sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O AFASTAMENTO DA CEIA, COMO INSTRUMENTO DE DISCIPLINA, É BÍBLICO?


Estas são minhas primeiras reflexões sobre o tema. Acredito que ela pode, pelo menos, fomentar uma discussão mais substancial. Por isso, leia o artigo e apresente sua opinião com base na análise séria das Escrituras.


INTRODUÇÃO



Um dos temas menos discutidos na Igreja contemporânea é o da disciplina eclesiástica. Certamente, boa parte desta apatia diante do tema se deve a permissividade de nossos dias aliada a uma pseudo tolerância. Como filhos da Reforma Protestante precisamos resgatar não apenas a discussão como também desenvolvê-la à luz dos ideais da Reforma, que sempre volta às Escrituras quando um tema precisa ser provado por ela.
Assim, neste trabalho procuraremos discutir o tema da suspensão da comunhão da Ceia do Senhor como método disciplinar e, para tanto, analisaremos o desenvolvimento do pensamento na história da igreja, a interpretação dos principais reformadores e o estudo das Escrituras na discussão do tema.
Certo de que essa é uma discussão que tem escapado da maioria dos reformadores, que praticamente aceitaram a questão como um ponto pacífico, adentramos no tema com temor e tremor, na esperança de fornecer uma pequena contribuição para futuros desenvolvimentos do pensamento acerca da disciplina eclesiástica.
Que a leitura desse artigo contribua para o início de uma discussão ainda incipiente.

* Se você deseja ler o texto na íntegra envie um email para cleversongilvan@gmail.com

O VOLUNTARISMO TEOLÓGICO DE CHARLES FINNEY


INTRODUÇÃO



Certamente Charles Finney tornou-se um dos nomes mais conhecidos do cristianismo. Suas teses avivalistas e seu estilo peculiar lhe renderam títulos que não condizem com o conteúdo da sua obra literária. Então, não seria adequado chama-lo de um dos maiores teólogos que o mundo conheceu, pois ele mesmo declara que não havia definido ainda muitos aspectos da sua teologia sistemática.
Então, Finney não é propriamente um teólogo sistemático, mas não se pode negar que suas doutrinas acabaram formando gerações de pregadores, plantadores de igrejas e avivalistas. Seu pragmatismo, talvez seja um dos legados mais nocivos à vida da igreja contemporânea que luta para definir com clareza sua identidade evangélica.
Neste trabalho procuraremos analisar a sua principal obra, conhecida como a sua teologia sistemática, no intuito de verificar como ele trata a questão da volição humana e que importância ele confere a ela. De antemão podemos afirmar que o pensamento de Finney é uma espécie de voluntarismo ético, ainda que em alguns momentos ele esboce algum tipo de voluntarismo teológico.
O estudo e a difusão clara do pensamento de Finney podem ser um instrumento valioso para auxiliar as comunidades cristãs influenciadas pelo seu pensamento a reconsiderarem a soberania de Deus na clareza da revelação bíblica.




1 O VOLUNTARISMO


Definição


Basicamente podemos dizer que o voluntarismo é uma teoria filosófica que ensina que a vontade tem primazia sobre o intelecto. Nele, a vontade é tradicionalmente entendida como a capacidade de fazer escolhas e decisões sem ser limitada pelo intelecto.
O voluntarismo como filosofia e como aspecto ético tem sido entendido também como “a tese que podemos adotar crenças e outras atitudes proposicionais de acordo com nossa vontade. Em outras palavras, é a tese que acreditamos porque queremos. ”, ou ainda a teoria do conhecimento segunda a qual a vontade intervém em todo juízo. Desta maneira o voluntarismo insiste no ato e na responsabilidade do indivíduo que afirma. Assim, podemos vê-lo como uma doutrina “que afirma que o fundo das coisas deve ser concebido como uma vontade, em analogia à vontade humana. Um querer... como na concepção de Schopenhauer, de Nietzsche ”.
No decurso deste trabalho procuraremos analisar as proposições de Charles Finney dentro dos limites estabelecidos pelas definições supracitadas. Isto significa que não trataremos do chamado voluntarismo teológico, propriamente dito, que segundo William Craig recebe a seguinte definição:

O voluntarismo (teológico) é uma visão, defendida por alguns teólogos, de acordo com a qual os valores morais são baseados inteiramente na vontade soberana de Deus. Não existe explicação a não ser a escolha de Deus sobre os valores morais. Ele arbitrariamente escolhe o que é bom e o que é ruim.


Assim, no presente estudo consideraremos o voluntarismo de Charles Finney no que diz respeito ao homem. Como ele apresenta a vontade como o elemento mais importante e dominante do ser humano.






2 PEQUENA BIOGRAFIA DE CHARLES FINNEY




Charles Grandison Finney nasceu na pequena cidade norte americana de Connecticut, em 24 de agosto de 1792. Cedo ele já demonstrou espírito de liderança e logo começou a trilhar o caminho do direito, que foi interrompido na sua conversão, quando ele resolveu seguir o caminho de pregador do evangelho.
Sob a orientação do pastor George Washington Gale formou-se ministro da Igreja Presbiteriana em 1824, mas desde cedo revelou sérias discordâncias com aspectos fundamentais da doutrina calvinista.
Sua ênfase na volição humana, como sendo praticamente autônoma, é percebida já no testemunho que ele mesmo registra da sua própria conversão. Então, em 10 de outubro de 1821, ao dirigir-se para uma floresta, ele declarou: “vou dar o meu coração a Deus ou nunca vou sair de lá...” .
A partir daí seu ministério começou a ser desenvolvido em comunidades das fronteiras superiores de Nova Yorque. Lá, seus sermões logo chamaram a atenção dos seus ouvintes, que até então, nunca tinha visto aquele estilo que mais parecia o de um advogado do que propriamente de um pregador.
Em suas mensagens ele popularizou os chamados “apelos evangelísticos”, onde o convite à resposta humana era fortemente explorado. Frases como “você já tem tomado a sua posição”, ou o “que você tem feito” eram comuns, e, em princípio, chegaram a provocar algum desconforto em seus ouvintes. O seu mais popular sermão já demonstrava também sua forte ênfase na volição humana como fator preponderante na sua salvação. Aquele sermão foi intitulado como “Os pecadores estão obrigados a mudar seus próprios corações”. Esse estilo já revelava sua ênfase no voluntarismo como determinante na sua soteriologia.
Naturalmente, a postura teológica e ministerial de Charles Finney encontrou enorme resistência entre os teólogos de orientação reformada. Uma das mais contundentes críticas é a de Michael Horton, que declara:


O avivalista não apenas abandonou o princípio fundamental da Reforma (a justificação), tornando-se um rebelde contra o cristianismo evangélico, como também rejeitou as doutrinas que têm sido acreditadas por católicos e protestantes (tais como o pecado original e a expiação vicária). Por isso, Finney não é simplesmente um arminiano, mas um pelagiano. Ele não é apenas um inimigo do protestantismo evangélico mas também do cristianismo histórico, no mais abrangente sentido da palavra.



Certamente, os aspectos supracitados já nos ajudam a entender que a teologia de Finney tem um forte apelo moral. E não poderia ser diferente considerando sua ênfase na volição humana.
Charles Finney faleceu aos 83 anos, vítima de problemas cardíacos, em 1875 .
A partir daqui observaremos como o pensamento de Finney é desenvolvido na obra que é chamada sua Teologia Sistemática.








3 O VOLUNTARISMO NA TEOLOGIA DE CHARLES FINNEY


O voluntarismo de Charles Finney está claro em toda a sua obra. Ele faz questão de afirmar sua tese da liberdade da vontade com toda clareza possível. Logo no início da sua obra, ainda no prefácio, ele declara:


Nesta obra empenho-me por definir os termos empregados por clérigos cristãos e as doutrinas do cristianismo, conforme os compreendo, e levar às conclusões lógicas as conseqüências das admissões cardeais de autores teológicos mais recentes e típicos. Insisto, especialmente, em levar às suas conseqüências lógicas as duas afirmações de que a vontade é livre e que o pecado e a santidade são atos voluntários da mente.



Mais adiante, já no seu capítulo introdutório, quando ele discute sobre várias classes de verdade, ele faz questão de declarar que a vontade é a nossa faculdade executiva, ou a faculdade de fazer ou agir. Para ele, a vontade tem o poder, inclusive de comandar o próprio intelecto, uma vez que o intelecto é uma receptividade em contraposição a um poder voluntário.
Certamente, essa sua ênfase na vontade como uma faculdade executiva é um dos elementos centrais na elaboração daquilo que foi chamado nessa obra de sua teologia sistemática. Michael Horton declarou que a teologia sistemática de Finney gira em torno da moralidade humana, o que inclusive torna impróprio chamá-la de teologia sistemática.
Essa ênfase na moralidade humana como elemento fundamental na elaboração da sua tese da liberdade da vontade é clara na sua definição de livre arbítrio, como veremos a seguir:


Por livre-arbítrio entende-se o poder de escolher ou recusar-se a escolher, em cada situação, em obediência à obrigação moral. Livre-arbítrio implica o poder de gerar e tomar escolhas próprias e de exercer nossa soberania em cada situação de escolha em questões morais — de decidir ou escolher de acordo com o dever ou não em todos os casos de obrigação moral. Que o homem não pode estar sob a obrigação moral de executar uma impossibilidade absoluta é uma verdade primeira da razão. Mas a causalidade do homem, toda sua capacidade de causalidade para executar ou fazer algo está em sua vontade. Se não puder ter vontade, nada pode fazer. Toda sua liberdade deve consistir em sua capacidade de desejar. Suas ações externas e seus estados mentais estão ligados às ações de sua vontade por uma lei de necessidade.



Percebemos que seu conceito de livre arbítrio não considera as inclinações interiores do ser humano, com suas disposições morais e espirituais, como determinantes no seu processo de escolha.
E a diferença de pensamento com o conceito calvinista fica evidente na sequência, quando ele continua argumentando sobre a essência da liberdade da vontade.


As seqüências de escolha ou volição estão sempre sob a lei da necessidade e, a menos que a vontade seja livre, o homem não possui liberdade; e se ele não possui liberdade, não é um agente moral, ou seja, é incapaz de ações morais e de caráter moral. O livre-arbítrio, portanto, no sentido acima definido, deve ser uma condição da agência moral e, é claro, da obrigação moral.



Deste modo Finney insiste que todas as ações só podem de fato ser realizadas se a vontade for realmente livre. E aqui Finney pensa inclusive na capacidade de desejar fazer o que se quer fazer. E essa conclusão o leva a dizer textualmente: “a menos que a vontade seja livre, o homem não possui liberdade; e se ele não possui liberdade, não é um agente moral” Assim, o livre arbítrio, como definido por ele, é uma condição de agência moral. E isso, de tal forma, que nenhuma obrigação ou responsabilidade moral pode ser atribuída aos homens sem que eles gozem desta plena liberdade: “A consciência de afirmar a liberdade da vontade, ou seja, da capacidade de desejar de acordo com a obrigação moral ou de recusar-me a fazê-lo é uma condição necessária para a afirmação da obrigação.”
Essa questão da responsabilidade como decorrente da liberdade é um dos pontos de maior concentração na argumentação de Finney. Ele reconhece a existência de uma obrigação moral do homem, mas ele só a admite se a vontade for verdadeiramente livre.


Em teoria, o livre-arbítrio no homem tem sido negado. Ainda assim, os mesmos que o negam têm, em seu julgamento parcial, pressuposto a liberdade da vontade humana, do mesmo modo que os defensores mais dedicados do livre arbítrio humano e de maneira tão completa quanto eles. Aliás, ninguém jamais conseguiu nem conseguirá, na prática, questionar a liberdade da vontade humana, sem ser com justiça acusado de insanidade. Por uma necessidade de sua natureza, cada agente moral tem consciência de que é livre.



A idéia, no argumento que vai sendo construído por Finney, leva-nos a entender que a liberdade da vontade deve necessariamente ser caracterizada pela possibilidade de recusar ou rejeitar algo, preferindo outra coisa de natureza diferente.
Assim, todos esses elementos acabam declarando a importância que Finney confere à volição como o elemento central na constituição do homem.








4 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NOS CHAMADOS ATRIBUTOS DO AMOR


Finney continua apresentando o seu voluntarismo, nessa discussão dos chamados atributos do amor, reassumindo a premissa de que todos os agentes morais possuem a vontade ou a capacidade de escolher ou rejeitar em todos os casos de obrigação moral.
Para ele os atributos de amor podem ser considerados da seguinte maneira:

Demonstrou-se que o resumo e o espírito de toda a lei é devidamente expresso em uma palavra: amor. Também se demonstrou que esse amor é benevolência ou boa vontade; que consiste em escolher o máximo bem de Deus e do ser universal, pelo próprio valor intrínseco, num espírito de inteira consagração a isso como um fim último da existência.


Finney começa o seu pensamento sustentando a teste de que a voluntariedade, a liberdade e a inteligência são atributos naturais do amor. E ele destaca que a mente é livre e espontânea em seu exercício desses atributos. Esses atributos, que de certo modo apontam para a nossa relação com Deus, são virtudes que devem ser entendidas como um fenômeno da vontade .
O voluntarismo é percebido na seguinte declaração:


O intelecto, por necessidade, aprova de modo perfeito o caráter de Deus quando o compreende. O intelecto está tão ligado à sensibilidade que, quando percebe a excelência divina ou a excelência da lei divina em sua plena luz, a sensibilidade é afetada pela percepção do intelecto como algo decorrente e necessário; de modo que com freqüência brilha e queima na sensibilidade, enquanto a vontade ou o coração não é afetada.


O argumento dele caminha no sentido de sustentar que a religião então e sempre é necessariamente um fenômeno da vontade, uma vez que possui tais atributos da volição que pode comandar ou obedecer.









5 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NA SUA DOUTRINA SOBRE EXPIAÇÃO



Nossa primeira providência é destacar o conceito de expiação, como esboçado na teologia de Finney:

A palavra "expiação" vem do termo hebraico cofer. Trata-se de um substantivo do verbo caufar, cobrir. O cofer ou a cobertura era o nome da tampa ou cobertura da arca da aliança e constituía o que era chamado propiciatório. A palavra grega traduzida por expiação é katallage. Isso significa reconciliação com o favor ou, mais estritamente, os meios ou condições para que haja reconciliação com o favor; de katallasso, "mudar ou trocar". O significado estrito do termo é substituição. Um exame dessas palavras originais, no contexto em que se apresentam, mostrará que a
expiação é a substituição governamental da punição dos pecadores pelos sofrimentos de Cristo. São os sofrimentos de Cristo cobrindo os pecados dos homens.


Contudo, alguns conceitos estranhos acerca da expiação de Cristo começam a sugerir a volta ao argumento voluntarista. Quando Finney trata da idéia de substituição vicária, ele parece confundir o real significado da obra de Cristo. Ele diz:

(2) Se tivesse obedecido por nós, não teria sofrido por nós. Se sua obediência substituísse nossa obediência, com certeza Ele não teria cumprido a lei por nós, como nosso substituto, sob uma aliança de obras e, ao mesmo tempo, sofrido como substituto, submetendo-se à penalidade da lei. (3) Se Ele obedeceu à lei como nosso substituto, por que se insiste na nossa volta à obediência pessoal como sine qua non de nossa salvação? (4) A idéia de que alguma parte da expiação consistia na obediência de Cristo à lei por nossa causa, em nosso lugar e em nosso favor indicaria que Deus requer: (a) A obediência de nosso substituto; (b) O mesmo sofrimento, como se nenhuma obediência fora prestada; (c) Nosso arrependimento; (d) Nosso retorno à obediência pessoal; (e) E isso o mostraria, afinal, atribuindo nossa salvação à graça. Estranha graça essa que requer que um débito seja pago várias vezes, antes de cumprir-se a obrigação.



Para ele a expiação de Cristo tinha o propósito de satisfazer a justiça pública, que para ele “Consiste na promoção e proteção dos interesses públicos por tal legislação e tal administração da lei, conforme é exigido pelo bem maior do público .”.De certo modo, Finney acaba sugerindo que a expiação de Cristo serviu como uma espécie de influência sobre os agentes morais . Deste modo, ela serviria como uma motivação para que os agentes morais buscassem a virtude. Isso tornaria a salvação como resultado de uma imitação do exemplo observado no próprio Cristo, quando este obedeceu perfeitamente todas as exigências da lei moral de Deus.
A partir daí é preciso considerar o conceito de extensão da expiação por Finney. Diferentemente do pensamento reformado que apregoa uma expiação limitada, Finney crê numa expiação ilimitada, o que ele mesmo declara em sua obra:



6. Que foi feita por toda a humanidade é evidente pelo fato de ser oferecida indiscriminadamente a todos. 7. Os pecadores são universalmente condenados por não a receber. 8. Se a expiação não fosse destinada a toda a humanidade, seria-nos impossível não considerar Deus insincero ao lhe fazer a oferta da salvação por meio da expiação. 9. Se a expiação foi feita para uma parte apenas, nenhum homem pode saber se tem o direito de abraçá-la até que uma orientação direta de Deus lhe faça saber que ele faz parte do grupo.




Esse universalismo soteriológico de Finney acabará ressaltando o seu voluntarismo, como ficará evidente na medida em que caminhamos na análise do seu pensamento.
Ele segue insistindo na tese do convite universal como um argumento em favor de uma expiação universal. A partir daí ele afirma que o fato de Deus censurar aqueles que rejeitam a expiação é mais uma prova do seu caráter indiscriminatório. Naturalmente, perceberemos que o voluntarismo repousará sobre o fato dele crer que esse convite é feito a vontade dos agentes morais, que livremente a receberão ou a recusarão. Deste modo, Finney crê que é possível que todos aceitem ou até mesmo que todos a rejeitem, mas nesse último caso ela continuaria ainda tendo um valor infinito para o universo, pois nos traria a mais gloriosa revelação de Deus.






6 O VOLUNTARISMO NA DOUTRINA DA REGENERAÇÃO



Finney apresenta uma visão claramente sinergista quando discute e regeneração. Para ele não é possível regeneração sem uma cooperação de Deus, do homem e até mesmo do “outro”, uma referência aquilo que podemos “operar” na vida do próximo , citando para isto textos como Tg. 5.19-20 .
Para ele a regeneração é uma mudança radical no coração. Contudo, o termo coração aqui acaba sendo equivalente a volição, pois trata do lugar onde ele vê a intenção última da alma.


A regeneração, portanto, é uma mudança radical da intenção última e, obviamente, do fim ou alvo da vida. Vimos que a escolha de um fim é eficiente em produzir volições executivas ou o uso dos meios para obter seu fim. Uma escolha última egoísta é, pois, um coração perverso, do qual flui todo o mal; e uma escolha última benevolente é um coração bom, do qual fluem todo o bem e atos louváveis.



Mais adiante os elementos relacionados à vontade ficam ainda mais explícitos.


A regeneração, para possuir as características atribuídas a ela na Bíblia, deve consistir numa mudança na atitude da vontade, ou numa mudança em sua escolha, intenção ou preferência última; uma mudança que troque o egoísmo pela benevolência; a escolha da gratificação própria como o fim último e supremo da vida pela escolha suprema e última do máximo bem-estar de Deus e do universo; de um estado de inteira consagração ao interesse próprio, indulgência própria, gratificação própria, por si ou como um fim, e como o fim supremo da vida, para um estado de inteira consagração a Deus e aos interesses de seu reino como o supremo e último fim da vida.


Finney faz questão de enfatizar a agência volitiva dos seres morais na regeneração. No tópico onde ele trata sobre as chamadas “Agências empregadas na regeneração”, logo após discutir a participação do Espírito Santo, dentro de sua perspectiva sinergista, ele declara:


2. Vimos que o indivíduo é ativo na regeneração, que a regeneração consiste em o pecador mudar sua escolha, intenção, preferência última; ou em mudar do egoísmo para o amor ou benevolência; ou, em outras palavras, em voltar-se da suprema escolha da gratificação própria para o supremo amor a Deus e a amor equivalente a seu próximo. É claro que o objeto da regeneração deve ser um agente na obra.



Essa agência do indivíduo na obra da regeneração é o que dá para ele, segundo Finney, a noção de responsabilidade para com a obra de Deus em sua vida. A ênfase na volição humana como um elemento imprescindível à obra da regeneração chega a produzir afirmações completamente inconvenientes, do ponto de vista da teologia reformada, como quando ele declara: “Nem Deus nem qualquer outro ser podem regenerá-lo, caso ele não se decida. Se ele não mudar sua escolha, é impossível ela ser mudada..” Por isso, reside nos agentes morais a capacidade constitucional de aprovar o que é certo e de reprovar o que é errado.






7 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NA SUA ANÁLISE DA CAPACIDADE NATURAL E NA CAPACIDADE DA GRAÇA



Por capacidade ou incapacidade natural Finney discute se o homem pode ou não obedecer aos mandamentos de Deus. Isto, para ele, é uma questão fundamental na moral e na religião.
Por isso, Finney começa a discutir a importância da vontade:


Sabemos pela consciência que a vontade é a faculdade executiva, e que não podemos fazer absolutamente nada sem a vontade. O poder ou capacidade da vontade são absolutamente indispensáveis para a nossa ação. Se não temos o poder de querer, não temos o poder ou capacidade de fazer qualquer coisa. Todo poder ou capacidade de fazer reside na vontade, e o poder de querer é a condição necessária da capacidade de fazer. Na moral e na religião, como veremos mais adiante, o querer é o fazer. O poder de querer é a condição da obrigação de fazer.



Na verdade, a primeira preocupação de Finney é combater o pensamento reformado, conforme exposto por Jonathan Edwards. Segundo Finney, a concepção reformada não dá ao homem qualquer capacidade natural, ou qualquer liberdade da vontade. Por isso, mais adiante em sua obra, quando ele mesmo começa a definir o que seria a capacidade natural, ele diz:


1. Que a obrigação moral respeita estritamente só os atos da vontade. 2. Que o todo da obrigação moral se soluciona numa obrigação em ser desinteressadamente benevolente, isto é, em querer o mais alto bem do ser humano para o próprio bem de quem o deseja. 3. Que a vontade é o fazer exigido pelo verdadeiro espírito da lei moral. A capacidade de querer conforme a lei moral tem de ser a capacidade natural de obedecer a Deus. Mas: 4. Esta é e tem de ser a única liberdade adequada da vontade, na medida que a moral e a religião e a lei moral estão relacionadas. Isto tem de constituir a verdadeira liberdade da vontade que consiste na capacidade ou poder de querer, quer de acordo, quer em oposição às exigências da lei moral. Em outras palavras, a verdadeira liberdade da vontade tem de consistir no poder ou capacidade de querer em toda instância, quer de acordo, quer em oposição à obrigação moral.



Assim, para ele a responsabilidade diante de qualquer obrigação moral, principalmente em relação à lei de Deus, está diretamente relacionada à capacidade de se fazer aquilo que é exigido. Sem essa capacidade não pode ser atribuído a nenhum agente moral qualquer responsabilidade. Por isso, para ele capacidade natural tem a ver, necessariamente, com a liberdade da vontade.


1. O governo moral de Deus presume em todos os lugares e implica a liberdade da vontade humana e a capacidade natural dos homens em obedecer a Deus. Cada mandamento, cada ameaça, cada advertência e denúncia na Bíblia implica e presume isto. Nem a Bíblia viola a inteligência humana com esta pressuposição, pois: 2. A mente presume necessariamente a liberdade da vontade humana como uma verdade primeira.



Para ele, sem essa liberdade nunca poderíamos pensar em fazer qualquer coisa. Além do mais Deus não poderia exigir que o homem obedecesse se ele não fosse verdadeiramente livre. A despeito da tese calvinista da depravação total e, como decorrência desta doutrina, da incapacidade total, Finney assegura que as páginas das Escrituras sempre salientaram a possibilidade do homem responder de forma voluntária a Deus, de tal forma que seria um absurdo declará-lo como incapaz.


A Bíblia em todos os lugares e em todos os sentidos presume a liberdade da vontade. Este fato se salienta em alto relevo em todas as páginas da inspiração divina. Mas esta é apenas a pressuposição necessariamente feita pela inteligência universal do homem. A linguagem forte freqüentemente encontrada nas Escrituras sobre o assunto da incapacidade do homem em obedecer a Deus só é designada a representar a força do seu egoísmo voluntário e a inimizade contra Deus, e nunca a implicar numa incapacidade natural própria. E, pois, uma perversão bruta e muito prejudicial das Escrituras, como também uma contradição da razão humana, negar a capacidade natural, ou, o que é a mesma coisa, a agência livre natural do homem e sustentar uma incapacidade natural própria em obedecer a Deus e o dogma absurdo de uma capacidade da graça para fazer o nosso dever.



E ele ainda acrescenta:


A questão da capacidade é de grande importância prática. Negar a capacidade do homem em obedecer as ordens de Deus é representar Deus como um Senhor cruel que exige uma impossibilidade natural de suas criaturas sob pena da condenação eterna. Isto necessariamente é gerado na mente que tem pensamentos duros acerca de Deus. A inteligência não pode ser satisfeita com a justiça de tal requisição. De fato, na medida que este erro ganha possessão da mente e obtém consentimento, na mesma medida se desculpa natural e necessariamente pela desobediência ou por não cumprir os mandamentos de Deus.


Finney sabia que por conta disso poderia ser acusado de não dar o devido valor ao Evangelho e a realidade da necessidade de recebermos a influência do Espírito Santo em nossas vidas, tanto na conversão quanto na santificação. Por isso ele diz que não nega, mas continua sustentando a idéia de que os homens são capazes de fazer o seu dever. E quando eles não o fazem não é porque são incapazes mas por causa de um egoísmo voluntário .
Deste modo percebemos contornos completamente antropocêntricos em sua soteriologia. E sua sinergia, ainda que ele não assuma a conclusão dessa tese, rouba de Deus a glória que lhe é devida exclusivamente.
Ainda dentro desta perspectiva soteriológica é importante observar a maneira como Finney se posiciona diante do arrependimento, um elemento importante envolvido na redenção do pecador. Sobre isso, ao definir o que significa o arrependimento, ele declara:

O arrependimento evangélico faz também a ligação da vontade com a sensibilidade, pois implica no fato de que a tristeza pelo pecado é necessariamente o resultado da mudança da vontade, junto com as opiniões intelectuais do pecado implícitas no arrependimento. Nem a convicção do pecado, nem a tristeza por ele constituem arrependimento. Todavia, da correlação estabelecida entre a inteligência, a sensibilidade e a vontade, tanto a convicção do pecado quanto a tristeza por ele estão implícitas no arrependimento evangélico, um como necessariamente precedente e o outro como freqüentemente precedente, sendo sempre e necessariamente o resultado do arrependimento.



E quanto à fé, ele faz questão de declará-la como um fenômeno da vontade. O que nos leva a entender que em sua soteriologia o arrependimento e a fé são vistos dentro de uma perspectiva voluntarista. A fé, portanto, é, para Finney, um estado eficiente da mente . Em contrapartida ele também afirma que a incredulidade, portanto, também deve ser vista, então, como um fenômeno da vontade e um estado voluntário da mente, como ele mesmo declara: “A fé é a recepção da vontade; a incredulidade, a rejeição da vontade, da verdade.” .






8 O VOLUNTARISMO DE FINNEY NA DOUTRINA DA ELEIÇÃO



A primeira definição de Finney sobre a doutrina da eleição é mais genérica e não nos permite ver claramente elementos voluntaristas.
Ao discutir o que a doutrina bíblica da eleição significa, ele declara:


Ela trata de todos aqueles, da raça de Adão, que foram ou que ainda serão salvos, e que por Deus foram escolhidos desde a eternidade para uma eterna salvação, através da santificação de seus corações pela fé em Cristo. Em outras palavras, são escolhidos para a salvação por meio da santificação. A sua salvação é o final — a sua santificação é o instrumento. Tanto o fim como o instrumento são eleitos, designados, escolhidos; os meios são realmente como um fim, e existem por causa desta finalidade. A eleição de certos indivíduos e nações para certos privilégios, e para que façam determinadas coisas, não é o tipo de eleição do qual estou tratando neste momento; porém estou considerando a doutrina da eleição no tocante à eleição para a salvação, como acabei de explicar.



Finney admite que Deus escolheu alguns para a vida eterna, e ele o fez por sua própria benevolência. Mas ao mesmo tempo ele afirma que a rejeição de outros não pode ser colocada na conta de uma soberania arbitrária. Assim, Deus tem razões boas o suficiente para escolher os que herdarão a vida eterna.
Contudo, o seu pensamento começa a revelar certas distorções quando ele tenta discutir as razões que levaram Deus a escolher os que herdarão a vida eterna. Ele diz:


Deus deve obrigatoriamente ter conhecido quem eram as pessoas que Ele poderia sabiamente salvar, previamente, na ordem natural, à sua determinação de salvá-las. Porém o seu conhecimento sobre quem deveria ser salvo deve ter sido, na ordem natural, subseqüente à eleição que Ele realizou, ou à sua determinação de salvá-los, e dependente daquela determinação.



No entanto, um conceito completamente estranho à idéia de eleição é apresentado por Finney quando ele diz que a eleição não se constitui um obstáculo a salvação dos não eleitos. De certo modo, quando ele retoma o argumento da oferta do evangelho, ele acaba voltando ao voluntarismo, onde a vontade de aceitar ou rejeitar o evangelho torna-se a base última da salvação.


1. Deus tomou o cuidado de trazer a salvação de modo que esta esteja ao alcance de todos, e fazendo-a possível a todos. 2. Ele sinceramente se oferece para salvar a todos, e faz todo o possível para salvar a todos aqueles que Ele pode sabiamente salvar. 3. O fato dEle salvar a uns não deve ser desencorajador para outros, pelo contrário, este fato deve encorajá-los a apegar-se à vida eterna. 4. A eleição de alguns não se constitui uma barreira à salvação de outros. 5. Aqueles que não são eleitos também devem ser salvos, se porém cumprirem as devidas condições para isto. 6. Deus sinceramente chama os não eleitos à salvação, e assim também devem proceder os seus ministros. 7. Não há nenhum dano ou injustiça feita aos não eleitos pela eleição de outros. Porventura Deus "não tem o direito de fazer o que quiser daquilo que é dEle?". Se Ele oferece a salvação a todos sobre termos mais razoáveis, e se Ele faz tudo o que pode sabiamente fazer pela salvação de todos, alguns reclamarão se Deus, fazendo tudo aquilo que é capaz de sabiamente fazer, garante a salvação de alguns e não de outros?



Assim, para Finney, cada pecador que está sob o poder do Evangelho tem a liberdade para aceitar ou rejeitar o evangelho, o que torna a eleição baseada na presciência divina e não sua soberania. Esta tese anula por completo a idéia da graça salvadora de Jesus e acaba, ainda que indiretamente, lançando sobre os méritos humanos previstos a salvação do pecador.


Ninguém pode apenas dizer: se sou escolhido para ser salvo, serei salvo a despeito daquilo que eu faça. Ninguém também pode dizer: se sou designado para a condenação, serei condenado a despeito daquilo que eu faça. Porém a questão está presente, até onde lhes consta, como um assunto de completa contingência. Para os pecadores, a sua salvação ou condenação está absolutamente sob sua completa escolha, como se Deus jamais conhecesse ou designasse qualquer coisa a este respeito.



Ao comentar sobre a reprovação, ainda dentro da perspectiva da eleição, ele acentua mais a sua tese:

Novamente, este fato segue-se a partir da doutrina da eleição. Se Deus planeja salvar os eleitos, e somente os eleitos, conforme já foi mostrado, não por meio da razão, porém sob a condição de seu previsto arrependimento e fé em Cristo, certamente Ele planeja ou tem o propósito de lançar fora os maus, pela maldade prevista destes. Ele tem o propósito de fazer algo com aqueles que, de antemão, vê que serão impenitentes.


Claramente percebe-se que a sua visão sobre a doutrina da eleição nada tem a ver com o ensino apresentado nas Escrituras. Seu argumento pesadamente racionalista se perde em meio a uma pseudo lógica que não consegue amparo bíblico por não ter sustentação hermenêutica, ou seja, sua lógica é apenas um sofisma, e por conseguinte, uma falácia.
Contudo, percebe-se que para ele a volição dos agentes morais é muito mais definitiva e decisiva que os supremos decretos eternos e soberanos do Senhor.





CONCLUSÃO


A chamada teologia sistemática de Charles Finney acaba revelando a inconsistência do seu pensamento com relação a vários pontos fundamentais da doutrina cristã. Embora em alguns momentos ele use terminologias muito próprias do calvinismo, não se pode negar a forte ênfase libertária de suas teses.
Mais especificamente no que concerne a volição humana, observamos o lugar de destaque que ele confere a ela, fazendo uso inclusive da idéia de liberdade da vontade, como sendo essa uma das suas teses mais caras.
Deste modo não é difícil determinar o caráter voluntarista de seu pensamento, o que difere muito do pensamento da maioria absoluta dos teólogos de linha reformada.
Estudar Finney e esclarecer aspectos como os discutidos neste trabalho certamente contribuirão para uma visão mais adequada acerca do seu real legado para o cristianismo contemporâneo.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



CRAIG, William. MORALIDADE ORDENADA POR DEUS E VOLUNTARISMO. Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

Biografia de Charles Finney. Disponível em acessado em 30 de julho de 2010

______. Charles Finney. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2010

______. Charles Finney – Father of American revivalism. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2010

FINNEY, Charles. Teologia Sistemática. 1. ed. Rio de Janeiro. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2001. 743p.

HORTON, Michael – O Legado de Charles Finney. Disponível em acessado em 02 de agosto de 2010

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