quarta-feira, 28 de julho de 2010

OS JUÍZOS PARCIAIS DE DEUS NOS ELEMENTOS DA NATUREZA


INTRODUÇÃO




O Ano de 2010 foi marcado por inúmeras tragédias envolvendo a natureza. Desde os primeiros dias do ano notícias sobre enchentes, terremotos, erupções vulcânicas e os mais variados tipos de devastações naturais ocuparam a mídia e despertaram os mais divergentes tipos de pensamento. Houve quem apressadamente, sem uma reflexão biblicamente orientada, saísse responsabilizando Deus por tudo o que aconteceu, mas também houve quem acreditasse que tudo não passava de uma simples movimentação da natureza.
Diante disso nos debruçamos sobre um tema atual, crendo que podemos oferecer uma contribuição a partir de uma cosmovisão bíblico-reformada. Assim, escrevemos sobre o tema: Os Juízos Parciais de Deus nos Elementos da Natureza. Aqui devemos ressaltar que por juízos parciais não estamos dizendo acerca de uma possível parcialidade de Deus em relação ao mal e a sentença sobre ele, mas apenas diferenciando este ato judicial daquele que, conforme o ensino das Escrituras definimos como o juízo final de Deus.
Inicialmente procuraremos observar as primeiras relações desta matéria nos efeitos da queda sobre a criação e, depois, buscaremos estabelecer a relação entre o decreto, o juízo e a providência de Deus. Só então, consideraremos alguns exemplos bíblicos que revelam o controle de Deus nos elementos da natureza como instrumentos de manifestação do seu juízo.
Como as Escrituras nos asseguram que ainda sobrevirão nos últimos dias terremotos e pestes, a pesquisa sobre este tema deve ser alvo de atenção da igreja dos nossos dias. Assim, não pretendemos ser pragmáticos em nossa análise sobre das tragédias que nos cercam, nem céticos diante do que Deus está nos dizendo.
Deste modo adentramos no tema na certeza de que uma visão orientada pelas Escrituras nos fornecerá um alicerce seguro para a discussão do assunto.





1. MANIFESTAÇÕES DO JUÍZO DE DEUS NA QUEDA




Antes de discutir os efeitos da queda na natureza e, principalmente, a manifestação dos juízos parciais de Deus nos elementos da natureza, devemos lembrar que a criação, de forma geral, foi afetada pelo pecado. Deste modo, não é completamente ilógico pensarmos em manifestações de juízo através de elementos da natureza. Então, precisamos considerar as questões relativas à manifestação do juízo de Deus na queda, mais especificamente no que concerne a criação ou a outros elementos da natureza além do homem.
Assim, uma das informações mais importantes sobre a criação conforme o registro de Gênesis, diz respeito ao seu estado depois de Deus terminar a criação. A cada momento do seu ato criador, e especialmente no final dele, Deus observava a perfeição de toda a sua obra. Ele mesmo declarou que tudo era bom e, depois, muito bom, cf. Gn. 1.31. Não obstante, este estado de perfeição durou até que o pecado passasse também ao mundo dos homens. A partir daí, a própria criação começou a vivenciar alguns desajustes, que sinalizam a primeira manifestação do juízo de Deus através de elementos da natureza, pois a terra passou a produzir cardos e abrolhos, cf. Gn. 3.18.
Berkhof discorre sobre esta questão quando ele trata da punição do pecado na sua teologia sistemática. Ao falar, especialmente, sobre a punição do pecado ele diz:


... toda a criação ficou sujeita à vaidade e à escravidão da corrupção. Especialmente os evolucionistas nos ensinaram a ver a natureza “rubra (de sangue) nas garras e nos dentes”. Muitas vezes as forças destruidoras são liberadas causando terremotos, ciclones, tornados, erupções vulcânicas e inundações que trazem indescritível miséria à humanidade. Pois bem, há muitos, principalmente em nossos dias, que não vêem a mão de Deus nisso tudo e não consideram essas calamidades como parte da penalidade do pecado. E, todavia, é exatamente o que elas são, num sentido geral. Contudo, não será seguro particularizar e interpretá-las como punições especiais por graves pecados cometidos pelos que vivem nas áreas atingidas. Tampouco será prudente ridicularizar a idéia de que essa relação existiu no caso das cidades da planície (Sodoma e Gomorra), que foram destruídas pelo fogo do céu. Devemos ter sempre em mente que há uma responsabilidade coletiva, e que sempre há motivos suficientes para Deus visitar cidades, regiões ou países com calamidades medonhas.


Sua fala deixa claro o conceito de que a partir do pecado os elementos da natureza podem ser parte do juízo parcial de Deus sobre o homem.
Na mesma linha de raciocínio Lloyd Jones argumenta sobre os efeitos da queda dizendo que:


A própria terra foi amaldiçoada - surgiram os espinhos e cardos. Não havia nenhum antes. O homem não tinha problemas com espinhos e cardos. No entanto, agora isso passa a ser uma parte da punição, e todos somos conscientes disso.


Perceba que o texto de Lloyd Jones fala sobre uma punição que vem sobre o homem a partir dos efeitos do pecado na criação. Esses efeitos sinalizam os desajustes da natureza, que presenciamos em nossos dias e também nos prepararam para entender como elementos de uma natureza desajustada pelo pecado podem fazer parte dos instrumentos punitivos de Deus.
Ao comentar sobre os efeitos da queda para o homem, Gerard Van Groningen faz algumas afirmações interessantes:

Seu trabalho (Adão) não seria uma maldição; sofrimento e frustração no seu trabalho, sim. Vários termos tem sido usados para descrever o que Yahweh disse: labuta dolorosa, suor, espinhos e cardos (em lugar da planta da vida apropriada para o alimento), e um retorno ao pó, i.e., a morte física e a deterioração do corpo. Debaixo desta maldição sobre o solo, Adão não deveria esperar uma resposta pronta aos seus esforços. Sua existência física temporária continuada deveria depender de uma terra hostil e refratária. Mas essa maldição sobre o solo deve ser considerada mitigada, pois Adão não seria separado completa e imediatamente do seu lugar de trabalho e fonte de sustento. Ambos, ele e o solo continuariam juntos, mas nessa proximidade existiria muito desapontamento, frustração, dor e destruição. As Escrituras nos informam que o próprio cosmos criado reagiria com dor e gemidos à maldição (Rm. 8.22). Também, enfatiza que as pessoas experimentariam evidências trágicas da maldição, particularmente quando quebrassem o pacto com Yahweh; Moisés avisou que no curso da história a maldição seria executada em forma de secas, penúrias e doenças (Dt. 28.15-24).

No argumento de Van Groningen fica ainda mais evidente a relação entre a queda e a manifestação dos juízos parciais de Deus nos elementos da natureza. Perceba que ele relaciona os males com a queda e se vale de Moisés para afirmar que então, secas, penúrias e doenças viriam sobre o mundo.
Estes conceitos tem encontrado eco entre teólogos brasileiros também, como por exemplo o livro “Razão da Esperança – Teologia para hoje”, de Leandro Antônio de Lima, que traz num capítulo intitulado “A queda: a mãe das tragédias” a seguinte conclusão:

Todas as tragédias do mundo, toda violência e corrupção do homem e da natureza são consequências do pecado. E o pecado gera ainda mais tragédias, violência e corrupção. De fato, o pecado é tanto causa quanto resultado da miséria humana”. Toda miséria começou com ele, e agora o homem não consegue exterminá-lo, pois ele origina a miséria e se origina dela; isso se torna um círculo vicioso, bem como mostra que a escolha de Adão foi uma má escolha.

Deste modo nossa argumentação caminha para a idéia de que mesmo que possamos pensar nos desastres naturais como resultado dos desajustes provocados pela queda, não podemos vê-los como simples consequências indiretas, mas como ações punitivas de Deus em razão do pecado.
Essa idéia de que os sofrimentos, no nosso caso especificamente os da ordem dos desastres naturais, são ações punitivas de Deus contra o pecado, é sutilmente defendida pela Confissão de Fé de Westminster, um importante documento de tradição reformada, que diz:


Todo pecado, tanto original como atual, sendo transgressão da justa lei de Deus e a ela contrário, torna culpado o pecador, em sua própria natureza, e, por essa culpa está sujeito à ira de Deus e à maldição da lei, e, portanto, sujeito à morte, com todas as misérias espirituais, temporais e eternas.


Quando a CFW fala sobre as misérias espirituais, temporais e eternas, como expressão da ira de Deus, ela deixa implícita, mas certa, a idéia de que os males naturais também são resultado do pecado original, portanto, da queda. Assim, a causa última dos males é a queda e neste contexto Deus está manifestando o seu juízo.
Com este capítulo argumentamos que os chamados efeitos do pecado também podem e devem ser vistos como manifestações parciais do juízo de Deus contra o pecado. Perceber esta primeira relação é de extrema importância para a fundamentação que virá a seguir.




2. A RELAÇÃO NECESSÁRIA ENTRE O DECRETO, OS JUÍZOS E A PROVIDÊNCIA



Embora esta abordagem seja mais ampla ela é extremamente necessária para o construção do pensamento sobre os juízos parciais de Deus como elementos de manifestação da sua justiça. Se não estabeleceremos esta conexão nosso trabalho ficará limitado pela apresentação de exemplos bíblicos sem uma conexão teológica plausível. Desta maneira devemos lembrar o que são os decretos e como ele se relacionam com o juízo e a providência divina.
Assim, lembramos que os decretos de Deus revelam a sua soberania e seu senhorio sobre a história. Providencialmente ele governa todas as coisas de tal forma que o seu plano sempre é executado e sua vontade é sempre satisfeita. Deste modo nos preparamos para entender uma relação necessária e íntima entre o decreto de Deus, a sua providência e os juízos que ele executa.
A análise deste tema é justificada pela certeza, provinda das Escrituras, de que não existem males gratuitos. Portanto, nos preocupamos com o devido entendimento dos decretos divinos.
A. Hodge, define os decretos da seguinte forma:



O decreto de Deus é Seu propósito soberano, eterno, imutável, santo e sábio, abrangendo ao mesmo tempo todas as coisas que existiram, existem agora e em qualquer tempo existirão, com suas causas, condições, sucessões e relações, e determinando sua futurição certa. Nós, em consequência da limitação das nossas faculdades, concebemos as diversas partes desse propósito único e eterno sob aspectos diversos e em relações lógicas, e por isso o chamamos DECRETOS.



Quando entendemos que até mesmo as contingências são objetos do decreto divino, vislumbramos então os laços necessários entre todos os eventos da história, os juízos de Deus, quer sejam parciais ou final, e a doutrina da providência. Não obstante, ainda devemos lembrar que a própria Confissão de Fé de Westminster fala sobre contingências de causas secundárias estabelecidas , dando-nos a idéia de que até mesmo os meios para se chegar a um fim determinado são objetos do decreto divino.
Sobre isso também lemos em “A Providência e sua Realização Histórica”: Todas as coisas que acontecem em nossa história são o produto de um plano previamente elaborado por Deus. Mais adiante, na mesma obra encontramos o desenvolvimento da idéia de uma relação entre o decreto e a providência:


Todas as obras providenciais de Deus na vida do mundo e de seus habitantes são produto do decreto eterno de Deus, que é plano de Deus para a totalidade da sua criação. Todas as coisas que acontecem na história do mundo, das nações e dos indivíduos são o produto deste mesmo decreto.



Contudo, nossa proposta ainda é mais específica: Como ver os juízos parciais de Deus nos elementos da natureza?
A argumentação precedente mostra que não é possível dissociar todos os eventos da história do decreto divino. A partir daqui observaremos mais especificamente como relacionar os desastres naturais, por exemplo, com a manifestação do juízo parcial de Deus.
O Dr. Héber Campos escrevendo sobre a Retribuição Por Meio de Fenômenos Naturais, declara:


O princípio geral da retribuição divina através dos fenômenos da natureza tem sua base numa verdade bíblica do Antigo Testamento que está repetida com todas as letras em Gálatas 6.7 – “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará”. Esse é o princípio geral que é ilustrado de muitas maneiras na Escritura. Os desobedientes sempre haverão de colher a ira divina através de privações decorrentes da semeadura do mal.
O profeta Oséias trabalha com o mesmo princípio na sua profecia. Afinal de contas, ele entendia da matéria, porque era um lavrador. Veja o seu ensino:
Os 8.7 – “Porque semeiam ventos, e segarão tormentas: não haverá seara; a erva não dará farinha; e se a der, comê-la-ão os estrangeiros.”
O povo de Israel havia transgredido o pacto de Deus (v.1). No entanto, o povo alegava ter conhecimento de Deus (v.2), o que tornava a situação deles ainda mais culposa. Eles procederam como se não houvesse Deus. Eles fizeram as suas próprias leis, estabeleceram reis e príncipes, cometeram o pecado da idolatria (v.4-6). Estavam semeando ventos e haveriam de colher tempestades (v.7). O que aconteceria com eles? Deus iria usar a natureza para puni-los severamente. Eles haveriam de passar fome: não mais colheita. Se alguma coisa a terra produzisse, eles mesmos não haveriam de provar, mas os estrangeiros, os inimigos (v.7). A conseqüência da privação foi que Israel foi devorada (v.8). Em outras palavras, a economia de Israel foi à bancarrota. Israel ficou falida e tornou-se presa para os inimigos.
Além desse exemplo textual, há muitos outros onde Deus traz males físicos sobre o povo através de terremotos, enchentes, secas, pestes nas plantas, pragas de animais, etc. A natureza é um instrumento divino para a execução da sua providência retributiva.



Calvino, numa linha de argumentação similar, chega a afirmar que nada é fruto do acaso, tudo está sob o controle da providência de Deus, inclusive os fatos que ele denomina como naturais.

Afirmo ainda que os eventos particulares são, em geral, testemunhos da providência especial de Deus. Este suscitou no deserto um vento sul que levasse ao povo abundância de aves [Ex 16.13; Nm 11.31]. Quando quis que Jonas fosse lançado ao mar, enviou um vento, suscitando para isso um furacão [Jn 1.4, 6]. Os que não crêem que Deus sustenta o leme do universo dirão que isso se processou fora do curso natural das coisas. Daí, porém, concluo que vento algum jamais surge ou se desencadeia a não ser por determinação especial de Deus.



Ainda mais adiante Calvino segue argumentando como seria impróprio pensar que Deus não executa sua providência através dos elementos da natureza, nos seguintes termos:


Aliás, nem doutra sorte seria isto verdadeiro: que aos ventos faz seus mensageiros, e ao fogo flamejante, seus ministros; que faz das nuvens suas carruagens e cavalga sobre as asas dos ventos [Sl 104.3, 4]; a não ser que, por seu arbítrio, revolvesse tanto as nuvens quanto os ventos e neles manifestasse a presença especial de seu poder. Assim também, em outro luar [Sl 107.25, 29], se nos ensina que, sempre que ao sopro dos ventos referve o mar, essas agitações atestam a presença especial de Deus; que ele ordena e suscita o alento da procela e ao alto eleva as vagas do oceano; então, faz quedar-se em silêncio a tempestade para que cessem as ondas para os que navegam; assim como declara em outra parte [Am 4.9; Ag 1.11] que flagelara o povo com ventos candentes.


Perceba que a argumentação do teólogo francês é a de que todas as coisas estão sob o controle soberano e providencial do Senhor.
Contudo, em função das diferentes cosmovisões religiosas, crer que Deus executa juízos parciais através de elementos da natureza tem sido um grande desafio para muitos.
Mesmo no meio do povo de Deus, nem sempre foi tão tranquilo entender que Ele governa também no meio dos desastres.
Cheung observa que desde os tempos do profeta Miquéias o povo não conseguia observar a realidade deste instrumento punitivo como uma obra da providência de Deus. Deste modo, Cheung registra: Como nos dias de Miquéias, elas ainda dizem: “A desgraça não nos alcançará. O Espírito do Senhor perdeu a paciência? É assim que ele age?” . Contudo, sabemos que negar este expediente divino é fechar os olhos para a clareza da revelação bíblica.
Retomamos aqui então a argumentação de João Calvino, que diz:


Ademais, transparecerá de notável exemplo como, pelo freio de sua providência, Deus verga todos os eventos para qualquer parte que o queira. Eis que, no preciso instante em que Davi foi encurralado no deserto de Maom, os filisteus fazem uma incursão na terra: Saul é obrigado a bater em retirada [1Sm 3.26, 27]. Se Deus, querendo garantir a segurança de seu servo, lançou este obstáculo diante de Saul, por certo que, embora de repente, além da expectação dos homens, os filisteus tomaram armas, não diremos, entretanto, ter sido isso feito pelo acaso; pelo contrário, o que nos parece contingência, a fé reconhecerá haver sido ordenação secreta de Deus.


Contudo, reconhecemos que nem todos alcançam esse pensamento.
Assim, outro problema que temos de enfrentar é o dualismo que tenta atribuir estas catástrofes ao diabo, como se ele fosse uma força opositora aos propósitos divinos na qualidade de um “deus”. São inúmeros os defensores desse posicionamento, principalmente os de linha teológica neo-pentecostal.
Também não é raro encontrarmos uma teodicéia que não seja biblicamente orientada. Muitos argumentam que não é possível que Deus esteja por detrás de alguns males. Por exemplo, no blog Força para viver, encontramos a seguinte justificativa do articulista, diante da recente tragédia no Haiti.


Precisamos lembrar que as catástrofes naturais se dão dentro do conhecimento de Deus, mas também se dão por questões naturais e de criação. Ainda continuam as acomodações geológicas em várias partes do mundo, o que faz surgir desastres naturais. Deus ao criar a terra o fez dentro de princípios que promovem o bem-estar do homem, mas também o fez dentro de leis naturais que o homem convive durante séculos. Em nada podemos culpar Deus por aquilo que aconteceu no Haiti. Vale lembrar que o mal, muitas vezes, advém do bem. Um exemplo simples dá para entendermos a afirmativa anterior: ”a água é um bem inestimável para o ser humano, mas pessoas morrem afogadas”. Dentro dos princípios que Deus criou para o habitat do homem existem variáveis que interferem e são normais no bom andamento da criação.


Em algumas seitas também encontramos o desenvolvimento desse pensamento dualista. Por exemplo, David Brandt Berg, conhecido líder da seita religiosa “Os meninos de Deus” afirma que Deus só tem planos de paz e prosperidade para os seus filhos e que Satanás, o príncipe da potestade do ar é que é o responsável por estes desastres.
Não obstante esta oposição, a revelação das Escrituras fornece elementos suficientes para crermos que Deus controla todas as coisas, segundo a sua eterna sabedoria colocada em ação no seu agir providencial.
Assim, devemos lembrar que Deus, através do seu governo soberano, providencialmente dirige todas as enchentes, terremotos, tsunamis e quaisquer outros elementos para fazer com que os eleitos sejam despertados e desistam de pecar e os ímpios sejam endurecidos.
E tudo isto Deus faz de tal forma que não podemos negar a existência de uma relação íntima entre o decreto, a providência e a manifestação do seu juízo.





3. OS JUÍZOS ATRAVÉS DOS ELEMENTOS DA NATUREZA – CASTIGOS POSITIVOS E CASTIGOS NATURAIS



Junto dessa discussão devemos tratar de outra questão importante. Como analisar estes juízos com o conceito de castigos positivos e castigos naturais de Deus?
Devemos lembrar que a teologia trabalha com duas terminologias importantes, a saber, os castigos naturais e os castigos positivos. Os castigos naturais são aqueles que o homem não se livra nem pelo arrependimento e nem pelo perdão divino, enquanto os castigos positivos são uma ação positiva do Santo Legislador contra o pecador.
Num primeiro momento creio que podemos anuir às duas possibilidades, ou seja, estas manifestações do juízo de Deus através dos elementos da natureza podem ser vistas tanto como castigos naturais quanto como castigos positivos. Há casos nas Escrituras em que o aspecto dos castigos positivos está mais evidente. Esse parece, por exemplo, ser o caso de Sodoma e Gomorra. Numa das referências que precede o juízo de Deus, através do fogo e do enxofre – elementos da natureza - a ação de um Deus justo contra uma impiedade específica é declarada: Gênesis 18.20 “Disse mais o SENHOR: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito.”. Deste modo, percebemos que há uma ação direta de Deus sendo articulada contra aquelas cidades e o resultado desta realidade é mais claramente declarado quando a sentença é proferida: Gênesis 19.24 “Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo, da parte do SENHOR, sobre Sodoma e Gomorra.”.
Não obstante, entendemos também que a corrupção a que toda criação ficou sujeita acaba precipitando determinadas catástrofes, que podem ser vistas como castigos naturais, que em última análise sempre são expressões do juízo de Deus contra o pecado.
Contudo a abordagem desse tema segue com suas dificuldades, mas algumas contribuições são importantes.
Sobre essa questão Cheung declara:



devemos nos assegurar de que conhecemos realmente o que a Bíblia ensina e evitarmos ir além do que ela diz em nossa interpretação. Para ilustrar: os amigos de Jó, que tentaram confortá-lo, terminaram confundindo e até mesmo difamando seu caráter, pois interpretaram incorretamente o motivo para aqueles desastres terem caído sobre Jó. A Bíblia não diz que os desastres sempre ocorrem como castigos divinos ou porque as vítimas pecaram. Lembre-se de João 9, onde Jesus e seus discípulos se depararam com um homem cego de nascença. Os discípulos enunciaram sua suposição ao perguntarem: “Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”. Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele”.



Contudo, o próprio Cheung também diz que devemos evitar o extremo de afirmar, por outro lado, que não há propósito divino nestas ações punitivas.


Por outro lado, quem insiste que certo desastre no qual muitas pessoas pereceram não ocorreu como juízo divino comete o mesmo erro, apenas na direção oposta. Eles alegam conhecer a mente de Deus numa proporção maior que a declarada na Escritura. Quanto ao que rejeita a idéia da retribuição divina por meio de acidentes naturais e de desastres “realizados pelo homem”, e da morte de milhares de pessoas no processo, seu problema é incredulidade na Bíblia, e por isso, deve ser abertamente confrontado e refutado nesse ponto. Uma coisa é debater se determinado desastre é juízo de Deus ou não, em que sentido ele é juízo divino, ou se o juízo é a principal razão, mas rejeitar esse conceito de imediato é puro preconceito.



Acredito que a primeira afirmação de Cheung de que não podemos declarar que todos os desastres são sempre castigos divinos não deva ser vista como uma tentativa de negar o governo soberano e providencial de Deus. Sua preocupação repousa essencialmente sobre a nossa incapacidade em determinar as razões exatas pelas quais Deus faz o que faz. Contudo, ele mesmo reconhece, na sequência da sua argumentação, que nossa incapacidade não deve servir como argumento para negar a existência de tal propósito divino.
Não seria prudente, portanto, apontarmos as razões, as sucessões e as conclusões que pertencem exclusivamente à mente divina, por serem essas realidades sobre-humanas, mas também não seria correto acreditar que um destino cego, surdo e mudo seja o responsável por determinadas tragédias que afligem o mundo. Sempre há um propósito divino em todas as manifestações do seu juízo, inclusive quando as tragédias nos parecem muito chocantes. Deus é a força última por trás de todos os movimentos da história.
Assim, ainda que tenhamos dificuldade em identificar o problema específico que tenha precipitado o juízo divino, numa determinada situação, não podemos negar a realidade de um propósito que, em muitos casos, está associado a manifestação do seu juízo. Crer que alguns males são gratuitos e sem propósito é o mesmo que negar o senhorio de Deus sobre toda a história.
Pesa ainda, nesta mesma linha de argumentação, a razão da nossa segurança em Deus. Como poderíamos descansar em Deus se estas tragédias não fossem governadas por Ele? Como poderíamos saber, de fato, que todas as coisas cooperam para o nosso próprio bem se Deus não estiver por detrás de cada uma das coisas que acontecem?
Todos os desastres naturais, portanto, são castigos de Deus. Eles podem ser naturais, como no caso de alguém que escolhe habitar numa região de risco e no tempo da chuva vê sua casa soterrada, ou podem ser positivos, como no caso do exemplo bíblico de Sodoma e Gomorra, que foram visitadas pela ira de Deus que viu o pecado daquele povo. Mas sempre estarão sob o controle justo de Deus.





4. AS RETRIBUIÇÕES PROVIDENCIAIS DE DEUS COMO MANIFESTAÇÕES DOS SEUS JUÍZOS PARCIAIS – EXEMPLOS DA HISTÓRIA BÍBLICA





4.1 DEUS, A FONTE DAS CALAMIDADES


Antes de analisar exemplos específicos vale ressaltar a declaração do profeta Isaías que diz: Isaías 29:6 “Do SENHOR dos Exércitos vem o castigo com trovões, com terremotos, grande estrondo, tufão de vento, tempestade e chamas devoradoras.”. Aqui o profeta identifica claramente o Senhor como a fonte de calamidades naturais e isso para castigo. Calvino argumenta que de certo modo devemos descansar na certeza de que seremos afligidos por estas coisas somente ate onde Deus quiser que assim suceda.
Dentro desta perspectiva encontramos nas Escrituras Sagradas alguns exemplos de manifestações dos juízos parciais de Deus através dos elementos da natureza. Estes exemplos serão considerados a seguir:



4.2 EXEMPLOS DO ANTIGO TESTAMENTO


4.2.1 O Dilúvio



O primeiro registro histórico que encontramos nas Escrituras sobre a manifestação de juízos parciais de Deus através de elementos da natureza é a narrativa do Dilúvio. Segundo as Escrituras, por ter Deus visto a corrupção do homem resolveu visitá-lo com ira, conforme o registro de Gênesis 6.13 “Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra.”. Primeiramente, observamos a deliberação divina de dar cabo de toda carne e, mais adiante no texto, encontramos o Senhor declarando a forma deste juízo. No verso 17 ele declara: Gênesis 6:17 “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá.”. Matthew Henry, ao analisar este texto que identifica Deus como o causador destes males naturais, que trouxeram juízo, declara:


Particularmente Deus falou que destruiria mundo por uma inundação de águas (...). Ele poderia ter destruído todo gênero humano pela espada de um anjo, uma espada flamejante que viria sobre todo o mundo, como fez quando destruiu os primogênitos dos egípcios e o acampamento dos assírios (...) mas Deus escolheu fazer isto por uma inundação de águas que deveriam submergir o mundo. Não podemos estar seguros quanto às razões, mas Deus tem muitas setas (...) e ele pode escolher a vara com que corrigirá os seus filhos.



Observe que o comentário supracitado, aludindo ao texto bíblico de Gênesis 6.13, identifica Deus como o sujeito da ação e os elementos da natureza como os instrumentos utilizados pela livre vontade de Deus para exercer o seu juízo. Portanto, não é difícil concluir que as águas foram instrumentos do que chamamos aqui de juízos parciais de Deus através dos elementos da natureza.



4.2.2 O Exemplo De Elias


Outro momento marcante na história do Antigo Testamento se deu durante o ministério do profeta Elias.
Elias declarou que não choveria sobre a terra durante três anos e seis meses, conforme o registro de 1 Reis 17.1: “Então, Elias, o tesbita, dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Tão certo como vive o SENHOR, Deus de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra.”.
O anúncio desse evento natural, como uma forma de manifestação do juízo divino, foi tratado por A. W. Pink, no livro La Vida de Elias, nos seguintes termos:

Durante o reinado de vários reis, Israel havia escarnecido e desafiado a Jeová sem que se houvesse produzido consequências terríveis; por isso, chegou a prevalecer a idéia de que o Senhor não existia na realidade (...).
Ainda que Deus, por suas próprias razões, tenha suportado com muita mansidão os vasos de ira preparados para a morte (Rm. 9.22), não obstante as provas suficientes e claras, através do curso da história humana, de que Ele é ainda hoje o governador dos ímpios e o vingador do pecado. Então, a Israel foi dada tal prova. Apesar da paz e da prosperidade de que havia desfrutado o reino por tanto tempo, o Senhor estava grandemente irado pela forma grosseira com a qual havia sido insultado publicamente e havia chegado a hora de Deus castigar severamente a seu povo desgarrado. Como consequência enviou Elias a anunciar a Acabe a natureza e duração do açoite. Note-se devidamente que o profeta foi com sua mensagem terrível, não ao povo mas ao rei, a cabeça responsável, e que tinha em sua mão o poder de retificar o que estava mal.



Quando Pink fala sobre a natureza do açoite percebemos sua compreensão de que Deus utiliza elementos da natureza como forma de manifestação dos seus juízos parciais. Ao fechar os céus, de modo que não viesse chuva sobre Israel, Deus se valia de meios para executar o seu juízo.
Contudo é importante observar que a oração de Elias não foi um pedido aleatório, ele tinha um fundamento. Quando Elias orou para que não chovesse sobre a terra, na condição de profeta, ele sabia das exortações que o Senhor fizera a Israel no passado. Sua oração considerava, portanto, as ameaças que Deus havia feito ao seu próprio povo de Israel. Em Deuteronômio 11:16-17 há uma declaração muito séria sobre o juízo de Deus diante do pecado de Israel:


Guardai-vos não suceda que o vosso coração se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos prostreis perante eles; que a ira do SENHOR se acenda contra vós outros, e feche ele os céus, e não haja chuva, e a terra não dê a sua messe, e cedo sejais eliminados da boa terra que o SENHOR vos dá.



A oração de Elias estava amparada na própria Palavra do Senhor. Ele não pediu o que achava melhor, mas aquilo que combinava com a revelação da vontade de Deus. Deste modo era Deus quem manifestava o seu juízo e não apenas o profeta que revelava a sua indignação diante da maldade do povo.



4.3 EXEMPLOS DO NOVO TESTAMENTO



4.3.1 O Sermão do Monte



Mateus 24:7 “Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares;”


Esta declaração é feita num contexto muito especial. No sermão do Monte Jesus está tratando das coisas referentes aos últimos dias. Ele descreve a grande tribulação, o arrebatamento e outros elementos próprios daquele período. E dentre esses sinais dos últimos dias ele fala sobre terremotos. Ora, se os terremotos são elementos da natureza e ao mesmo tempo sinas dos últimos dias, segue-se que eles são controlados por Deus e serão instrumentos de manifestação do seu juízo.


4.3.2 Jesus acalma uma tempestade


No Novo Testamento não encontramos muitos exemplos relacionados ao tema em questão, contudo, é clara a idéia de que Deus domina sobre os elementos da natureza e, quando ele faz isso, ele opera crescimento e despertamento espiritual.
Uma das passagens mais significativas das Escrituras é o registro de Mateus 8:27, onde se lê: “E maravilharam-se os homens, dizendo: Quem é este que até os ventos e o mar” lhe obedecem?” . Ao repreender os ventos e o mar, acalmando aquela tempestade, Jesus mostrou seu poder em controlar a força dos ventos, ensejando assim o crescimento espiritual dos seus discípulos. Ao comentar esse texto John Gill afirma que ao revelar o seu poder sobre aquela tempestade Jesus se revelou como o Deus Todo Poderoso, alguém revestido de um brilho de majestade e de poder divino.

Deste modo entendemos que os exemplos bíblicos nos dão a segurança que precisamos para reconhecer que os males, chamados por muitos de naturais, acontecem sob o governo soberano e providencial de Deus. Ainda que nossa mente não possa alcançar e identificar todos os detalhes do propósito divino, ela, orientada pelas Escrituras Sagradas, não tem como negar a ação de Deus no meio das tragédias.
Exemplos como o de Noé, Elias e outros nos ajudam a entender que é perfeitamente normal esperar que Deus execute juízos parciais através dos elementos da natureza.





CONCLUSÃO


Não há como negar o controle absoluto de Deus sobre todas as coisas. No exercício da sua providência ele faz com que todos os termos do seu Decreto sejam cumpridos. E, se não cremos desta maneira, não temos como sustentar a idéia de um Deus soberano que governa, com segurança, todas as coisas para o fim que ele mesmo determinou.
Assim, desde que o pecado entrou no mundo cremos que Deus tem manifestado a sua ira contra toda a impiedade e muitas vezes ele faz isso através do uso de meios, ou seja, mediatamente. E, dentre esses meios, estão os elementos da natureza usados como instrumentos de manifestação da sua justiça.
A geração de Noé e os contemporâneos de Elias, especialmente, puderam contemplar o poder de Deus exercido sobre toda a criação. Eles puderam testificar o que, posteriormente, foi sustentado pelo profeta Isaías que declarou: Isaías 29:6 “Do SENHOR dos Exércitos vem o castigo com trovões, com terremotos, grande estrondo, tufão de vento, tempestade e chamas devoradoras.”.
Deste modo concluímos nosso trabalho na certeza de que o Senhor domina sobre tudo e sobre todos. Sobre os homens, sobre os céus, sobre a terra, enfim, sobre toda a sua criação, conduzindo todas as coisas para o cumprimento do seu propósito preordenado na eternidade.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



A Confissão de Fé, o Catecismo Maior, o Breve Catecismo. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991. 451p.

BERG, Davis Brandt. Unnatural Disasters – Judgment of God by the Devil. Disponível em < www.deeptruths.com/letters/unnatural_disasters.html > Acessado em 15 de junho de 2010

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. 790p.

BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software.

CALVINO, John, COMMENTARY ON THE PROPHET ISAIAH VOL. 1 - THE AGES DIGITAL LIBRARY COMMENTARY

______. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1

CAMPOS, Héber Carlos. O Ser de Deus e as suas obras – A Providência e a sua realização histórica. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001. 679p.

CHEUNG, Vincent. O Deus dos Desastres. Disponível em Acessado em 02 de junho de 2010

FERNANDO, Luís. Haiti – Catástrofe e Deus. Disponível em < http://ministerioforcaparaviver.blogspot.com/2010/01/haiti-catastrofe-e-deus.html> Acessado em 15 de junho de 2010

GILL, John. John Gill’s Expositor. Software Bíblia Online 2.0

GRONINGEN, Gerard V. Criação e Consumação – O Reino, a Aliança e o Mediador. v. 1. Tradução de Denise Meister. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002. 654p

HENRY, Matthew. Full Matthew Henry Commentary. Software Bíblia Online 2.0

HODGE, Alexander A. Esboços de Teologia. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2001. 952p.

JONES, Lloyd D. M. Paraíso Perdido e Recuperado – Disponível em Acessado em 05 de junho de 2010.

LIMA, Leandro Antônio. Razão da Esperança – Teologia para Hoje. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006. 672p.

PINK, Arthur W. La Vida de Elias. 3. ed. Barcelona: El Estandarte de La Verdade, 1992. 360p.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma Igreja Consolada pelo Senhor

Hoje eu estava preparando o estudo bíblico para a igreja e me deparei com um vídeo abençoador. Resolvi publicá-lo no meu blog, junto com os slides do estudo. Espero que abençoe a sua vida, como abençoou a minha. Pr. Cleverson

Slide1  Slide2 Slide3 Slide4 Slide5 Slide6Slide7

Agora o vídeo: Veja que lição maravilhosa!

domingo, 9 de maio de 2010

Isaías 58.6-7
JEJUM
Rev. Cleverson Gilvan
INTRODUÇÃO.
Neste estudo não discutiremos aspectos que, segundo nosso propósito aqui, julgamos secundários. Como por exemplo, a questão de jejuns parciais e totais, ou ainda, preparação e entrega. Como é este nosso primeiro contato com o assunto, discutiremos, a priori, a sua prática no meio cristão.

CONCEITUAÇÃO
A palavra grega (nhstei>a) tem o sentido de abstinência. O termo dá a idéia de deixar de comer por falta, voluntariamente ou por motivos religiosos - segundo James Strong no seu dicionário Greek Dictionary Of The New Testament.
John Davis o conceitua simplesmente como uma abstinência de alimentação ou o espaço de tempo em que se dá o jejum, que pode ser voluntário ou involuntário.

A PRÁTICA DO JEJUM NO AT

A linguagem do Pentateuco é ambígua quando trata de Jejum. A ausência do termo pode sugerir, num primeiro momento, que não havia nenhuma espécie de prescrição. Mas há quem sustente que expressões como “Afligireis as vossas almas” de Lv. 16.29, devem ser entendidas como referências ao jejum, o que parece razoável conforme Atos 27:9 “Depois de muito tempo, tendo-se tornado a navegação perigosa, e já passado o tempo do Dia do Jejum, admoestava-os Paulo,” e Isaías 58:3 “dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta? Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho.”. Dentre os sustentadores desta tese citamos John Gill e dentre os opositores John Davis.
Em alguns momentos da história do AT jejuns foram ordenados, como no tempo do profeta Zacarias, onde jejuns deveriam ser realizados no quarto, quinto, sétimo e décimo mês – (Zc. 8.19).
Não obstante, o que mais chama a nossa atenção são os jejuns voluntários. A primeira ocorrência é com Davi, que suplicou pela vida do seu filho com a mulher de Urias (2º Sm. 12.22). Depois disso vários outros exemplos são encontrados nas Escrituras – Ed. 8.21, Sl. 35.13. (para uma lista mais completa veja verbete “jejum” em Dicionário da Bíblia – John Davis).
Davis também observa que em casos de calamidades públicas eram proclamados jejuns - Jeremias 36:9 “No quinto ano de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, no mês nono, apregoaram jejum diante do SENHOR a todo o povo em Jerusalém, como também a todo o povo que vinha das cidades de Judá a Jerusalém.”. Existem vários outros textos.
Em várias ocasiões o jejum era proclamado no meio do povo de Israel – 2ª Rs. 25.3, Jr. 52.6 e etc...
Já no NT encontramos os fariseus jejuando duas vezes por semana. Contudo, devemos ressaltar que a maneira como eles conduziram os jejuns foi duramente censurada por Jesus.

A PRÁTICA DO JEJUM EM CREDOS E CONFISSÕES CRISTÃS

DIDAQUÉ – Um catecismo do Primeiro século

Ao falar sobre a celebração litúrgica o Didaqué ensina: “Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.”.
E, posteriormente, falando sobre a frequência e a distinção do jejum cristão ele também declara: “seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação.”.


A CONFISSÃO DE FÉ DE AUGSBURGO – Um documento de tradição Luterana, séc. XVI – 1530

Como um documento de reação à doutrina católica suas posições são apologéticas. Veja:

“Os nossos são acusados falsamente de proibirem boas obras. Pois os seus escritos sobre os Dez Mandamentos bem como outros escritos provam que deram bom e útil ensino e admoestação a respeito de estados e obras cristãos verdadeiros, de que pouco se ensinou antes de nosso tempo. Insistia-se, ao contrário, em todos os sermões principalmente em obras pueris e desnecessárias, tais como rosários, culto de santos, vida monástica, romarias, jejuns e dias santos prescritos, confrarias, etc.”

E ainda,

Em tempos anteriores ensinou-se, pregou-se e escreveu-se que diferença de comidas e tradições semelhantes instituídas por homens servem para merecer graça e satisfazer pelos pecados. Por essa razão se excogitaram diariamente novos jejuns, novas cerimônias, novas ordens e coisas semelhantes, e nisso se insistiu com veemência e energia, como se tais coisas fossem culto divino necessário pelo qual se merecesse graça se a gente o observasse e como se sua inobservância constituísse grande pecado. Disso resultaram muitos erros perniciosos na igreja.

Em primeiro lugar, com isso se obscurecem a graça de Cristo e a doutrina da fé, que o evangelho põe diante de nós com grande seriedade, insistindo vigorosamente que se considere o mérito de Cristo como algo de grande e precioso e se saiba que a fé em Cristo deve ser posta muito acima de todas as obras. Por isso São Paulo batalhou com veemência contra a lei de Moisés e as tradições humanas, para aprendermos que diante de Deus não nos tornamos piedosos mediante as nossas obras, porém somente pela fé em Cristo, que alcançamos a graça por amor de Cristo. Essa doutrina extinguiu-se quase que por completo com isso de se haver ensinado a merecer graça por jejuns prescritos, distinção de manjares, vestimenta, etc.

E é bem crível que alguns bispos foram enganados com o exemplo da lei de Moisés. Daí provieram tão inumeráveis ordenações: que é pecado mortal fazer trabalho manual em dias santos, ainda quando não haja ofensa a outros; que é pecado mortal omitir as horas canônicas; que alguns alimentos poluem a consciência; que jejum é obra com que se reconcilia a Deus;

CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER – Um documento de tradição Reformada

Sem o espírito apologético dos Luteranos nesse particular, os teólogos de Westminster ensinaram:
“A leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos com graças no coração, bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo - são partes do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso.”

Os teólogos de Westminster reconheciam o jejum como uma prática cristã recomendável, embora não o vissem como um instrumento de uso ordinário.

OS PRINCÍPIOS DE LITURGIA DA IGREJA PRESBITERIANA

Um importante documento da Igreja Presbiteriana do Brasil, aprovado pelo seu Supremo Concílio é o conhecido “Princípios de Liturgia”. Ali somos orientados quanto ao Jejum da seguinte maneira:

CAPÍTULO XI - JEJUM E AÇÕES DE GRAÇA - Art.24 - Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças. Art.25 - Os jejuns e ações de graças poderão ser observados pelo indivíduo ou família, Igrejas ou Concílios.


Pelo menos podemos entender que a prática do jejum tem acompanhado os cristãos no decurso da história. Contudo, uma interpretação muitas vezes difusa e superficial tem contribuído para uma espécie de acetismo (a crença num corpo mal que precisa de purificação) e até mesmo de barganhas e trocas com Deus. Perceba que os documentos de tradição reformada o vêem como um recurso extraordinário. Aqui, vale lembrar que nas igrejas de tradição libertária e (pentecostal) ele é apresentado como um recurso ordinário.

TEXTOS QUE REQUEREM NOSSA ATENÇÃO

Marcos 9:29 Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração [e jejum].
Mateus 17:21 [Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.]
Ambos os textos apresentam problemas de variantes textuais e a narrativa no texto de Lucas 9.37-43 não fala sobre Jejum. O que nos leva a entender que há uma boa probabilidade desta terminologia ter sido inserida posteriormente por um copista.
Contudo, ainda que admitamos que o termo compõe o escrito original (ou autógrafos), parece-nos que o cerne da mensagem não é a prática do jejum em si, mas a disposição mental e espiritual dos discípulos. Deste modo, o texto não estaria diretamente regulamentando a prática do jejum, mas admoestando os discípulos quanto à sua falta de uma fé viva (Lc. 9.41 – “Respondeu Jesus: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vos sofrerei? Traze o teu filho.” ).

Mateus 9:15 Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.

Aqui devemos observar que embora os discípulos de João Batista usassem tal prática não há registro de que os discípulos de Jesus tenham jejuado enquanto desfrutavam da sua companhia.


O LUGAR DO JEJUM NA VIDA CRISTÃ – Uma análise sobre o prisma do seu uso no NT
Alguns pontos devem ser observados:

1) O Jejum foi observado por Jesus e por seus apóstolos.

Mateus 4:2 E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

Atos 13:2 E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.

2) Não há uma determinação peremptória acerca desta prática nas páginas do NT como no caso da oração.

1 Ts 5:17 Orai sem cessar.

Devemos considerar que o imperativo do verbo “orar” é recorrente nas páginas da Escritura, tendo sua maior incidência no Novo Testamento. Das 18 ocorrências pesquisadas 14 eram no Novo Testamento.
A única ocorrência imperativa do verbo “jejuar” está no AT em Et. 4.16 e não trata de uma normatização, mas de um pedido particular. Observe que esta ocorrência está fora do Pentateuco.

3) Em casos especiais ele pode ser observado como um recurso extraordinário, a semelhança do exemplo neotestamentário. Neste caso, deve-se observar as recomendações de Jesus dada aos seus discípulos. Ao regular o seu uso Jesus nos faz crer na possibilidade desta prática como um recurso espiritual. Veja abaixo:


Mateus 6.16-18
16 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 17 Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, 18 com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

A) O verdadeiro jejum não deve criar imagens superficiais de santidade.
“…não vos mostreis contristados como os hipócritas…”

Veja Isaías 58:5 Seria este o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aceitável ao SENHOR?

B) O verdadeiro jejum nos proporciona uma comunhão íntima e secreta com Deus

“…quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto …”

Não obstante reconhecermos a possibilidade de jejuns públicos, a comunhão é primeira e essencialmente pessoal e, a partir daí, comunitária.
O profeta Isaías (Is. 58.6-7) também insiste na idéia de que o verdadeiro jejum tem a ver com o abandono do pecado.

C) O verdadeiro Jejum atrai as bênçãos de Deus sobre as nossas vidas.

“…e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará…”
Não que exista qualquer mérito no jejum, mas uma vez que nos dispomos a investir tempo em nossa vida espiritual, tornando-nos mais sensíveis às realidades celestes pelo desligamento das coisas materiais, Deus nos abençoa. E esta benção decorre da comunhão, da oração e da edificação.

Cl. 3.1-4
1 Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. 2 Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; 3 porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. 4 Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória.

CONCLUSÃO
Devemos considerar ser, no mínimo curiosa, a falta de uma normatização explícita desta prática no NT. Parece que a prática era comum, como se tivesse vindo do AT sem muitas discussões (At. 27.9). Tudo isso nos leva a entender que embora não exista nada contrário ao seu uso nas Escrituras, a sua prática deve ser recomendada com moderação e discernimento espiritual, uma vez que a doutrina dos meios de graça nomeia apenas a oração, a palavra e os sacramentos como instrumentos ordinários de promoção da vida espiritual.
O jejum pode e deve ser usado como um recurso extraordinário, contudo, sempre acompanhado do devido entendimento das Escrituras, a fim de evitar um mau entendimento dos valores meritórios de Cristo e das conseqüentes comunicações graciosas de Deus.

ALGUNS CONSELHOS PRÁTICOS

1. O jejum pode ser praticado individualmente, em família ou com toda a igreja. Sempre lembrando que cada participante deve considerar a sua condição física e o cuidado espiritual (tempo de oração, leitura da palavra e comunhão, quando em grupo);
2. O propósito deve ser sempre o crescimento espiritual, que deve ser marcado pelo abandono do pecado e pelo desejo da santidade. Naturalmente, motivos de oração por crises, calamidades, enfermidades e outros podem e devem marcar os períodos de jejum.
3. Seu uso deve ser moderado e biblicamente orientado. Não devemos esquecer que os meios de graça são a oração, a palavra e os sacramentos. Estes devem ter lugar na vida diária da igreja, enquanto o jejum é um recurso extraordinário.
4. O jejum não é apenas uma dieta alimentar. Todas as atividades de entretenimento devem ser suspensas naquele dia a fim de se gastar tempo em oração.
5. “Quando você for iniciar o seu período de jejum, e também quando findá-lo, faça de modo solene. Recolha-se a um lugar, separe uma porção das Escrituras para meditar durante o tempo em que estiver jejuando, ore e estabeleça o início e o fim deste momento de consagração. No momento de terminar o jejum, também recolha-se, ore e entregue o seu jejum, agradecendo a Deus, porque Ele lhe preservou capacitando-o a cumprir este santo propósito.Rev.Tokashiki

domingo, 14 de março de 2010




PRECISAMOS DE DEUS?
Isaías 5:12 Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes;
porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos.

Rev. Cleverson Gilvan

Parece estranho começar um artigo num informativo evangélico com uma pergunta como esta. Contudo, há uma razão muito séria para que esta reflexão se dê neste espaço.
Nos últimos anos temos presenciado um avanço extraordinário do homem em várias frentes. Na área tecnológica todos os dias somos surpreendidos por novidades extraordinárias como a tv digital, a transmissão em 3D e a já anunciada morte do DVD, sendo substituído pelo Blue-ray. Potentes computadores são comercializados a preços módicos e o uso da internet já se tornou um veículo de comunicação muito popular. Em outras áreas da ciência, como a medicina, também vemos importantes avanços que tendem a se aperfeiçoar ainda mais agora que o DNA teve sua sequência decifrada. Muitas cirurgias são feitas sem que nenhum corte seja dado no paciente e há em quem diga que, em muito pouco tempo, seremos capazes de antever doenças com exames rotineiros. Nossos veículos automotores são cada vez mais impressionantes. Muitos vêm equipados com sistema de navegação por satélite (GPS) e já existem modelos sendo comercializados que são capazes de estacionar sozinhos. E não bastasse tudo isso, o futuro é muito promissor. Quanto avanço! Quanta conhecimento! Quantas maravilhas!
Tudo isso tem feito o homem da pós-modernidade perguntar: Será que realmente precisamos de Deus?
Confesso que uma das maiores preocupações que ocupam o meu coração é a maneira como os crentes tem interagido com este tempo. Estamos tão envolvidos nessa onda de avanços que muitas vezes depositamos nestes recursos a confiança que devemos ter só em Deus.
É preocupante perceber a maneira irresponsável com que muitos vem cuidando da sua vida espiritual. Não se pode mais falar em frequência à reunião de oração pois a participação de muitos já se tornou acidental. A busca pelo conhecimento da vontade revelada pelo Senhor, nas Escrituras Sagradas, o que era a tarefa mais excelente da Escola Dominical, está em franco declínio. E estas realidades associadas a uma outra série de desleixos espirituais me fazem entender que muitos “crentes” também, começam a questionar no seu coração, se realmente precisam de Deus. Ainda que não sejam corajosos o bastante para verbalizar esse questionamento, vivem exatamente como o espírito de nossa época.
É hora de resgatarmos o anelo, o desejo profundo, a sede e a dependência absoluta que temos do Senhor. É hora de recuperarmos o tempo de oração, de meditação e de profunda espiritualidade que marcaram a igreja em períodos de trevas como estes em que vivemos.
E devemos faze-lo antes que muitos sejam sufocados e terrivelmente feridos pelo nosso tempo, mas principalmente pela mão de juízo do Senhor que conhece os intentos do coração do homem. Afinal de contas não há algo que precisemos mais do que do Senhor dirigindo nossas vidas.
Pense nisto hoje e busque graça diante do Deus!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Doutrina da Reconciliação – Pr. Cleverson Gilvan

INTRODUÇÃO

A doutrina da Reconciliação é, certamente, uma das mais doces nas Escrituras. Nela encontramos a manifestação do amor de Deus em Cristo Jesus, fazendo a paz e removendo a inimizade que causava separação entre Ele e o pecador.

Neste estudo apresentaremos uma abordagem sistematizada da doutrina da reconciliação. Nosso objetivo é considerar o ensino a partir das principais referências bíblicas sobre o tema, passando pelas informações no Antigo Testamento e relacionando a doutrina com outros pontos doutrinários relevantes. Para tanto abordaremos temas como a natureza da reconciliação, o autor, o agente, os embaixadores, o ministério, o tempo, os meios, os objetos e as bênçãos da reconciliação.

Deste modo esperamos oferecer ao leitor uma abordagem prática de como Deus promoveu a nossa reconciliação em Cristo Jesus, removendo a inimizade que nos separava e nos impedia de desfrutar todas as graças decorrentes da obra expiatória de Cristo Jesus.

Crer na doutrina da reconciliação é descansar na maneira graciosa como Deus trata aqueles que foram comprados na cruz do calvário.

1 O USO DO TERMO NO NOVO TESTAMENTO

Nas ocorrências do termo katallasso no NT encontramos o registro, nos textos pertinentes, das seguintes variações – katallaghn, katallagh e katallaghv. Segundo Berkhof os principais termos para reconciliação no Novo Testamento são “katalasso e katalage - significam ‘reconciliar’ e ‘reconciliação’. (…) O ofensor reconcilia, não a si próprio, mas a pessoa ofendida.”[1] (katallaghn, cf. ocorrência em Rm. 5.11).

O termo, no seu uso mais comum, discute a reconciliação no âmbito dos relacionamentos conjugais. E, conforme as anotações do Theological Dictionary of the New Testament a idéia no texto de 1ª Co. 7.11 não é de que necessariamente a esposa que busca a reconciliação tenha alguma culpa, mas está ativamente interessada em buscá-la.[2]

Já nas ocorrências mais específicas que norteiam a relação Deus-Homem, apenas o apóstolo Paulo faz uso do termo com as variações supracitadas. Mas a idéia não é a de que Deus é reconciliado ou reconcilia a si mesmo, mas a de que Ele próprio proporciona a reconciliação do homem consigo mesmo, bem como do mundo[3]. Para corroborar com este pensamento devemos lembrar o caráter imutável de Deus. Ele não pode sofrer qualquer tipo de mudança, por isso, o que muda é a nossa relação com ele.


2 A IDÉIA DA RECONCILIÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

A estrutura do culto do Antigo Testamento já trazia consigo o conceito de reconciliação.

Ao falar sobre o tema Calvino diz:

Ora, visto que o uso da lei foi múltiplo, como se verá melhor no devido lugar, na verdade foi especialmente outorgada a Moisés e a todos os profetas a incumbência de ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, donde também Paulo chama Cristo o fim da lei (Rm 10.4).[4]

Todos os elementos apontavam para Cristo e para a sua obra. Mais especificamente no propiciatório já encontramos referências à idéia da doutrina bíblica da reconciliação.

Na estrutura religiosa do AT encontramos o Tabernáculo como uma espécie de morada provisória do Senhor no meio de Israel[5]. Lá, além do lugar santo encontrávamos também o Santo dos Santos, onde o sumo sacerdote entrava uma vez por ano para fazer a expiação do pecado do povo. Ali estava a Arca da aliança e sobre ela uma “tampa” chamada de “Propiciatório”[6]. Ao borrifar o sangue sobre o propiciatório a ira de Deus era aplacada e o resultado era o perdão do pecado e a restauração da comunhão do pecador à comunhão com Deus.[7] Devemos lembrar que objetivamente isto acontece na cruz, quando o Cordeiro de Deus é imolado para que fossemos reconciliados com ele. Uma obra especial e cara, como declara Baillie, que diz: “Nossa reconciliação é infinitamente cara a Ele, não no sentido de que foi difícil para ele nos perdoar, (…) É sua natureza amar e perdoar.”.[8]

Todo esse rito cerimonial do culto veterotestamentário apontava para a reconciliação que encontramos em Cristo Jesus. Quando o Messias veio ele se tornou a nossa propiciação, como se observa na declaração de Paulo: “Romanos 3:25 - a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;


3 A NATUREZA DA RECONCILIAÇÃO

Stott diz que reconciliação tem a ver com a nossa inimizade contra Deus e a nossa alienação dele.[9] Assim, a reconciliação, propriamente dita, é a remoção desta alienação proporcionando uma relação harmoniosa e pacífica com Deus.

Esta idéia fica mais clara quando percebemos, por exemplo, a argumentação de John Murray, que expande a idéia. Ao comentar o texto de Romanos 5.11, uma das referências bíblicas centrais acerca da doutrina da reconciliação, ele afirma que na reconciliação o que se destaca não é a remoção da nossa inimizade contra Deus, pelo contrário, o verso supracitado salienta o fato de que Deus removeu de nós a alienação que havia da parte dEle para conosco.[10]

Sttot também observa que esta reconciliação, ou a remoção da base da alienação, tem a ver com a não imputação das nossas transgressões. Ele diz “De modo que em sua misericórdia Deus recusou-se a levar em conta contra nós os nossos pecados ou exigir que sofrêssemos a penalidade deles.[11]. Contudo, vale ressaltar que esses pecados foram imputados à Cristo. Portanto, cremos que somos plenamente reconciliados com Deus e aceitos por ele, porque nossos pecados foram imputados a Cristo e Sua justiça nos foi imputada.

Desse modo, podemos dizer que a Reconciliação é a obra do Pai através da qual Ele remove a alienação do pecado[12], libertando o homem de toda inimizade, por meio de Cristo. Assim, Deus remove a barreira tanto por causa da nossa rebeldia, quando por causa de sua ira. Devemos notar ainda que ao fazê-lo por meio de Cristo, Deus se revela como o verdadeiro Emanuel, ensinando-nos que toda a manifestação do seu amor pelo eleito tem seu fundamento no sacrifício de Cristo.[13]

3.1 A RECONCILIAÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA

Tal qual na doutrina da justificação, também podemos pensar em termos de reconciliação objetiva e reconciliação subjetiva.

RECONCILIAÇÃO OBJETIVA

Ao falar sobre a expiação objetiva, Berkhof diz:

Que dizer que a expiação influi primordialmente na pessoa por quem é feita. Se um homem age mal e presta satisfação do mal que praticou, esta satisfação visa a influir na pessoa que praticou o mal, e não na parte ofendida. No caso em foco, significa que a expiação foi destinada a propiciar a Deus e reconciliá-lo com o pecador.[14]

Certamente, quando falamos em termos de uma reconciliação objetiva devemos lembrar das palavras do apóstolo Paulo em 2ª Coríntios que diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Assim, na reconciliação objetiva devemos considerar dois fatores: Primeiramente, Deus, na qualidade de ofendido é o agente que remove a base da alienação tornando-se, em Cristo, favorável ao homem. E em segundo lugar, ele faz isto na cruz, como uma obra terminada, portanto, realizada de uma vez por todas.

Esta reconciliação objetiva é a base da reconciliação subjetiva

RECONCILIAÇÃO SUBJETIVA

Já no seu aspecto subjetivo a reconciliação se relaciona com a posse e o gozo desta condição de reconciliação. Esta condição está intimamente relacionada ao ministério da reconciliação que foi confiado à Igreja. Quando anunciamos o evangelho proclamamos a mensagem da reconciliação convidando o pecador para este relacionamento com o Senhor. Stott ainda vê outros aspectos envolvidos nesta reconciliação subjetiva que ele chama de plano horizontal da reconciliação.[15] Neste plano horizontal vemos a reconciliação como um aspecto motivador da nova relação na comunidade cristã, formada por judeus e gentios, senhores e escravos e etc.

Há outros estudiosos que trabalham esse conceito de revelação objetiva e subjetiva em termos de ação e resultados.

Ivan Ross diz: “A reconciliação como ação seria a remoção da base da alienação de Deus e a reconciliação como resultado seria a relação harmoniosa e pacífica estabelecida em virtude da base da alienação de Deus para conosco ter sido removida.”[16] Uma forma diferente de trabalhar os conceitos de objetiva e subjetiva.


4 O AUTOR DA RECONCILIAÇÃO – DEUS, O PAI

Ao discutirmos a autoria da reconciliação devemos voltar os nossos olhos especialmente para 2ª Coríntios 5.18-21. Lá, o apóstolo Paulo dá uma clara informação sobre o assunto em questão. Logo no início do verso 18 ele diz que “Tudo provém de Deus”, esta expressão, por si só, sugere que Deus é a fonte última da nova vida, o que é observado mais especificamente quando analisamos esta expressão em conexão com a mensagem do verso 17, que fala dos salvos como novas criaturas. Contudo, a identidade do Agente da reconciliação torna-se mais clara na sequência do verso 18, onde ele diz que “Deus ... nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo”. Ora, é clara e lógica a referência à primeira pessoa da Trindade, pois, ao destacar a Segunda Pessoa – Cristo, fica evidente que o termo Deus não poderia se referir a outro senão ao Pai.

A mesma idéia é reforçada no verso 19 quando ele diz que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Uma clara declaração da autoria da reconciliação. Ela, portanto, não é uma iniciativa do Filho, nem tampouco, do homem, mas do Pai e somente do Pai. Veja que Paulo diz que Deus é que estava reconciliando consigo o mundo.

Em todas as ocorrências do verbo reconciliar no Novo Testamento Deus é sempre o sujeito.


5 O AGENTE DA RECONCILIAÇÃO – CRISTO

Um segundo conceito importante diz respeito ao agente da reconciliação. A Confissão de Fé de Westminster diz:

O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente à justiça do Pai. e para todos aqueles que o Pai lhe deu adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus.[17]

O texto da confissão deixa a sugestão de que há uma participação do Filho na obra de reconciliação. Esta participação está apresentada no texto de Paulo em 2ª Coríntios 5.18-19. Lá, Paulo diz que Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo. Isto é, pela instrumentalidade de Jesus.

Stott diz:

(...) se Deus é o autor, Cristo é o agente da reconciliação. Os versículos 18 e 19 do capítulo 5 de 2 Coríntios tornam essa verdade clara como o cristal. "Deus. . . nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo" e "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo". Ambas as afirmativas nos dizem que Deus tomou a iniciativa da reconciliação, e que ele o fez em Cristo e por meio dele.[18]

A mesma idéia é fortalecida na argumentação de Calvino, nas suas institutas quando ele diz:

Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é proposta em Cristo.[19] (grifo meu)

Deste modo, fica claro que há uma participação de Cristo no ministério da reconciliação.


6 OS EMBAIXADORES E O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO – OS SALVOS

2 Coríntios 5:19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra (logon) da reconciliação.

As Escrituras afirmam que aos filhos de Deus foi confiado o anúncio da reconciliação. Aqui devemos lembrar que embora a obra da reconciliação tenha sido consumada na cruz é necessário que os pecadores sejam convidados ao arrependimento.[20] Neste aspecto devemos lembrar que a pregação fiel do evangelho é um convite à reconciliação do homem com Deus.

Em 2ª Co. 5.18 o apóstolo Paulo diz que recebemos o ministério da reconciliação. Aqui devemos lembrar que a palavra usada para se referir a ministério é diakonian, que pode ser traduzida como ministério, ministração ou serviço, podendo referir-se aqueles que pelo mandato de Deus proclamam e promovem a religião entre os homens[21].

Segundo Calvino, a graça da reconciliação é aplicada em nós pelo ministério do evangelho e isto, de tal modo, que podemos compartilhá-lo.[22] Mais adiante, no mesmo comentário, falando sobre o ministério da reconciliação ele escreve:

Esta é uma das descrições mais notáveis do evangelho como uma mensagem entregue através de um embaixador com o fim de reconciliar os homens com Deus. É uma dignidade singular de ministros do evangelho sermos enviados por Deus com um mandato como mensageiros e, por assim dizer, com a garantia de sua boa vontade para conosco. (…) Aos ministros é dada a autoridade para nos declararem estas boas novas e fazer aumentar nossa segurança no amor paternal de Deus para conosco. É verdade que qualquer outra pessoa pode ser-nos testemunha da graça de Deus, mas Paulo ensina que este dever é imposto especialmente aos ministros.[23]

Assim, podemos dizer que o ministério da reconciliação é a declaração, divinamente autorizada, da obra de Cristo em favor do pecador.

Quando anunciamos o evangelho anunciamos o ministério da reconciliação. E, considerando que todos os crentes são comissionados por Deus para anunciar as virtudes de Jesus, vale reiterar o fato de que todos somos ministros da reconciliação. Veja o que diz Pedro: 1 Pedro 2:9 Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;.


7 O TEMPO DA RECONCILIAÇÃO

Para Calvino o fundamento e a causa da reconciliação é o sacrifício de Cristo.[24] Pensando a partir da obra de Cristo podemos afirmar que a reconciliação tem a ver com o efeito da obra de Cristo.

Ao falar sobre o tempo da reconciliação, Stott observa que devemos considerar o tempo verbal grego. A idéia de “reconciliou” não é a de algo que está sendo feito, mas de algo que foi feito. Para argumentar esta idéia, Stott cita Forsyth:

Deus estava em Cristo, reconciliando", na realidade, reconciliando, terminando a obra. Não foi um caso tentativo, preliminar. . . A reconciliação estava terminada na morte de Cristo. Paulo não pregava uma reconciliação gradual. Ele pregava o que os antigos teólogos costumavam chamar de obra terminada. . . Ele pregava algo feito uma vez por todas — uma reconciliação que está na base da própria composição da alma, não um convite apenas.[25]

Portanto, a obra de reconciliação foi terminada na cruz, mas é necessário que os pecadores creiam e se arrependam para que assim sejam reconciliados com Deus.


8 OS MEIOS DA RECONCILIAÇÃO

Uma das declarações mais impressionantes do apóstolo Paulo em 2ª Coríntios é quando ele diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. O que num outro capítulo deste trabalho foi observado como determinando o autor da reconciliação. Contudo, Calvino observa que mais adiante Paulo deixa claro os meios pelos quais esta reconciliação foi operada, e ao falar sobre isso ele declara:

A forma pela qual ele fez isso é em seguida adicionada, ou seja, não imputando [= computando] aos homens as suas transgressões. E isto é igualmente explicado ao mostrar ele como Cristo fez propiciação pelos nossos pecados e adquiriu justiça para nós.[26]

Deste modo, o teólogo francês assevera que ao não imputar aos homens a transgressão dos seus pecados, Deus estava reconciliando o pecador consigo mesmo, sendo este, portanto, o meio pelo qual o pecador é reconciliado. E sobre isso ele observa:

Notemos bem como os homens se voltam para o favor divino – sendo considerados justos, recebendo a remissão dos seus pecados. Enquanto Deus computar os nossos pecados, ele não pode fazer outra coisa senão nos considerar com aversão, porquanto ele não pode contemplar nem favorecer os pecadores como se fossem amigos. Porém, isto pode parecer contradição do que se diz alhures, ou seja “fomos amados por ele antes da fundação do mundo” (Ef. 1.4), e sobretudo João 3.16, onde ele diz que o amor por nós foi a razão por que ele expiou os nossos pecados por intermédio de Cristo, porquanto a causa deve sempre preceder o efeito. Minha resposta é que fomos, de fato, amados desde antes da fundação do mundo, porém não fora de Cristo. Porém concordo em que o amor divino, no tocante a Deus não se prendia a tempo nem a sequência; porém, no tocante a nós o seu amor tem seu fundamento no sacrifício de Cristo. Pois quando pensamos em Deus, não pelo prisma de um mediador, só podemos concebê-lo como estando irado conosco; porém, quando um mediador se interpõe entre nós e ele, descobrimos que ele é pacificado em relação a nós. Mas já que é também necessário que saibamos que Cristo nos veio da fonte da livre misericórdia de Deus, a Escritura ensina explicitamente que a ira do Pai foi aplacada pelo sacrifício do Filho, e assim o Filho foi oferecido para a expiação dos pecados dos homens, porque Deus teve misericórdia deles, e fez deste sacrifício o penhor do recebimento deles em seu favor. Sintetizando: onde quer que haja pecado, também estará presente a ira divina, pois Deus não nos será propício enquanto não tiver apagado nossos pecados, não mais no-los atribuindo. Uma vez que a nossa consciência não pode apropriar-se desta benção sem a intervenção do sacrifício, Paulo está correto em fazer do mesmo o fundamento e a causa da reconciliação até o ponto em que estamos envolvidos.[27]

Deste modo, como observamos na análise de Calvino, se o fato de Deus estar em Cristo, não imputando aos homens as suas transgressões, tornou-se o meio da reconciliação, mais especificamente neste ato, o fundamento e a causa repousaram no próprio sacrifício do Redentor.

Assim, estabelece-se a idéia de que o fato de não imputar aos homens as suas transgressões torna-se o meio pelo qual a reconciliação se processa.

Mais adiante, Calvino observa que, de maneira mais subjetiva, a graça da reconciliação nos é aplicada por intermédio do evangelho.[28] Esta aplicação está intimamente relacionando com o que chamamos neste trabalho de o ministério da reconciliação.


9 OS OBJETOS DA RECONCILIAÇÃO.

DEUS

2 Coríntios 5:19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.

Ao comentar sobre este texto Calvino faz uma observação extremamente pertinente quando diz:

Alguns consideram esta expressão como significando simplesmente que “Deus estava, em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo”, porém, o significado aqui é mais amplo, mais rico do que isto, pois ele está dizendo, primeiramente que Deus estava em Cristo, para em seguida dizer que, por meio desta intervenção, ele estava reconciliando o mundo consigo mesmo. Esta referência é ao Pai (…) portanto, Paulo estava dizendo que o Pai estava no Filho ...[29]

Devemos lembrar que o pecado nos separou de Deus, agora o Pai, em Cristo, nos reconcilia consigo mesmo. Esta é uma ação da livre graça de Deus que, na obra de Cristo, remove a base da nossa alienação, tornando-se favorável ao pecador redimido. John Gill observa que esta reconciliação Deus fazia por meio de Cristo, ou seja, ele era o seu instrumento.[30]

PECADOR

2 Coríntios 5:18 Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,

Calvino lembra que fora de Cristo Deus se acha insatisfeito com todos os homens.[31] E, mas adiante no seu comentário ele observa: “Por que Deus, em Cristo, se manifestou aos homens? Para que houvesse reconciliação, a fim de que a hostilidade chegasse ao fim e nós, como estranhos que éramos, fôssemos adotados como filhos.[32]

A CRIAÇÃO

Colossenses 1:20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

O uso do termo reconciliação aqui pode ter um sentido secundário aqui. Veja o que diz Stott:

Parece mais provável, portanto, que principados e potestades foram "reconciliados" no sentido do capítulo seguinte, a saber, que foram "desarmados" por Cristo, que "publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Co­lossenses 2:15). Admitimos que é um uso estranho da palavra "re­conciliados", mas, uma vez que Paulo também descreve essa reconciliação como "fazendo a paz" (1:20), talvez F. F. Bruce tenha razão ao dizer que o apóstolo está falando de uma "pacificação" de seres cósmicos "submetendo-se contra suas vontades a um poder que não podem resistir"[33]

Contudo, a posição de Hendriksen, nesse particular nos parece mais de acordo com o ensino geral das Escrituras. Antes de considerá-la devemos lembrar que os efeitos do pecado original se estenderam a toda a criação. Exatamente por isso encontramos nas Escrituras referências à deterioração da natureza em função do pecado, como o registro de Gênesis 3.18, que afirma que depois do pecado a terra passou a produzir cardos e abrolhos. Devemos lembrar que a salvação está mais particularmente relacionada com o mundo natural[34], sendo mais especificamente destinada aos homens

Por tudo isso, Hendriksen comenta:

O significado real de Cl. 1.20 é provavelmente o seguinte: O pecado arruinou o universo. Ele destruiu a harmonia entre as criaturas e também entre todas elas e seu Deus. No entanto, por meio do sangue da cruz (cf. Ef. 2.11-18), o pecado, em princípio, foi vencido. A demanda da lei foi cumprida, sua maldição destruída (Rm. 3.25; Gl. 3.13). Assim também a harmonia foi restaurada. A paz foi estabelecida. Por meio de Cristo e sua cruz o universo é reconduzido ou restaurado ao seu correto relacionamento com Deus no sentido de que, como justa recompensa por sua obediência, Cristo foi exaltado à destra do Pai, e, desta posição de autoridade e poder, governa todo universo para o bem da igreja e para a glória de Deus. Esta interpretação harmoniza a presente passagem com as outras a ela relacionadas, escritas durante este mesmo aprisionamento.[35]

Estas considerações nos fazem crer que a proposta de Cl. 1.20 é referi-se a efeitos no mundo natural, o que, como já dissemos, parece mais de acordo com a soteriologia e o ensino geral das Escrituras.

Certamente essa dimensão da reconciliação é mais subjetiva, pois só será contemplada, na sua plenitude, na segunda vinda de Cristo Jesus.


10 BÊNÇÃOS DA RECONCILIAÇÃO

PAZ

O texto de Romanos 5.1, ao falar sobre o efeito da justificação, aponta para a paz com Deus. Contudo, como justificação e reconciliação são termos paralelos, podemos dizer que uma das bênçãos da reconciliação é a paz.

Calvino, comentando este texto diz: Paz, portanto, significa serenidade de consciência, a qual tem sua origem na certeza de haver Deus nos reconciliado consigo mesmo.[36] Este aspecto da paz como uma das bênçãos da reconciliação ganha ainda mais expressão quando encontramos Anders Nygren afirmando que paz é um conceito que implica relacionamento e, no caso específico trata do relacionamento entre Deus e o homem. E este relacionamento é possível porque nós fomos reconciliados com Deus através da morte do seu Filho.[37]

ACESSO AO SENHOR

Outra benção anotada por Stott é o acesso a Deus, como significando uma comunhão ativa com Deus. Para tanto, o teólogo nos remete a Ef. 2.16-18 e 3.12. Ao comentar estas passagens ele diz:

"Acesso" a Deus (prosagoge) é outra bênção da reconciliação. Parece denotar a comunhão ativa com Deus, especialmente em oração, a qual seus filhos reconciliados desfrutam. Duas vezes Paulo equipara "acesso a Deus" a "paz com Deus", a primeira vez atribuindo-os à nossa justificação em vez de à nossa reconciliação (Romanos 5:1-2), e a segunda vez explicando o "acesso" como uma experiência trinitariana, na qual temos acesso ao Pai através do Filho mediante o Espírito (Efésios 2:17-18), e "pelo qual temos ousadia e acesso com confiança" (Efésios 3:12).[38]

Assim, em virtude da reconciliação temos uma comunhão com Deus. Uma comunhão que pode ser qualificada como imperdível. Uma benção maravilhosa da graça do Senhor.


CONCLUSÃO

Deus, na sua infinita misericórdia, tem providenciado todos os meios necessários para que desfrutemos do seu amor. Ao ser Ele o reconciliador, em Cristo Jesus, somos colocados diante da sua livre e superabundante graça.

Nada é mais doce, confortador e revigorante do que saber que em Cristo Jesus toda inimizade é removida, de tal forma que somos convidados a desfrutar de todas as bênçãos decorrentes de nossa relação filial com o Pai.

O desenvolvimento desta temática trará a igreja a dimensão preciosa da obra de Cristo em nosso favor e nos direcionará na adoração e no louvor que devemos prestar ao seu santo nome.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 376

[2] KITTEL, Gerhard and FRIEDRICH, Gerhard. Theological Dictionary of The New Testament – Abridged in one volume. Reprinted. Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Company, 1992, p. 40

[3] Idem, p. 41

[4] CALVINO, João. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1 p. 28

[5] A Doutrina da Propiciação - http://www.ibcambui.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=198:a-doutrina-da-propicia&catid=51:estudos&Itemid=80. Acessado em 20 de setembro de 2009.

[6] Para maiores detalhes veja os textos em Ex. 25.17-22; Lv. 16.5-19.

[7] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software– verbete “propiciação”.

[8] BAILLIE, D.M. God Was In Christ - An Essay on Incarnation and Atonement. New York: Charles Scribner’s Sons, 1948. p. 174, 175.

[9] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 89

[10] MURRAY, John. Comentário Bíblico Fiel - Romanos. Editora Fiel. p. 198

[11] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. p. 88

[12] Deve se notar a relação intimamente necessária entre a doutrina da expiação e da justificação com a doutrina da reconciliação. Calvino diz: “Enquanto Deus computar os nossos pecados, Ele não pode fazer outra coisa senão nos considerar com aversão”, contudo, ele ainda diz “o amor por nós foi a razão por que ele (Deus-Pai), expiou os nossos pecados por intermédio de Cristo.” Comentário 2ª Coríntios, p. 122.

[13] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 122

[14] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 286

[15] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 85

[16] ROSS, Ivan Gilbert. Apostila de Teologia Sistemática xerografada. CPO/IBEL

[17] A Confissão de Fé de Westminster - http://www.teologia.org.br/estudos/confissao_westminster.pdf acessado em 15 de agosto de 2009

[18] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 87

[19] CALVINO, João. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1 pág. 5

[20] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 88

[21] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software – Strong – verbete diakonian.

[22] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[23] Idem, p.120

[24] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 222

[25] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 87

[26] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[27] Idem, p. 122

[28] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[29] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 121

[30] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software – Comentário 2ª Co. 5.19, GILL, John

[31] CALVINO, João. 2 Coríntios. p. 121

[32] Idem, p. 121

[33] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 86

[34] Em Romanos 8.19-21 Paula fala da expectativa da criação em ser redimida, o que nos leva a considerar a possibilidade de uma relação entre a doutrina da reconciliação e a ordem natural da criação. Observações pessoais.

[35] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Colossenses e Filemon. Tradução de Ézia Cunha de Mullins. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1993. p. 106

[36] CALVINO, João. Romanos. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Bernardo do Campo: Edições Paracletos, 1997.comentário aos Romanos, p. 176

[37] NYGREN, Anders. Commentary on Romans. Translated by Carl C. Rasmussen. 5. ed. Sweden: Muhlenberg Press, 1949. p. 192

[38] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 85

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