


Ademais, transparecerá de notável exemplo como, pelo freio de sua providência, Deus verga todos os eventos para qualquer parte que o queira. Eis que, no preciso instante em que Davi foi encurralado no deserto de Maom, os filisteus fazem uma incursão na terra: Saul é obrigado a bater em retirada [1Sm 3.26, 27]. Se Deus, querendo garantir a segurança de seu servo, lançou este obstáculo diante de Saul, por certo que, embora de repente, além da expectação dos homens, os filisteus tomaram armas, não diremos, entretanto, ter sido isso feito pelo acaso; pelo contrário, o que nos parece contingência, a fé reconhecerá haver sido ordenação secreta de Deus.


Contudo, reconhecemos que nem todos alcançam esse pensamento.
Assim, outro problema que temos de enfrentar é o dualismo que tenta atribuir estas catástrofes ao diabo, como se ele fosse uma força opositora aos propósitos divinos na qualidade de um “deus”. São inúmeros os defensores desse posicionamento, principalmente os de linha teológica neo-pentecostal.
Também não é raro encontrarmos uma teodicéia que não seja biblicamente orientada. Muitos argumentam que não é possível que Deus esteja por detrás de alguns males. Por exemplo, no blog Força para viver, encontramos a seguinte justificativa do articulista, diante da recente tragédia no Haiti.


Precisamos lembrar que as catástrofes naturais se dão dentro do conhecimento de Deus, mas também se dão por questões naturais e de criação. Ainda continuam as acomodações geológicas em várias partes do mundo, o que faz surgir desastres naturais. Deus ao criar a terra o fez dentro de princípios que promovem o bem-estar do homem, mas também o fez dentro de leis naturais que o homem convive durante séculos. Em nada podemos culpar Deus por aquilo que aconteceu no Haiti. Vale lembrar que o mal, muitas vezes, advém do bem. Um exemplo simples dá para entendermos a afirmativa anterior: ”a água é um bem inestimável para o ser humano, mas pessoas morrem afogadas”. Dentro dos princípios que Deus criou para o habitat do homem existem variáveis que interferem e são normais no bom andamento da criação.


Em algumas seitas também encontramos o desenvolvimento desse pensamento dualista. Por exemplo, David Brandt Berg, conhecido líder da seita religiosa “Os meninos de Deus” afirma que Deus só tem planos de paz e prosperidade para os seus filhos e que Satanás, o príncipe da potestade do ar é que é o responsável por estes desastres.
Não obstante esta oposição, a revelação das Escrituras fornece elementos suficientes para crermos que Deus controla todas as coisas, segundo a sua eterna sabedoria colocada em ação no seu agir providencial.
Assim, devemos lembrar que Deus, através do seu governo soberano, providencialmente dirige todas as enchentes, terremotos, tsunamis e quaisquer outros elementos para fazer com que os eleitos sejam despertados e desistam de pecar e os ímpios sejam endurecidos.
E tudo isto Deus faz de tal forma que não podemos negar a existência de uma relação íntima entre o decreto, a providência e a manifestação do seu juízo.





3. OS JUÍZOS ATRAVÉS DOS ELEMENTOS DA NATUREZA – CASTIGOS POSITIVOS E CASTIGOS NATURAIS



Junto dessa discussão devemos tratar de outra questão importante. Como analisar estes juízos com o conceito de castigos positivos e castigos naturais de Deus?
Devemos lembrar que a teologia trabalha com duas terminologias importantes, a saber, os castigos naturais e os castigos positivos. Os castigos naturais são aqueles que o homem não se livra nem pelo arrependimento e nem pelo perdão divino, enquanto os castigos positivos são uma ação positiva do Santo Legislador contra o pecador.
Num primeiro momento creio que podemos anuir às duas possibilidades, ou seja, estas manifestações do juízo de Deus através dos elementos da natureza podem ser vistas tanto como castigos naturais quanto como castigos positivos. Há casos nas Escrituras em que o aspecto dos castigos positivos está mais evidente. Esse parece, por exemplo, ser o caso de Sodoma e Gomorra. Numa das referências que precede o juízo de Deus, através do fogo e do enxofre – elementos da natureza - a ação de um Deus justo contra uma impiedade específica é declarada: Gênesis 18.20 “Disse mais o SENHOR: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito.”. Deste modo, percebemos que há uma ação direta de Deus sendo articulada contra aquelas cidades e o resultado desta realidade é mais claramente declarado quando a sentença é proferida: Gênesis 19.24 “Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo, da parte do SENHOR, sobre Sodoma e Gomorra.”.
Não obstante, entendemos também que a corrupção a que toda criação ficou sujeita acaba precipitando determinadas catástrofes, que podem ser vistas como castigos naturais, que em última análise sempre são expressões do juízo de Deus contra o pecado.
Contudo a abordagem desse tema segue com suas dificuldades, mas algumas contribuições são importantes.
Sobre essa questão Cheung declara:



devemos nos assegurar de que conhecemos realmente o que a Bíblia ensina e evitarmos ir além do que ela diz em nossa interpretação. Para ilustrar: os amigos de Jó, que tentaram confortá-lo, terminaram confundindo e até mesmo difamando seu caráter, pois interpretaram incorretamente o motivo para aqueles desastres terem caído sobre Jó. A Bíblia não diz que os desastres sempre ocorrem como castigos divinos ou porque as vítimas pecaram. Lembre-se de João 9, onde Jesus e seus discípulos se depararam com um homem cego de nascença. Os discípulos enunciaram sua suposição ao perguntarem: “Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”. Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele”.



Contudo, o próprio Cheung também diz que devemos evitar o extremo de afirmar, por outro lado, que não há propósito divino nestas ações punitivas.


Por outro lado, quem insiste que certo desastre no qual muitas pessoas pereceram não ocorreu como juízo divino comete o mesmo erro, apenas na direção oposta. Eles alegam conhecer a mente de Deus numa proporção maior que a declarada na Escritura. Quanto ao que rejeita a idéia da retribuição divina por meio de acidentes naturais e de desastres “realizados pelo homem”, e da morte de milhares de pessoas no processo, seu problema é incredulidade na Bíblia, e por isso, deve ser abertamente confrontado e refutado nesse ponto. Uma coisa é debater se determinado desastre é juízo de Deus ou não, em que sentido ele é juízo divino, ou se o juízo é a principal razão, mas rejeitar esse conceito de imediato é puro preconceito.



Acredito que a primeira afirmação de Cheung de que não podemos declarar que todos os desastres são sempre castigos divinos não deva ser vista como uma tentativa de negar o governo soberano e providencial de Deus. Sua preocupação repousa essencialmente sobre a nossa incapacidade em determinar as razões exatas pelas quais Deus faz o que faz. Contudo, ele mesmo reconhece, na sequência da sua argumentação, que nossa incapacidade não deve servir como argumento para negar a existência de tal propósito divino.
Não seria prudente, portanto, apontarmos as razões, as sucessões e as conclusões que pertencem exclusivamente à mente divina, por serem essas realidades sobre-humanas, mas também não seria correto acreditar que um destino cego, surdo e mudo seja o responsável por determinadas tragédias que afligem o mundo. Sempre há um propósito divino em todas as manifestações do seu juízo, inclusive quando as tragédias nos parecem muito chocantes. Deus é a força última por trás de todos os movimentos da história.
Assim, ainda que tenhamos dificuldade em identificar o problema específico que tenha precipitado o juízo divino, numa determinada situação, não podemos negar a realidade de um propósito que, em muitos casos, está associado a manifestação do seu juízo. Crer que alguns males são gratuitos e sem propósito é o mesmo que negar o senhorio de Deus sobre toda a história.
Pesa ainda, nesta mesma linha de argumentação, a razão da nossa segurança em Deus. Como poderíamos descansar em Deus se estas tragédias não fossem governadas por Ele? Como poderíamos saber, de fato, que todas as coisas cooperam para o nosso próprio bem se Deus não estiver por detrás de cada uma das coisas que acontecem?
Todos os desastres naturais, portanto, são castigos de Deus. Eles podem ser naturais, como no caso de alguém que escolhe habitar numa região de risco e no tempo da chuva vê sua casa soterrada, ou podem ser positivos, como no caso do exemplo bíblico de Sodoma e Gomorra, que foram visitadas pela ira de Deus que viu o pecado daquele povo. Mas sempre estarão sob o controle justo de Deus.





4. AS RETRIBUIÇÕES PROVIDENCIAIS DE DEUS COMO MANIFESTAÇÕES DOS SEUS JUÍZOS PARCIAIS – EXEMPLOS DA HISTÓRIA BÍBLICA





4.1 DEUS, A FONTE DAS CALAMIDADES


Antes de analisar exemplos específicos vale ressaltar a declaração do profeta Isaías que diz: Isaías 29:6 “Do SENHOR dos Exércitos vem o castigo com trovões, com terremotos, grande estrondo, tufão de vento, tempestade e chamas devoradoras.”. Aqui o profeta identifica claramente o Senhor como a fonte de calamidades naturais e isso para castigo. Calvino argumenta que de certo modo devemos descansar na certeza de que seremos afligidos por estas coisas somente ate onde Deus quiser que assim suceda.
Dentro desta perspectiva encontramos nas Escrituras Sagradas alguns exemplos de manifestações dos juízos parciais de Deus através dos elementos da natureza. Estes exemplos serão considerados a seguir:



4.2 EXEMPLOS DO ANTIGO TESTAMENTO


4.2.1 O Dilúvio



O primeiro registro histórico que encontramos nas Escrituras sobre a manifestação de juízos parciais de Deus através de elementos da natureza é a narrativa do Dilúvio. Segundo as Escrituras, por ter Deus visto a corrupção do homem resolveu visitá-lo com ira, conforme o registro de Gênesis 6.13 “Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra.”. Primeiramente, observamos a deliberação divina de dar cabo de toda carne e, mais adiante no texto, encontramos o Senhor declarando a forma deste juízo. No verso 17 ele declara: Gênesis 6:17 “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá.”. Matthew Henry, ao analisar este texto que identifica Deus como o causador destes males naturais, que trouxeram juízo, declara:


Particularmente Deus falou que destruiria mundo por uma inundação de águas (...). Ele poderia ter destruído todo gênero humano pela espada de um anjo, uma espada flamejante que viria sobre todo o mundo, como fez quando destruiu os primogênitos dos egípcios e o acampamento dos assírios (...) mas Deus escolheu fazer isto por uma inundação de águas que deveriam submergir o mundo. Não podemos estar seguros quanto às razões, mas Deus tem muitas setas (...) e ele pode escolher a vara com que corrigirá os seus filhos.



Observe que o comentário supracitado, aludindo ao texto bíblico de Gênesis 6.13, identifica Deus como o sujeito da ação e os elementos da natureza como os instrumentos utilizados pela livre vontade de Deus para exercer o seu juízo. Portanto, não é difícil concluir que as águas foram instrumentos do que chamamos aqui de juízos parciais de Deus através dos elementos da natureza.



4.2.2 O Exemplo De Elias


Outro momento marcante na história do Antigo Testamento se deu durante o ministério do profeta Elias.
Elias declarou que não choveria sobre a terra durante três anos e seis meses, conforme o registro de 1 Reis 17.1: “Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Tão certo como vive o SENHOR, Deus de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra.”.
O anúncio desse evento natural, como uma forma de manifestação do juízo divino, foi tratado por A. W. Pink, no livro La Vida de Elias, nos seguintes termos:

Durante o reinado de vários reis, Israel havia escarnecido e desafiado a Jeová sem que se houvesse produzido consequências terríveis; por isso, chegou a prevalecer a idéia de que o Senhor não existia na realidade (...).
Ainda que Deus, por suas próprias razões, tenha suportado com muita mansidão os vasos de ira preparados para a morte (Rm. 9.22), não obstante as provas suficientes e claras, através do curso da história humana, de que Ele é ainda hoje o governador dos ímpios e o vingador do pecado. Então, a Israel foi dada tal prova. Apesar da paz e da prosperidade de que havia desfrutado o reino por tanto tempo, o Senhor estava grandemente irado pela forma grosseira com a qual havia sido insultado publicamente e havia chegado a hora de Deus castigar severamente a seu povo desgarrado. Como consequência enviou Elias a anunciar a Acabe a natureza e duração do açoite. Note-se devidamente que o profeta foi com sua mensagem terrível, não ao povo mas ao rei, a cabeça responsável, e que tinha em sua mão o poder de retificar o que estava mal.



Quando Pink fala sobre a natureza do açoite percebemos sua compreensão de que Deus utiliza elementos da natureza como forma de manifestação dos seus juízos parciais. Ao fechar os céus, de modo que não viesse chuva sobre Israel, Deus se valia de meios para executar o seu juízo.
Contudo é importante observar que a oração de Elias não foi um pedido aleatório, ele tinha um fundamento. Quando Elias orou para que não chovesse sobre a terra, na condição de profeta, ele sabia das exortações que o Senhor fizera a Israel no passado. Sua oração considerava, portanto, as ameaças que Deus havia feito ao seu próprio povo de Israel. Em Deuteronômio 11:16-17 há uma declaração muito séria sobre o juízo de Deus diante do pecado de Israel:


Guardai-vos não suceda que o vosso coração se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos prostreis perante eles; que a ira do SENHOR se acenda contra vós outros, e feche ele os céus, e não haja chuva, e a terra não dê a sua messe, e cedo sejais eliminados da boa terra que o SENHOR vos dá.



A oração de Elias estava amparada na própria Palavra do Senhor. Ele não pediu o que achava melhor, mas aquilo que combinava com a revelação da vontade de Deus. Deste modo era Deus quem manifestava o seu juízo e não apenas o profeta que revelava a sua indignação diante da maldade do povo.



4.3 EXEMPLOS DO NOVO TESTAMENTO



4.3.1 O Sermão do Monte



Mateus 24:7 “Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares;”


Esta declaração é feita num contexto muito especial. No sermão do Monte Jesus está tratando das coisas referentes aos últimos dias. Ele descreve a grande tribulação, o arrebatamento e outros elementos próprios daquele período. E dentre esses sinais dos últimos dias ele fala sobre terremotos. Ora, se os terremotos são elementos da natureza e ao mesmo tempo sinas dos últimos dias, segue-se que eles são controlados por Deus e serão instrumentos de manifestação do seu juízo.


4.3.2 Jesus acalma uma tempestade


No Novo Testamento não encontramos muitos exemplos relacionados ao tema em questão, contudo, é clara a idéia de que Deus domina sobre os elementos da natureza e, quando ele faz isso, ele opera crescimento e despertamento espiritual.
Uma das passagens mais significativas das Escrituras é o registro de Mateus 8:27, onde se lê: “E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar” lhe obedecem?” . Ao repreender os ventos e o mar, acalmando aquela tempestade, Jesus mostrou seu poder em controlar a força dos ventos, ensejando assim o crescimento espiritual dos seus discípulos. Ao comentar esse texto John Gill afirma que ao revelar o seu poder sobre aquela tempestade Jesus se revelou como o Deus Todo Poderoso, alguém revestido de um brilho de majestade e de poder divino.

Deste modo entendemos que os exemplos bíblicos nos dão a segurança que precisamos para reconhecer que os males, chamados por muitos de naturais, acontecem sob o governo soberano e providencial de Deus. Ainda que nossa mente não possa alcançar e identificar todos os detalhes do propósito divino, ela, orientada pelas Escrituras Sagradas, não tem como negar a ação de Deus no meio das tragédias.
Exemplos como o de Noé, Elias e outros nos ajudam a entender que é perfeitamente normal esperar que Deus execute juízos parciais através dos elementos da natureza.





CONCLUSÃO


Não há como negar o controle absoluto de Deus sobre todas as coisas. No exercício da sua providência ele faz com que todos os termos do seu Decreto sejam cumpridos. E, se não cremos desta maneira, não temos como sustentar a idéia de um Deus soberano que governa, com segurança, todas as coisas para o fim que ele mesmo determinou.
Assim, desde que o pecado entrou no mundo cremos que Deus tem manifestado a sua ira contra toda a impiedade e muitas vezes ele faz isso através do uso de meios, ou seja, mediatamente. E, dentre esses meios, estão os elementos da natureza usados como instrumentos de manifestação da sua justiça.
A geração de Noé e os contemporâneos de Elias, especialmente, puderam contemplar o poder de Deus exercido sobre toda a criação. Eles puderam testificar o que, posteriormente, foi sustentado pelo profeta Isaías que declarou: Isaías 29:6 “Do SENHOR dos Exércitos vem o castigo com trovões, com terremotos, grande estrondo, tufão de vento, tempestade e chamas devoradoras.”.
Deste modo concluímos nosso trabalho na certeza de que o Senhor domina sobre tudo e sobre todos. Sobre os homens, sobre os céus, sobre a terra, enfim, sobre toda a sua criação, conduzindo todas as coisas para o cumprimento do seu propósito preordenado na eternidade.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



A Confissão de Fé, o Catecismo Maior, o Breve Catecismo. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991. 451p.

BERG, Davis Brandt. Unnatural Disasters – Judgment of God by the Devil. Disponível em < www.deeptruths.com/letters/unnatural_disasters.html > Acessado em 15 de junho de 2010

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. 790p.

BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software.

CALVINO, John, COMMENTARY ON THE PROPHET ISAIAH VOL. 1 - THE AGES DIGITAL LIBRARY COMMENTARY

______. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1

CAMPOS, Héber Carlos. O Ser de Deus e as suas obras – A Providência e a sua realização histórica. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001. 679p.

CHEUNG, Vincent. O Deus dos Desastres. Disponível em Acessado em 02 de junho de 2010

FERNANDO, Luís. Haiti – Catástrofe e Deus. Disponível em < http://ministerioforcaparaviver.blogspot.com/2010/01/haiti-catastrofe-e-deus.html> Acessado em 15 de junho de 2010

GILL, John. John Gill’s Expositor. Software Bíblia Online 2.0

GRONINGEN, Gerard V. Criação e Consumação – O Reino, a Aliança e o Mediador. v. 1. Tradução de Denise Meister. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002. 654p

HENRY, Matthew. Full Matthew Henry Commentary. Software Bíblia Online 2.0

HODGE, Alexander A. Esboços de Teologia. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2001. 952p.

JONES, Lloyd D. M. Paraíso Perdido e Recuperado – Disponível em Acessado em 05 de junho de 2010.

LIMA, Leandro Antônio. Razão da Esperança – Teologia para Hoje. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006. 672p.

PINK, Arthur W. La Vida de Elias. 3. ed. Barcelona: El Estandarte de La Verdade, 1992. 360p.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma Igreja Consolada pelo Senhor

Hoje eu estava preparando o estudo bíblico para a igreja e me deparei com um vídeo abençoador. Resolvi publicá-lo no meu blog, junto com os slides do estudo. Espero que abençoe a sua vida, como abençoou a minha. Pr. Cleverson

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Agora o vídeo: Veja que lição maravilhosa!

domingo, 9 de maio de 2010

Isaías 58.6-7
JEJUM
Rev. Cleverson Gilvan
INTRODUÇÃO.
Neste estudo não discutiremos aspectos que, segundo nosso propósito aqui, julgamos secundários. Como por exemplo, a questão de jejuns parciais e totais, ou ainda, preparação e entrega. Como é este nosso primeiro contato com o assunto, discutiremos, a priori, a sua prática no meio cristão.

CONCEITUAÇÃO
A palavra grega (nhstei>a) tem o sentido de abstinência. O termo dá a idéia de deixar de comer por falta, voluntariamente ou por motivos religiosos - segundo James Strong no seu dicionário Greek Dictionary Of The New Testament.
John Davis o conceitua simplesmente como uma abstinência de alimentação ou o espaço de tempo em que se dá o jejum, que pode ser voluntário ou involuntário.

A PRÁTICA DO JEJUM NO AT

A linguagem do Pentateuco é ambígua quando trata de Jejum. A ausência do termo pode sugerir, num primeiro momento, que não havia nenhuma espécie de prescrição. Mas há quem sustente que expressões como “Afligireis as vossas almas” de Lv. 16.29, devem ser entendidas como referências ao jejum, o que parece razoável conforme Atos 27:9 “Depois de muito tempo, tendo-se tornado a navegação perigosa, e já passado o tempo do Dia do Jejum, admoestava-os Paulo,” e Isaías 58:3 “dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta? Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho.”. Dentre os sustentadores desta tese citamos John Gill e dentre os opositores John Davis.
Em alguns momentos da história do AT jejuns foram ordenados, como no tempo do profeta Zacarias, onde jejuns deveriam ser realizados no quarto, quinto, sétimo e décimo mês – (Zc. 8.19).
Não obstante, o que mais chama a nossa atenção são os jejuns voluntários. A primeira ocorrência é com Davi, que suplicou pela vida do seu filho com a mulher de Urias (2º Sm. 12.22). Depois disso vários outros exemplos são encontrados nas Escrituras – Ed. 8.21, Sl. 35.13. (para uma lista mais completa veja verbete “jejum” em Dicionário da Bíblia – John Davis).
Davis também observa que em casos de calamidades públicas eram proclamados jejuns - Jeremias 36:9 “No quinto ano de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, no mês nono, apregoaram jejum diante do SENHOR a todo o povo em Jerusalém, como também a todo o povo que vinha das cidades de Judá a Jerusalém.”. Existem vários outros textos.
Em várias ocasiões o jejum era proclamado no meio do povo de Israel – 2ª Rs. 25.3, Jr. 52.6 e etc...
Já no NT encontramos os fariseus jejuando duas vezes por semana. Contudo, devemos ressaltar que a maneira como eles conduziram os jejuns foi duramente censurada por Jesus.

A PRÁTICA DO JEJUM EM CREDOS E CONFISSÕES CRISTÃS

DIDAQUÉ – Um catecismo do Primeiro século

Ao falar sobre a celebração litúrgica o Didaqué ensina: “Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.”.
E, posteriormente, falando sobre a frequência e a distinção do jejum cristão ele também declara: “seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação.”.


A CONFISSÃO DE FÉ DE AUGSBURGO – Um documento de tradição Luterana, séc. XVI – 1530

Como um documento de reação à doutrina católica suas posições são apologéticas. Veja:

“Os nossos são acusados falsamente de proibirem boas obras. Pois os seus escritos sobre os Dez Mandamentos bem como outros escritos provam que deram bom e útil ensino e admoestação a respeito de estados e obras cristãos verdadeiros, de que pouco se ensinou antes de nosso tempo. Insistia-se, ao contrário, em todos os sermões principalmente em obras pueris e desnecessárias, tais como rosários, culto de santos, vida monástica, romarias, jejuns e dias santos prescritos, confrarias, etc.”

E ainda,

Em tempos anteriores ensinou-se, pregou-se e escreveu-se que diferença de comidas e tradições semelhantes instituídas por homens servem para merecer graça e satisfazer pelos pecados. Por essa razão se excogitaram diariamente novos jejuns, novas cerimônias, novas ordens e coisas semelhantes, e nisso se insistiu com veemência e energia, como se tais coisas fossem culto divino necessário pelo qual se merecesse graça se a gente o observasse e como se sua inobservância constituísse grande pecado. Disso resultaram muitos erros perniciosos na igreja.

Em primeiro lugar, com isso se obscurecem a graça de Cristo e a doutrina da fé, que o evangelho põe diante de nós com grande seriedade, insistindo vigorosamente que se considere o mérito de Cristo como algo de grande e precioso e se saiba que a fé em Cristo deve ser posta muito acima de todas as obras. Por isso São Paulo batalhou com veemência contra a lei de Moisés e as tradições humanas, para aprendermos que diante de Deus não nos tornamos piedosos mediante as nossas obras, porém somente pela fé em Cristo, que alcançamos a graça por amor de Cristo. Essa doutrina extinguiu-se quase que por completo com isso de se haver ensinado a merecer graça por jejuns prescritos, distinção de manjares, vestimenta, etc.

E é bem crível que alguns bispos foram enganados com o exemplo da lei de Moisés. Daí provieram tão inumeráveis ordenações: que é pecado mortal fazer trabalho manual em dias santos, ainda quando não haja ofensa a outros; que é pecado mortal omitir as horas canônicas; que alguns alimentos poluem a consciência; que jejum é obra com que se reconcilia a Deus;

CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER – Um documento de tradição Reformada

Sem o espírito apologético dos Luteranos nesse particular, os teólogos de Westminster ensinaram:
“A leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos com graças no coração, bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo - são partes do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso.”

Os teólogos de Westminster reconheciam o jejum como uma prática cristã recomendável, embora não o vissem como um instrumento de uso ordinário.

OS PRINCÍPIOS DE LITURGIA DA IGREJA PRESBITERIANA

Um importante documento da Igreja Presbiteriana do Brasil, aprovado pelo seu Supremo Concílio é o conhecido “Princípios de Liturgia”. Ali somos orientados quanto ao Jejum da seguinte maneira:

CAPÍTULO XI - JEJUM E AÇÕES DE GRAÇA - Art.24 - Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças. Art.25 - Os jejuns e ações de graças poderão ser observados pelo indivíduo ou família, Igrejas ou Concílios.


Pelo menos podemos entender que a prática do jejum tem acompanhado os cristãos no decurso da história. Contudo, uma interpretação muitas vezes difusa e superficial tem contribuído para uma espécie de acetismo (a crença num corpo mal que precisa de purificação) e até mesmo de barganhas e trocas com Deus. Perceba que os documentos de tradição reformada o vêem como um recurso extraordinário. Aqui, vale lembrar que nas igrejas de tradição libertária e (pentecostal) ele é apresentado como um recurso ordinário.

TEXTOS QUE REQUEREM NOSSA ATENÇÃO

Marcos 9:29 Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração [e jejum].
Mateus 17:21 [Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.]
Ambos os textos apresentam problemas de variantes textuais e a narrativa no texto de Lucas 9.37-43 não fala sobre Jejum. O que nos leva a entender que há uma boa probabilidade desta terminologia ter sido inserida posteriormente por um copista.
Contudo, ainda que admitamos que o termo compõe o escrito original (ou autógrafos), parece-nos que o cerne da mensagem não é a prática do jejum em si, mas a disposição mental e espiritual dos discípulos. Deste modo, o texto não estaria diretamente regulamentando a prática do jejum, mas admoestando os discípulos quanto à sua falta de uma fé viva (Lc. 9.41 – “Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos sofrerei? Traze o teu filho.” ).

Mateus 9:15 Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.

Aqui devemos observar que embora os discípulos de João Batista usassem tal prática não há registro de que os discípulos de Jesus tenham jejuado enquanto desfrutavam da sua companhia.


O LUGAR DO JEJUM NA VIDA CRISTÃ – Uma análise sobre o prisma do seu uso no NT
Alguns pontos devem ser observados:

1) O Jejum foi observado por Jesus e por seus apóstolos.

Mateus 4:2 E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

Atos 13:2 E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.

2) Não há uma determinação peremptória acerca desta prática nas páginas do NT como no caso da oração.

1 Ts 5:17 Orai sem cessar.

Devemos considerar que o imperativo do verbo “orar” é recorrente nas páginas da Escritura, tendo sua maior incidência no Novo Testamento. Das 18 ocorrências pesquisadas 14 eram no Novo Testamento.
A única ocorrência imperativa do verbo “jejuar” está no AT em Et. 4.16 e não trata de uma normatização, mas de um pedido particular. Observe que esta ocorrência está fora do Pentateuco.

3) Em casos especiais ele pode ser observado como um recurso extraordinário, a semelhança do exemplo neotestamentário. Neste caso, deve-se observar as recomendações de Jesus dada aos seus discípulos. Ao regular o seu uso Jesus nos faz crer na possibilidade desta prática como um recurso espiritual. Veja abaixo:


Mateus 6.16-18
16 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, 18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

A) O verdadeiro jejum não deve criar imagens superficiais de santidade.
“…não vos mostreis contristados como os hipócritas…”

Veja Isaías 58:5 Seria este o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aceitável ao SENHOR?

B) O verdadeiro jejum nos proporciona uma comunhão íntima e secreta com Deus

“…quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto …”

Não obstante reconhecermos a possibilidade de jejuns públicos, a comunhão é primeira e essencialmente pessoal e, a partir daí, comunitária.
O profeta Isaías (Is. 58.6-7) também insiste na idéia de que o verdadeiro jejum tem a ver com o abandono do pecado.

C) O verdadeiro Jejum atrai as bênçãos de Deus sobre as nossas vidas.

“…e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará…”
Não que exista qualquer mérito no jejum, mas uma vez que nos dispomos a investir tempo em nossa vida espiritual, tornando-nos mais sensíveis às realidades celestes pelo desligamento das coisas materiais, Deus nos abençoa. E esta benção decorre da comunhão, da oração e da edificação.

Cl. 3.1-4
1 Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. 2 Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; 3 porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. 4 Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória.

CONCLUSÃO
Devemos considerar ser, no mínimo curiosa, a falta de uma normatização explícita desta prática no NT. Parece que a prática era comum, como se tivesse vindo do AT sem muitas discussões (At. 27.9). Tudo isso nos leva a entender que embora não exista nada contrário ao seu uso nas Escrituras, a sua prática deve ser recomendada com moderação e discernimento espiritual, uma vez que a doutrina dos meios de graça nomeia apenas a oração, a palavra e os sacramentos como instrumentos ordinários de promoção da vida espiritual.
O jejum pode e deve ser usado como um recurso extraordinário, contudo, sempre acompanhado do devido entendimento das Escrituras, a fim de evitar um mau entendimento dos valores meritórios de Cristo e das conseqüentes comunicações graciosas de Deus.

ALGUNS CONSELHOS PRÁTICOS

1. O jejum pode ser praticado individualmente, em família ou com toda a igreja. Sempre lembrando que cada participante deve considerar a sua condição física e o cuidado espiritual (tempo de oração, leitura da palavra e comunhão, quando em grupo);
2. O propósito deve ser sempre o crescimento espiritual, que deve ser marcado pelo abandono do pecado e pelo desejo da santidade. Naturalmente, motivos de oração por crises, calamidades, enfermidades e outros podem e devem marcar os períodos de jejum.
3. Seu uso deve ser moderado e biblicamente orientado. Não devemos esquecer que os meios de graça são a oração, a palavra e os sacramentos. Estes devem ter lugar na vida diária da igreja, enquanto o jejum é um recurso extraordinário.
4. O jejum não é apenas uma dieta alimentar. Todas as atividades de entretenimento devem ser suspensas naquele dia a fim de se gastar tempo em oração.
5. “Quando você for iniciar o seu período de jejum, e também quando findá-lo, faça de modo solene. Recolha-se a um lugar, separe uma porção das Escrituras para meditar durante o tempo em que estiver jejuando, ore e estabeleça o início e o fim deste momento de consagração. No momento de terminar o jejum, também recolha-se, ore e entregue o seu jejum, agradecendo a Deus, porque Ele lhe preservou capacitando-o a cumprir este santo propósito.Rev.Tokashiki