domingo, 14 de março de 2010




PRECISAMOS DE DEUS?
Isaías 5:12 Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes;
porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos.

Rev. Cleverson Gilvan

Parece estranho começar um artigo num informativo evangélico com uma pergunta como esta. Contudo, há uma razão muito séria para que esta reflexão se dê neste espaço.
Nos últimos anos temos presenciado um avanço extraordinário do homem em várias frentes. Na área tecnológica todos os dias somos surpreendidos por novidades extraordinárias como a tv digital, a transmissão em 3D e a já anunciada morte do DVD, sendo substituído pelo Blue-ray. Potentes computadores são comercializados a preços módicos e o uso da internet já se tornou um veículo de comunicação muito popular. Em outras áreas da ciência, como a medicina, também vemos importantes avanços que tendem a se aperfeiçoar ainda mais agora que o DNA teve sua sequência decifrada. Muitas cirurgias são feitas sem que nenhum corte seja dado no paciente e há em quem diga que, em muito pouco tempo, seremos capazes de antever doenças com exames rotineiros. Nossos veículos automotores são cada vez mais impressionantes. Muitos vêm equipados com sistema de navegação por satélite (GPS) e já existem modelos sendo comercializados que são capazes de estacionar sozinhos. E não bastasse tudo isso, o futuro é muito promissor. Quanto avanço! Quanta conhecimento! Quantas maravilhas!
Tudo isso tem feito o homem da pós-modernidade perguntar: Será que realmente precisamos de Deus?
Confesso que uma das maiores preocupações que ocupam o meu coração é a maneira como os crentes tem interagido com este tempo. Estamos tão envolvidos nessa onda de avanços que muitas vezes depositamos nestes recursos a confiança que devemos ter só em Deus.
É preocupante perceber a maneira irresponsável com que muitos vem cuidando da sua vida espiritual. Não se pode mais falar em frequência à reunião de oração pois a participação de muitos já se tornou acidental. A busca pelo conhecimento da vontade revelada pelo Senhor, nas Escrituras Sagradas, o que era a tarefa mais excelente da Escola Dominical, está em franco declínio. E estas realidades associadas a uma outra série de desleixos espirituais me fazem entender que muitos “crentes” também, começam a questionar no seu coração, se realmente precisam de Deus. Ainda que não sejam corajosos o bastante para verbalizar esse questionamento, vivem exatamente como o espírito de nossa época.
É hora de resgatarmos o anelo, o desejo profundo, a sede e a dependência absoluta que temos do Senhor. É hora de recuperarmos o tempo de oração, de meditação e de profunda espiritualidade que marcaram a igreja em períodos de trevas como estes em que vivemos.
E devemos faze-lo antes que muitos sejam sufocados e terrivelmente feridos pelo nosso tempo, mas principalmente pela mão de juízo do Senhor que conhece os intentos do coração do homem. Afinal de contas não há algo que precisemos mais do que do Senhor dirigindo nossas vidas.
Pense nisto hoje e busque graça diante do Deus!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Doutrina da Reconciliação – Pr. Cleverson Gilvan

INTRODUÇÃO

A doutrina da Reconciliação é, certamente, uma das mais doces nas Escrituras. Nela encontramos a manifestação do amor de Deus em Cristo Jesus, fazendo a paz e removendo a inimizade que causava separação entre Ele e o pecador.

Neste estudo apresentaremos uma abordagem sistematizada da doutrina da reconciliação. Nosso objetivo é considerar o ensino a partir das principais referências bíblicas sobre o tema, passando pelas informações no Antigo Testamento e relacionando a doutrina com outros pontos doutrinários relevantes. Para tanto abordaremos temas como a natureza da reconciliação, o autor, o agente, os embaixadores, o ministério, o tempo, os meios, os objetos e as bênçãos da reconciliação.

Deste modo esperamos oferecer ao leitor uma abordagem prática de como Deus promoveu a nossa reconciliação em Cristo Jesus, removendo a inimizade que nos separava e nos impedia de desfrutar todas as graças decorrentes da obra expiatória de Cristo Jesus.

Crer na doutrina da reconciliação é descansar na maneira graciosa como Deus trata aqueles que foram comprados na cruz do calvário.

1 O USO DO TERMO NO NOVO TESTAMENTO

Nas ocorrências do termo katallasso no NT encontramos o registro, nos textos pertinentes, das seguintes variações – katallaghn, katallagh e katallaghv. Segundo Berkhof os principais termos para reconciliação no Novo Testamento são “katalasso e katalage - significam ‘reconciliar’ e ‘reconciliação’. (…) O ofensor reconcilia, não a si próprio, mas a pessoa ofendida.”[1] (katallaghn, cf. ocorrência em Rm. 5.11).

O termo, no seu uso mais comum, discute a reconciliação no âmbito dos relacionamentos conjugais. E, conforme as anotações do Theological Dictionary of the New Testament a idéia no texto de 1ª Co. 7.11 não é de que necessariamente a esposa que busca a reconciliação tenha alguma culpa, mas está ativamente interessada em buscá-la.[2]

Já nas ocorrências mais específicas que norteiam a relação Deus-Homem, apenas o apóstolo Paulo faz uso do termo com as variações supracitadas. Mas a idéia não é a de que Deus é reconciliado ou reconcilia a si mesmo, mas a de que Ele próprio proporciona a reconciliação do homem consigo mesmo, bem como do mundo[3]. Para corroborar com este pensamento devemos lembrar o caráter imutável de Deus. Ele não pode sofrer qualquer tipo de mudança, por isso, o que muda é a nossa relação com ele.


2 A IDÉIA DA RECONCILIÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

A estrutura do culto do Antigo Testamento já trazia consigo o conceito de reconciliação.

Ao falar sobre o tema Calvino diz:

Ora, visto que o uso da lei foi múltiplo, como se verá melhor no devido lugar, na verdade foi especialmente outorgada a Moisés e a todos os profetas a incumbência de ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, donde também Paulo chama Cristo o fim da lei (Rm 10.4).[4]

Todos os elementos apontavam para Cristo e para a sua obra. Mais especificamente no propiciatório já encontramos referências à idéia da doutrina bíblica da reconciliação.

Na estrutura religiosa do AT encontramos o Tabernáculo como uma espécie de morada provisória do Senhor no meio de Israel[5]. Lá, além do lugar santo encontrávamos também o Santo dos Santos, onde o sumo sacerdote entrava uma vez por ano para fazer a expiação do pecado do povo. Ali estava a Arca da aliança e sobre ela uma “tampa” chamada de “Propiciatório”[6]. Ao borrifar o sangue sobre o propiciatório a ira de Deus era aplacada e o resultado era o perdão do pecado e a restauração da comunhão do pecador à comunhão com Deus.[7] Devemos lembrar que objetivamente isto acontece na cruz, quando o Cordeiro de Deus é imolado para que fossemos reconciliados com ele. Uma obra especial e cara, como declara Baillie, que diz: “Nossa reconciliação é infinitamente cara a Ele, não no sentido de que foi difícil para ele nos perdoar, (…) É sua natureza amar e perdoar.”.[8]

Todo esse rito cerimonial do culto veterotestamentário apontava para a reconciliação que encontramos em Cristo Jesus. Quando o Messias veio ele se tornou a nossa propiciação, como se observa na declaração de Paulo: “Romanos 3:25 - a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;


3 A NATUREZA DA RECONCILIAÇÃO

Stott diz que reconciliação tem a ver com a nossa inimizade contra Deus e a nossa alienação dele.[9] Assim, a reconciliação, propriamente dita, é a remoção desta alienação proporcionando uma relação harmoniosa e pacífica com Deus.

Esta idéia fica mais clara quando percebemos, por exemplo, a argumentação de John Murray, que expande a idéia. Ao comentar o texto de Romanos 5.11, uma das referências bíblicas centrais acerca da doutrina da reconciliação, ele afirma que na reconciliação o que se destaca não é a remoção da nossa inimizade contra Deus, pelo contrário, o verso supracitado salienta o fato de que Deus removeu de nós a alienação que havia da parte dEle para conosco.[10]

Sttot também observa que esta reconciliação, ou a remoção da base da alienação, tem a ver com a não imputação das nossas transgressões. Ele diz “De modo que em sua misericórdia Deus recusou-se a levar em conta contra nós os nossos pecados ou exigir que sofrêssemos a penalidade deles.[11]. Contudo, vale ressaltar que esses pecados foram imputados à Cristo. Portanto, cremos que somos plenamente reconciliados com Deus e aceitos por ele, porque nossos pecados foram imputados a Cristo e Sua justiça nos foi imputada.

Desse modo, podemos dizer que a Reconciliação é a obra do Pai através da qual Ele remove a alienação do pecado[12], libertando o homem de toda inimizade, por meio de Cristo. Assim, Deus remove a barreira tanto por causa da nossa rebeldia, quando por causa de sua ira. Devemos notar ainda que ao fazê-lo por meio de Cristo, Deus se revela como o verdadeiro Emanuel, ensinando-nos que toda a manifestação do seu amor pelo eleito tem seu fundamento no sacrifício de Cristo.[13]

3.1 A RECONCILIAÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA

Tal qual na doutrina da justificação, também podemos pensar em termos de reconciliação objetiva e reconciliação subjetiva.

RECONCILIAÇÃO OBJETIVA

Ao falar sobre a expiação objetiva, Berkhof diz:

Que dizer que a expiação influi primordialmente na pessoa por quem é feita. Se um homem age mal e presta satisfação do mal que praticou, esta satisfação visa a influir na pessoa que praticou o mal, e não na parte ofendida. No caso em foco, significa que a expiação foi destinada a propiciar a Deus e reconciliá-lo com o pecador.[14]

Certamente, quando falamos em termos de uma reconciliação objetiva devemos lembrar das palavras do apóstolo Paulo em 2ª Coríntios que diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Assim, na reconciliação objetiva devemos considerar dois fatores: Primeiramente, Deus, na qualidade de ofendido é o agente que remove a base da alienação tornando-se, em Cristo, favorável ao homem. E em segundo lugar, ele faz isto na cruz, como uma obra terminada, portanto, realizada de uma vez por todas.

Esta reconciliação objetiva é a base da reconciliação subjetiva

RECONCILIAÇÃO SUBJETIVA

Já no seu aspecto subjetivo a reconciliação se relaciona com a posse e o gozo desta condição de reconciliação. Esta condição está intimamente relacionada ao ministério da reconciliação que foi confiado à Igreja. Quando anunciamos o evangelho proclamamos a mensagem da reconciliação convidando o pecador para este relacionamento com o Senhor. Stott ainda vê outros aspectos envolvidos nesta reconciliação subjetiva que ele chama de plano horizontal da reconciliação.[15] Neste plano horizontal vemos a reconciliação como um aspecto motivador da nova relação na comunidade cristã, formada por judeus e gentios, senhores e escravos e etc.

Há outros estudiosos que trabalham esse conceito de revelação objetiva e subjetiva em termos de ação e resultados.

Ivan Ross diz: “A reconciliação como ação seria a remoção da base da alienação de Deus e a reconciliação como resultado seria a relação harmoniosa e pacífica estabelecida em virtude da base da alienação de Deus para conosco ter sido removida.”[16] Uma forma diferente de trabalhar os conceitos de objetiva e subjetiva.


4 O AUTOR DA RECONCILIAÇÃO – DEUS, O PAI

Ao discutirmos a autoria da reconciliação devemos voltar os nossos olhos especialmente para 2ª Coríntios 5.18-21. Lá, o apóstolo Paulo dá uma clara informação sobre o assunto em questão. Logo no início do verso 18 ele diz que “Tudo provém de Deus”, esta expressão, por si só, sugere que Deus é a fonte última da nova vida, o que é observado mais especificamente quando analisamos esta expressão em conexão com a mensagem do verso 17, que fala dos salvos como novas criaturas. Contudo, a identidade do Agente da reconciliação torna-se mais clara na sequência do verso 18, onde ele diz que “Deus ... nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo”. Ora, é clara e lógica a referência à primeira pessoa da Trindade, pois, ao destacar a Segunda Pessoa – Cristo, fica evidente que o termo Deus não poderia se referir a outro senão ao Pai.

A mesma idéia é reforçada no verso 19 quando ele diz que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Uma clara declaração da autoria da reconciliação. Ela, portanto, não é uma iniciativa do Filho, nem tampouco, do homem, mas do Pai e somente do Pai. Veja que Paulo diz que Deus é que estava reconciliando consigo o mundo.

Em todas as ocorrências do verbo reconciliar no Novo Testamento Deus é sempre o sujeito.


5 O AGENTE DA RECONCILIAÇÃO – CRISTO

Um segundo conceito importante diz respeito ao agente da reconciliação. A Confissão de Fé de Westminster diz:

O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente à justiça do Pai. e para todos aqueles que o Pai lhe deu adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus.[17]

O texto da confissão deixa a sugestão de que há uma participação do Filho na obra de reconciliação. Esta participação está apresentada no texto de Paulo em 2ª Coríntios 5.18-19. Lá, Paulo diz que Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo. Isto é, pela instrumentalidade de Jesus.

Stott diz:

(...) se Deus é o autor, Cristo é o agente da reconciliação. Os versículos 18 e 19 do capítulo 5 de 2 Coríntios tornam essa verdade clara como o cristal. "Deus. . . nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo" e "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo". Ambas as afirmativas nos dizem que Deus tomou a iniciativa da reconciliação, e que ele o fez em Cristo e por meio dele.[18]

A mesma idéia é fortalecida na argumentação de Calvino, nas suas institutas quando ele diz:

Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é proposta em Cristo.[19] (grifo meu)

Deste modo, fica claro que há uma participação de Cristo no ministério da reconciliação.


6 OS EMBAIXADORES E O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO – OS SALVOS

2 Coríntios 5:19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra (logon) da reconciliação.

As Escrituras afirmam que aos filhos de Deus foi confiado o anúncio da reconciliação. Aqui devemos lembrar que embora a obra da reconciliação tenha sido consumada na cruz é necessário que os pecadores sejam convidados ao arrependimento.[20] Neste aspecto devemos lembrar que a pregação fiel do evangelho é um convite à reconciliação do homem com Deus.

Em 2ª Co. 5.18 o apóstolo Paulo diz que recebemos o ministério da reconciliação. Aqui devemos lembrar que a palavra usada para se referir a ministério é diakonian, que pode ser traduzida como ministério, ministração ou serviço, podendo referir-se aqueles que pelo mandato de Deus proclamam e promovem a religião entre os homens[21].

Segundo Calvino, a graça da reconciliação é aplicada em nós pelo ministério do evangelho e isto, de tal modo, que podemos compartilhá-lo.[22] Mais adiante, no mesmo comentário, falando sobre o ministério da reconciliação ele escreve:

Esta é uma das descrições mais notáveis do evangelho como uma mensagem entregue através de um embaixador com o fim de reconciliar os homens com Deus. É uma dignidade singular de ministros do evangelho sermos enviados por Deus com um mandato como mensageiros e, por assim dizer, com a garantia de sua boa vontade para conosco. (…) Aos ministros é dada a autoridade para nos declararem estas boas novas e fazer aumentar nossa segurança no amor paternal de Deus para conosco. É verdade que qualquer outra pessoa pode ser-nos testemunha da graça de Deus, mas Paulo ensina que este dever é imposto especialmente aos ministros.[23]

Assim, podemos dizer que o ministério da reconciliação é a declaração, divinamente autorizada, da obra de Cristo em favor do pecador.

Quando anunciamos o evangelho anunciamos o ministério da reconciliação. E, considerando que todos os crentes são comissionados por Deus para anunciar as virtudes de Jesus, vale reiterar o fato de que todos somos ministros da reconciliação. Veja o que diz Pedro: 1 Pedro 2:9 Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;.


7 O TEMPO DA RECONCILIAÇÃO

Para Calvino o fundamento e a causa da reconciliação é o sacrifício de Cristo.[24] Pensando a partir da obra de Cristo podemos afirmar que a reconciliação tem a ver com o efeito da obra de Cristo.

Ao falar sobre o tempo da reconciliação, Stott observa que devemos considerar o tempo verbal grego. A idéia de “reconciliou” não é a de algo que está sendo feito, mas de algo que foi feito. Para argumentar esta idéia, Stott cita Forsyth:

Deus estava em Cristo, reconciliando", na realidade, reconciliando, terminando a obra. Não foi um caso tentativo, preliminar. . . A reconciliação estava terminada na morte de Cristo. Paulo não pregava uma reconciliação gradual. Ele pregava o que os antigos teólogos costumavam chamar de obra terminada. . . Ele pregava algo feito uma vez por todas — uma reconciliação que está na base da própria composição da alma, não um convite apenas.[25]

Portanto, a obra de reconciliação foi terminada na cruz, mas é necessário que os pecadores creiam e se arrependam para que assim sejam reconciliados com Deus.


8 OS MEIOS DA RECONCILIAÇÃO

Uma das declarações mais impressionantes do apóstolo Paulo em 2ª Coríntios é quando ele diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. O que num outro capítulo deste trabalho foi observado como determinando o autor da reconciliação. Contudo, Calvino observa que mais adiante Paulo deixa claro os meios pelos quais esta reconciliação foi operada, e ao falar sobre isso ele declara:

A forma pela qual ele fez isso é em seguida adicionada, ou seja, não imputando [= computando] aos homens as suas transgressões. E isto é igualmente explicado ao mostrar ele como Cristo fez propiciação pelos nossos pecados e adquiriu justiça para nós.[26]

Deste modo, o teólogo francês assevera que ao não imputar aos homens a transgressão dos seus pecados, Deus estava reconciliando o pecador consigo mesmo, sendo este, portanto, o meio pelo qual o pecador é reconciliado. E sobre isso ele observa:

Notemos bem como os homens se voltam para o favor divino – sendo considerados justos, recebendo a remissão dos seus pecados. Enquanto Deus computar os nossos pecados, ele não pode fazer outra coisa senão nos considerar com aversão, porquanto ele não pode contemplar nem favorecer os pecadores como se fossem amigos. Porém, isto pode parecer contradição do que se diz alhures, ou seja “fomos amados por ele antes da fundação do mundo” (Ef. 1.4), e sobretudo João 3.16, onde ele diz que o amor por nós foi a razão por que ele expiou os nossos pecados por intermédio de Cristo, porquanto a causa deve sempre preceder o efeito. Minha resposta é que fomos, de fato, amados desde antes da fundação do mundo, porém não fora de Cristo. Porém concordo em que o amor divino, no tocante a Deus não se prendia a tempo nem a sequência; porém, no tocante a nós o seu amor tem seu fundamento no sacrifício de Cristo. Pois quando pensamos em Deus, não pelo prisma de um mediador, só podemos concebê-lo como estando irado conosco; porém, quando um mediador se interpõe entre nós e ele, descobrimos que ele é pacificado em relação a nós. Mas já que é também necessário que saibamos que Cristo nos veio da fonte da livre misericórdia de Deus, a Escritura ensina explicitamente que a ira do Pai foi aplacada pelo sacrifício do Filho, e assim o Filho foi oferecido para a expiação dos pecados dos homens, porque Deus teve misericórdia deles, e fez deste sacrifício o penhor do recebimento deles em seu favor. Sintetizando: onde quer que haja pecado, também estará presente a ira divina, pois Deus não nos será propício enquanto não tiver apagado nossos pecados, não mais no-los atribuindo. Uma vez que a nossa consciência não pode apropriar-se desta benção sem a intervenção do sacrifício, Paulo está correto em fazer do mesmo o fundamento e a causa da reconciliação até o ponto em que estamos envolvidos.[27]

Deste modo, como observamos na análise de Calvino, se o fato de Deus estar em Cristo, não imputando aos homens as suas transgressões, tornou-se o meio da reconciliação, mais especificamente neste ato, o fundamento e a causa repousaram no próprio sacrifício do Redentor.

Assim, estabelece-se a idéia de que o fato de não imputar aos homens as suas transgressões torna-se o meio pelo qual a reconciliação se processa.

Mais adiante, Calvino observa que, de maneira mais subjetiva, a graça da reconciliação nos é aplicada por intermédio do evangelho.[28] Esta aplicação está intimamente relacionando com o que chamamos neste trabalho de o ministério da reconciliação.


9 OS OBJETOS DA RECONCILIAÇÃO.

DEUS

2 Coríntios 5:19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.

Ao comentar sobre este texto Calvino faz uma observação extremamente pertinente quando diz:

Alguns consideram esta expressão como significando simplesmente que “Deus estava, em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo”, porém, o significado aqui é mais amplo, mais rico do que isto, pois ele está dizendo, primeiramente que Deus estava em Cristo, para em seguida dizer que, por meio desta intervenção, ele estava reconciliando o mundo consigo mesmo. Esta referência é ao Pai (…) portanto, Paulo estava dizendo que o Pai estava no Filho ...[29]

Devemos lembrar que o pecado nos separou de Deus, agora o Pai, em Cristo, nos reconcilia consigo mesmo. Esta é uma ação da livre graça de Deus que, na obra de Cristo, remove a base da nossa alienação, tornando-se favorável ao pecador redimido. John Gill observa que esta reconciliação Deus fazia por meio de Cristo, ou seja, ele era o seu instrumento.[30]

PECADOR

2 Coríntios 5:18 Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação,

Calvino lembra que fora de Cristo Deus se acha insatisfeito com todos os homens.[31] E, mas adiante no seu comentário ele observa: “Por que Deus, em Cristo, se manifestou aos homens? Para que houvesse reconciliação, a fim de que a hostilidade chegasse ao fim e nós, como estranhos que éramos, fôssemos adotados como filhos.[32]

A CRIAÇÃO

Colossenses 1:20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

O uso do termo reconciliação aqui pode ter um sentido secundário aqui. Veja o que diz Stott:

Parece mais provável, portanto, que principados e potestades foram "reconciliados" no sentido do capítulo seguinte, a saber, que foram "desarmados" por Cristo, que "publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Co­lossenses 2:15). Admitimos que é um uso estranho da palavra "re­conciliados", mas, uma vez que Paulo também descreve essa reconciliação como "fazendo a paz" (1:20), talvez F. F. Bruce tenha razão ao dizer que o apóstolo está falando de uma "pacificação" de seres cósmicos "submetendo-se contra suas vontades a um poder que não podem resistir"[33]

Contudo, a posição de Hendriksen, nesse particular nos parece mais de acordo com o ensino geral das Escrituras. Antes de considerá-la devemos lembrar que os efeitos do pecado original se estenderam a toda a criação. Exatamente por isso encontramos nas Escrituras referências à deterioração da natureza em função do pecado, como o registro de Gênesis 3.18, que afirma que depois do pecado a terra passou a produzir cardos e abrolhos. Devemos lembrar que a salvação está mais particularmente relacionada com o mundo natural[34], sendo mais especificamente destinada aos homens

Por tudo isso, Hendriksen comenta:

O significado real de Cl. 1.20 é provavelmente o seguinte: O pecado arruinou o universo. Ele destruiu a harmonia entre as criaturas e também entre todas elas e seu Deus. No entanto, por meio do sangue da cruz (cf. Ef. 2.11-18), o pecado, em princípio, foi vencido. A demanda da lei foi cumprida, sua maldição destruída (Rm. 3.25; Gl. 3.13). Assim também a harmonia foi restaurada. A paz foi estabelecida. Por meio de Cristo e sua cruz o universo é reconduzido ou restaurado ao seu correto relacionamento com Deus no sentido de que, como justa recompensa por sua obediência, Cristo foi exaltado à destra do Pai, e, desta posição de autoridade e poder, governa todo universo para o bem da igreja e para a glória de Deus. Esta interpretação harmoniza a presente passagem com as outras a ela relacionadas, escritas durante este mesmo aprisionamento.[35]

Estas considerações nos fazem crer que a proposta de Cl. 1.20 é referi-se a efeitos no mundo natural, o que, como já dissemos, parece mais de acordo com a soteriologia e o ensino geral das Escrituras.

Certamente essa dimensão da reconciliação é mais subjetiva, pois só será contemplada, na sua plenitude, na segunda vinda de Cristo Jesus.


10 BÊNÇÃOS DA RECONCILIAÇÃO

PAZ

O texto de Romanos 5.1, ao falar sobre o efeito da justificação, aponta para a paz com Deus. Contudo, como justificação e reconciliação são termos paralelos, podemos dizer que uma das bênçãos da reconciliação é a paz.

Calvino, comentando este texto diz: Paz, portanto, significa serenidade de consciência, a qual tem sua origem na certeza de haver Deus nos reconciliado consigo mesmo.[36] Este aspecto da paz como uma das bênçãos da reconciliação ganha ainda mais expressão quando encontramos Anders Nygren afirmando que paz é um conceito que implica relacionamento e, no caso específico trata do relacionamento entre Deus e o homem. E este relacionamento é possível porque nós fomos reconciliados com Deus através da morte do seu Filho.[37]

ACESSO AO SENHOR

Outra benção anotada por Stott é o acesso a Deus, como significando uma comunhão ativa com Deus. Para tanto, o teólogo nos remete a Ef. 2.16-18 e 3.12. Ao comentar estas passagens ele diz:

"Acesso" a Deus (prosagoge) é outra bênção da reconciliação. Parece denotar a comunhão ativa com Deus, especialmente em oração, a qual seus filhos reconciliados desfrutam. Duas vezes Paulo equipara "acesso a Deus" a "paz com Deus", a primeira vez atribuindo-os à nossa justificação em vez de à nossa reconciliação (Romanos 5:1-2), e a segunda vez explicando o "acesso" como uma experiência trinitariana, na qual temos acesso ao Pai através do Filho mediante o Espírito (Efésios 2:17-18), e "pelo qual temos ousadia e acesso com confiança" (Efésios 3:12).[38]

Assim, em virtude da reconciliação temos uma comunhão com Deus. Uma comunhão que pode ser qualificada como imperdível. Uma benção maravilhosa da graça do Senhor.


CONCLUSÃO

Deus, na sua infinita misericórdia, tem providenciado todos os meios necessários para que desfrutemos do seu amor. Ao ser Ele o reconciliador, em Cristo Jesus, somos colocados diante da sua livre e superabundante graça.

Nada é mais doce, confortador e revigorante do que saber que em Cristo Jesus toda inimizade é removida, de tal forma que somos convidados a desfrutar de todas as bênçãos decorrentes de nossa relação filial com o Pai.

O desenvolvimento desta temática trará a igreja a dimensão preciosa da obra de Cristo em nosso favor e nos direcionará na adoração e no louvor que devemos prestar ao seu santo nome.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. http://www.teologia.org.br/estudos/confissao_westminster.pdf .acessado em 15 de agosto de 2009

A DOUTRINA DA PROPICIAÇÃO. http://www.ibcambui.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=198:a-doutrina-da-propicia&catid=51:estudos&Itemid=80. Acessado em 20 de setembro de 2009.

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BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. 790p.

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_________. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1

_________. Romanos. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Bernardo do Campo: Edições Paracletos, 1997. 524p.

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GILBERT, Floyd Lee. A Pessoa de Cristo no Tabernáculo. 3. ed. São José dos Campos: Editora Fiel da Missão Evangélica Literária, 1996. 170p.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Colossenses e Filemon. Tradução de Ézia Cunha de Mullins. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1993. 295p.

KITTEL, Gerhard and FRIEDRICH, Gerhard. Theological Dictionary of The New Testament – Abridged in one volume. Reprinted. Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Company, 1992, 1356p.

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NYGREN, Anders. Commentary on Romans. Translated by Carl C. Rasmussen. 5. ed. Sweden: Muhlenberg Press, 1949. 457p.

ROSS, Ivan Gilbert. Apostila de Teologia Sistemática xerografada. CPO/IBEL

SMEATON, George. Christ’s Doctrine of the Atonement. 1. ed. Banner of Truth edition – 1991. Great Britain: The Banner of Truth Trust, 1991. 502p.

STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. 359p.


[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 376

[2] KITTEL, Gerhard and FRIEDRICH, Gerhard. Theological Dictionary of The New Testament – Abridged in one volume. Reprinted. Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Company, 1992, p. 40

[3] Idem, p. 41

[4] CALVINO, João. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1 p. 28

[5] A Doutrina da Propiciação - http://www.ibcambui.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=198:a-doutrina-da-propicia&catid=51:estudos&Itemid=80. Acessado em 20 de setembro de 2009.

[6] Para maiores detalhes veja os textos em Ex. 25.17-22; Lv. 16.5-19.

[7] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software– verbete “propiciação”.

[8] BAILLIE, D.M. God Was In Christ - An Essay on Incarnation and Atonement. New York: Charles Scribner’s Sons, 1948. p. 174, 175.

[9] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 89

[10] MURRAY, John. Comentário Bíblico Fiel - Romanos. Editora Fiel. p. 198

[11] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. p. 88

[12] Deve se notar a relação intimamente necessária entre a doutrina da expiação e da justificação com a doutrina da reconciliação. Calvino diz: “Enquanto Deus computar os nossos pecados, Ele não pode fazer outra coisa senão nos considerar com aversão”, contudo, ele ainda diz “o amor por nós foi a razão por que ele (Deus-Pai), expiou os nossos pecados por intermédio de Cristo.” Comentário 2ª Coríntios, p. 122.

[13] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 122

[14] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. p. 286

[15] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 85

[16] ROSS, Ivan Gilbert. Apostila de Teologia Sistemática xerografada. CPO/IBEL

[17] A Confissão de Fé de Westminster - http://www.teologia.org.br/estudos/confissao_westminster.pdf acessado em 15 de agosto de 2009

[18] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 87

[19] CALVINO, João. Institución de la Religión Cristiana. 3 ed. Paises Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986. v.1 pág. 5

[20] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 88

[21] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software – Strong – verbete diakonian.

[22] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[23] Idem, p.120

[24] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 222

[25] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 87

[26] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[27] Idem, p. 122

[28] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 120

[29] CALVINO, João. 2 Coríntios. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Paulo: Edições Paracletos, 1995. p. 121

[30] BÍBLIA ONLINE 2.0. Sociedade Bíblica do Brasil – Software – Comentário 2ª Co. 5.19, GILL, John

[31] CALVINO, João. 2 Coríntios. p. 121

[32] Idem, p. 121

[33] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 86

[34] Em Romanos 8.19-21 Paula fala da expectativa da criação em ser redimida, o que nos leva a considerar a possibilidade de uma relação entre a doutrina da reconciliação e a ordem natural da criação. Observações pessoais.

[35] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Colossenses e Filemon. Tradução de Ézia Cunha de Mullins. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1993. p. 106

[36] CALVINO, João. Romanos. Tradução de Valter Graciano Martins. 1. ed. São Bernardo do Campo: Edições Paracletos, 1997.comentário aos Romanos, p. 176

[37] NYGREN, Anders. Commentary on Romans. Translated by Carl C. Rasmussen. 5. ed. Sweden: Muhlenberg Press, 1949. p. 192

[38] STOTT, John R. W. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 1996. p. 85

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

UM SONHO OLÍMPICO




UM SONHO OLÍMPICO
“Todo atleta em tudo se domina;
aqueles, para alcançar uma coroa corruptível;
nós, porém, a incorruptível.”
1 Coríntios 9:25
Pr. Cleverson Gilvan



A emoção tomou conta de milhões de brasileiros. Todas as atenções estavam voltadas para o resultado que viria de Copenhagen. Essa seria a oportunidade da primeira olimpíada realizada na América do Sul. De repente as atenções se voltam para o presidente do Comitê Olímpico, o hino olímpico soa, mas os corações esperam ansiosamente a abertura do envelope que traz o nome da cidade sede das olimpíadas de 2016. O envelope é aberto e.... Rio de Janeiro. Esta será a sede das olimpíadas.
Até chegar nesse momento muitos trabalharam duro e, certamente, até o momento da realização das olimpíadas muito trabalho será realizado. Mas esse sonho será, como já é desde já, a alegria de um momento, apenas de um momento.
O texto bíblico supracitado revela a sublimidade da esperança cristã. Enquanto o esforço do atleta traz um recompensa “corruptível”, nós buscamos uma coroa incorruptível e imarcescível.
Contudo, devemos observar que a analogia proposta pelo apóstolo Paulo nos permite algumas aplicações, limitadas, naturalmente, pelo ensino geral das Escrituras:
I) Como atletas de uma olimpíada celestial devemos nos esforçar para cumprir nossa missão.
É sabido que todo atleta se prepara cuidadosamente para competir. Como cristãos devemos investir tempo em oração, consagração e crescimento espiritual. Cristãos bem preparados podem impactar o mundo.
II) Sob a sugestão do “espírito olímpico” que reúne povos e culturas tão diferentes sob um mesmo lema, devemos desenvolver a comunhão fraterna, a despeito das nossas diferenças.
É inspiradora a comunhão proporcionada pelos jogos, mas é arrebatadora a comunhão produzida pelo Espírito Santo do Senhor na vida da sua igreja. Se com algo passageiro muitos se emocionam, com algo sobrenatural muitos se transformam.
III) Contudo, ao contrário da premiação olímpica, devemos lembrar que os vencedores não são necessariamente os primeiros, mas os que recebem pela graça a coroa e vivem em fidelidade diante do Senhor.
Nos jogos apenas os primeiros recebem o prêmio, mas diante do Senhor todos os que são fiéis e recebem o dom da salvação.
Além disso, não precisamos esperar até 2016 para desfrutar da alegria de participar de uma olimpíada. A partir do momento que vivemos com Cristo já desfrutamos da alegria de sermos mais que vencedores.
Pense nisto!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

CRIAÇÃO OU EVOLUÇÃO

Aqui temos mais uma palestra interessante sobre o tema. Ela é do Prof. Adauto Lourenço. Já conhecido por muitos por sua formação científica, mas também pelo seu compromisso cristão. Vale a pena conferir!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Construção da Congregação Filadélfia - Patrocínio



Continuamos nosso projeto de construção da congregação Filadélfia. Depois de um tempo estamos retomando nossa construção.
Se você quer fazer parte desse projeto entre em contato conosco.

cleversongilvan@gmail.com
34-9168-9600

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DEPRESSÃO

Este é um problema extremamente comum. Talvez você o esteja enfrentando agora ou quem sabe alguém da sua família.
Por isso estou disponibilizando uma palestra que baixei do site da fiel sobre o assunto. Vale a pena conferir.
Vale a pena conferir o que Jay Adams diz sobre o assunto.

Deus te abençoe,

segunda-feira, 22 de junho de 2009

SCHLEIERMACHER




INTRODUÇÃO


Uma das grandes necessidades do homem é conhecer a Deus. De certo modo, isto não é apenas uma necessidade, mas também uma ordem de Deus para o homem. O profeta Jeremias escreveu: Jeremias 9.24 “mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.”. Contudo, nesta busca pelo conhecimento de Deus e pelas realidades eternas, nem todos tem sido iluminados pelo Espírito Santo e, por conseguinte, suas elucubrações não passam de vãs filosofias.
No presente trabalho apresentaremos, de maneira sumária, o pensamento de Friedrich Schleiermacher, considerado por muitos como o Pai da Teologia Liberal e por outros como o Teólogo do Sentimento.
Na primeira parte do trabalho abordaremos os aspectos biográficos focalizando algumas influências determinantes nos rumos do pensamento de Schleiermacher e nas páginas subsequentes consideraremos alguns temas chaves desenvolvidos por ele.
Por último, de forma objetiva, procuraremos mostrar a incompatibilidade do esquema de pensamento de Schleiermacher com a doutrina reformada.
Desta maneira, os aspectos considerados no desenvolvimento desta pesquisa servirão como material para o desenvolvimento do conhecimento do pensamento de Schleiermacher.
No entanto, o trabalho não tratará com exaustão todas as nuances do pensamento liberal desenvolvido por ele, o que naturalmente provoca o ensejo de uma nova pesquisa que forneça outros subsídios para uma apologética reformada biblicamente orientada. Além disso, deve-se observar que o presente trabalho não tem caráter apologético, mas serve como instrumento de apresentação do pensamento de Schleiermacher.




1 A VIDA DE SCHLEIERMACHER


Certamente, um dos nomes mais importantes da chamada “teologia liberal” é o de Schleiermacher. Naturalmente, isto se deveu ao fato de suas idéias revolucionárias, que fizeram dele, segundo vários estudiosos, o pai da teologia liberal.
Para começarmos a entender o seu pensamento é indispensável uma análise, ainda que breve, dos principais elementos que marcaram a sua vida. Certamente, todos os aspectos mencionados na sua biografia cooperaram decisivamente para que ele se tornasse o teólogo que foi.
Sendo assim, consideraremos neste tópico alguns aspectos relacionados à sua biografia.
Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu num berço cristão reformado, em Breslau, a 21 de setembro de 1768.
Seu pai, Gotllieb Schleiermacher, era um ministro reformado de uma capela na Prússia. Certamente, tanto a Prússia, quanto a teologia reformada exerceram certa influência na formação primeira de Schleiermacher.
Seus primeiros anos de vida transcorreram debaixo da influência da doutrina calvinista. Contudo, ainda muito jovem ele se viu envolvido com o movimento pietista e, mais particularmente com os Moravianos, cujo nome mais proeminente é o do seu líder Nicolau Von Zinzendorf.
Essas influências petistas o levaram cedo a se envolver com a religião do coração, menos ligada aos sentimentos do coração e penitência do que à alegria da salvação, o que aconteceu a partir do seu ingresso no seminário de Barby, um seminário de orientação Moraviana, quando ele tinha apenas 17 anos.
Considerado o pai da teologia liberal, cedo se destacou como um jovem talentoso, o que lhe abriu inúmeras portas.
Contudo, uma das principais influências de Schleiermacher foram os escritos de Kant, especialmente os Prolegomenos de Uma Futura Metafísica (1783), o que o aproximou do racionalismo-iluminista. Sob a orientação de August Eberhard, Schleiermacher se entregou profundamente aos estudos de Kant.
Estas influências começaram a florescer logo, o que fica claro no trecho de uma de suas correspondências para o seu pai, onde ele diz:

Não posso considerar que alguém que se considerava apenas a si mesmo como o Filho do Homem, possa ser o Deus verdadeiro e eterno. Não posso acreditar que sua morte constituía uma reconciliação substitutiva, porque ele nunca se lhe referiu assim, e porque não posso acreditar que ela fosse necessária...

Particularmente, no que concerne a influência de Kant, Schleiermacher se prendeu ao fato de que também cria que a competência da razão pura encontra-se dentro dos limites da experiência humana.
Aos 28 anos ele abandona o racionalismo e começa a se abrir para influências advindas da sua admiração pelas artes e pela ciência, o que aprofundou o seu antropocentrismo. E aos 31 anos ele publicou sua primeira obra, intitulada “Acerca da religião”.
Contudo, para entendermos Schleiermacher também devemos considerar o momento histórico onde ele viveu. Ele vivenciou os estragos que o racionalismo provocou no cristianismo e sua reação foi considerada por muitos como uma espécie de salvação do cristianismo. No entanto, sua proposição totalmente centralizada no homem e nos sentimentos subjetivou a revelação e praticamente anulou a idéia de Deus. Deste modo, aquilo que se pensou ser o remédio para o caos do cristianismo acabou tornando-se um dos seus maiores venenos.




2 RELIGIÃO COMO SENTIMENTO E RELACIONAMENTO


Um dos aspectos mais importantes do pensamento de Schleiermacher é o seu conceito sobre religião. Durante este tópico procuraremos demonstrar a maneira como ele construiu tal conceito.
Schleiermacher acreditava que a verdadeira religião era sentimento e experiência com o infinito, o que nos leva a entender que para a ele a religião era, em si, a prova do infinito.
Citando Schleiermacher, Renato Salles procura mostrar como ele entendia a religião:

Ele explica: a religião não aspira a conhecer e explicar o universo em sua natureza, como a metafísica, nem aspira a continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo através da liberdade e da vontade divina do homem, como a moral. A sua essência não está no pensamento, nem na ação, mas sim na intuição e no sentimento. Ela aspira intuir o Universo [...]


Certamente, este seu conceito sobre a religião está conectado ao fato dele ter uma visão intensamente relacional da humanidade. O que, naturalmente, está diretamente ligado à sua visão da religião como um sentimento. Deste modo, quando ele vislumbra as emoções do ser humano, ele não as vê simplesmente como um filtro, mas como um testemunho interno e como respostas para realidades.
Contudo, essa relação com o infinito não são apenas formulações racionais e é nesse aspecto que vislumbramos sua percepção do aspecto relacional da humanidade. Deste modo, todo sentimento de dependência deriva da influência do outro sobre o que sente, conforme a sua natureza.
Então, Salles observa:

Portanto é a ação do infinito sobre o homem que dá origem a intuição, e o sentimento é a resposta do sujeito. Este sentimento que reage à influência do infinito no homem é sentimento de total dependência deste ao Absoluto. Portanto a religião “não é nem uma crença dogmática, nem um código moral, senão um sentimento, e mais precisamente um sentimento de dependência[...].”. Desta maneira a religião seria um conjunto dos conscientes de sua dependência do Absoluto, Absoluto este que é imanente ao mundo. Por isso ele diz: “Amar o espírito do mundo e contemplar gozosamente sua atividade, tal é a meta de nossa religião.”. Toda construção dogmática é posterior, fruto deste sentimento de dependência. A Revelação não seria um conjunto de verdades dado por Deus a qual nós devemos assentir, mas algo subjetivo, que nasce de nossa consciência de dependência do divino, expressão de um infinito que está para além de nossa individualidade e que seria inefável em linguagem racional.


Ainda dentro da mesma perspectiva, Joacir Soares diz:


Para Schleiermacher, a religião é a relação do homem com a Totalidade (com o Todo). Ora, a Totalidade e o Todo se relacionam também com a metafísica e a moral, como ressalta Giovanni Reale. Mas isso, segundo o nosso filósofo-teólogo, foi fonte de graves equívocos, que fizeram penetrar indevidamente na religião grande quantidade de idéias filosóficas e morais. Mas a metafísica diz respeito ao pensamento que se vincula à Totalidade, ao passo que a ética diz respeito ao agir em relação à Totalidade (as simples ações vistas como "deveres" deduzidos da natureza do homem em relação com o universo). Mas a religião não é pensamento nem atividade moral. Então, indaga Reale, o que é ela? É intuição e sentimento do infinito e, como tal, possui fisionomia bem precisa, que se distingue tanto da metafísica como da ética, responde.



Assim, podemos entender que para Schleiermacher a essência da religião não consiste no exercício do intelecto, mas na intuição e no sentimento. Para ele a religião é o sentido e o gosto pelo infinito. Uma atitude que se caracteriza pela sua passividade infantil diante do mistério inefável do universo.
Dentro dessa percepção, Schleiermacher vê o racionalismo e a ortodoxia como responsáveis pela intelectualização e pela rígida codificação do pensamento religioso, enquanto para ele a religião situava-se no domínio dos sentimentos.
Sendo assim, ele crê que a religião é aquela instância capaz de dar a verdadeira universalidade ao espírito humano, facilitando uma visão integral da realidade diante da unilateralidade das atitudes intelectualistas e moralizantes. Por isso ele crê que a religião surge da relação do finito com o infinito, pois implica reconhecer o limitado como uma expressão do infinito. Certamente, esse conceito de Schleiermacher perverte o conceito de uma revelação proposicional divina. Afinal, no pensamento do teólogo alemão, o indivíduo torna-se o ponto de partida do conhecimento, o que caracteriza um processo empírico de elaboração do conceito de religião e da própria idéia do outro.
Ademais, a sua proposição se desdobra em consequências mais sérias, pois o finito e o infinito não podem ser concebidos como realidades separadas. Deste modo, ao enfatizar a imanência do infinito ele chega a conclusão de que não se pode buscar o infinito fora do finito, o que acaba sendo uma espécie de negação da existência autônoma de Deus.
Assim, Schleiermacher desenvolve o seu pensamento ensinando que a essência da religião deve ser encontrada não no conhecimento mas na experiência – num sentimento de dependência absoluta, o que ficará mais claro quando falarmos sobre o seu conceito sobre Deus.
Portanto, para ele a religião é a consciência da divindade tal como se encontra em nós mesmos e no mundo. O que significa que na sua concepção a religião é algo puramente subjetivo.





3 O SENTIMENTO DE DEPENDÊNCIA ABSOLUTA


Antes de pensarmos propriamente no que significa para Schleiermacher esse “sentimento de dependência absoluta”, devemos lembrar que a ênfase dele na religião como sentido deve-se tanto a influência da educação moraviana, com sua ênfase na vida piedosa e pouca fundamentação dogmática, quanto no movimento Romântico e sua ênfase exacerbada na experiência como fator determinante da verdade.
Sendo assim, um dado importante que deve ser anotado é que para ele a religião não deveria competir com a ciência natural, pois a religião jamais ganharia com qualquer competição, antes ele entendia que todas as coisas concorrem para o conhecimento do infinito, no qual todas as coisas subsistem. Outrossim, para ele nenhum conhecimento pode florescer fora de uma consciência piedosa, o que nos leva a entender que para o teólogo alemão a religião do sentido é parte da existência do homem.
Esse sentimento, contudo, é o modo de apreensão da realidade na religião, que deve acontecer como fruto de uma consciência piedosa, o que é definido no pensamento de Schleiermacher como o “sentimento de dependência absoluta ”.
Esse sentimento de dependência absoluta é o mundo da experiência normal. Um mundo no qual nós estamos inseridos e sentimos. Neste mundo nos sentimos dependentes de muitas coisas e esse sentimento de dependência, que se relaciona com a consciência religiosa equivaleria ao próprio Deus, o que acaba tornando-se uma espécie de negação da existência de Deus, e mais objetivamente da possibilidade de uma revelação proposicional. Essa afirmação está claramente exposta na sua principal obra, “The Christian Faith”, onde ele diz:

O elemento comum em todas as diversas expressões da piedade, pelo qual esta coisa se distingue de todos os outros sentimentos, ou, em outras palavras, a essência da autoconsciência da piedade é esta: a consciência de ser absolutamente dependente, ou, o que é a mesma coisa, do ser em relação à Deus.


Mais adiante, na mesma obra, Schleiermacher ainda afirma:

Como observado na identificação dessa dependência absoluta com ‘relação a Deus’ em nossa proposição: Isso deve ser entendido no sentido de que a nossa existência receptiva e ativa, implícita nessa autoconsciência, deve ser designada pela palavra ‘Deus’... .


Outrossim, devemos lembrar que esse sentimento de dependência absoluta se dá a partir da relação com o outro.




4 TEOLOGIA COMO REFLEXÃO


Outro aspecto importante do pensamento de Schleiermacher diz respeito a sua visão da Teologia como reflexão. Em várias obras e de maneira recorrente nós o encontramos tratando desta matéria.
Ele crê que a teologia é uma ciência positiva onde partes diferentes se unem num todo aderente, formando um modo particular de fé. Desse modo a teologia é um maneira particular de ser consciente de Deus. Portanto, na compreensão de Schleiermacher a teologia pode diferir de acordo com cada modo particular de fé.
Neste aspecto, em virtude de sua rejeição a um revelação proposicional, Schleiermacher crê que a teologia é fruto de uma cooperação mútua, enfatizando a experiência do ser em detrimento do caráter revelacional das Escrituras.
Esse conceito ganha ainda mais corpo quando percebemos que na sua concepção as doutrinas cristãs são explicações dos sentimentos ou afeições da religião cristã. Clements observa que para ele as proposições dogmáticas da religião são tipos didaticamente descritivos, como observado no texto do próprio teólogo alemão: “A expressão poética está sempre baseada originalmente sobre o momento de exaltação, o qual vem puramente de dentro – um momento de entusiasmo ou inspiração.” . Assim, ele se prepara para argumentar que as afirmações que Cristo faz sobre si como Redentor, que parecem ser proposições dogmáticas, são na verdade resultado da perfeita apreensão e apropriação dessa experiência religiosa, na pessoa de Cristo.
Então, no intuito de argumentar em favor de uma teologia reflexiva, ele ensina que todas as proposições do sistema de doutrina cristão, são descrições da situação humana. Assim, uma proposição dogmática de um sistema de doutrina, à parte de uma convicção pessoal, não é possível, segundo a concepção de Schleiermacher. Perceba, que mais uma vez essa linha de raciocínio vai de encontro ao conceito de uma revelação proposicional.





5 DEUS NO CONCEITO DE SCHLEIERMACHER


Certamente, o seu conceito sobre Deus não poderia ser apropriado, em função do que já foi exposto nas considerações anteriores.
Schleiermacher crê que a Divindade, em sua acepção habitual, não pode revelar ou dizer nada. Esta afirmação importante ganha contornos mais nítidos quando vislumbramos o seu conceito sobre Deus. Ele entende que Deus é incognoscível para a mente humana. Essa sua concepção o leva a supervalorizar a experiência em detrimento da revelação proposicional e objetiva das Escrituras. Para encontrar Deus uma pessoa deve olhar para dentro de si e experimentá-lo.
Deste modo devemos lembrar que para Schleiermacher o caminho para o conhecimento da divindade era o sentimento de total dependência do outro.
Em sua obra Solilóquios ele chega a declarar: “tantas vezes quanto volto minha atenção para dentro do mais intimo do meu ser, estou no campo da eternidade”. Para ele, esse sentimento íntimo é o lugar adequado para o labor teológico, e isto era o estar relacionando-se com Deus, onde o eu aprende com o eu divino. Deste modo ele tornava Deus uma realidade supra-pessoal. Assim, Cristo não poderia ser Deus, mas alguém em quem brilhava a dependência absoluta da divindade. O que se constitui num grave erro cristológico.
Ainda sobre Jesus, Clements observa que para Schleiermacher Jesus é apenas um homem que tem consciência de Deus . Para ele, Cristo é um homem como nós somos. Deste modo, ele entendia que a obra redentora de Cristo consiste no fato de nos trazer uma consciência sobre Deus. Sobre isso, Clements, interpretando o pensamento do teólogo liberal, diz: “A obra redentora de Cristo (...) consiste em revelar a consciência de Deus ao fiel.” . Contudo, devemos observar que essa consciência de Deus não significa que ele seja um ser independente e pessoal, mas a própria idéia do “outro” como concebida na experiência do indivíduo.
Portanto, há que se observar o fato de que Schleiermacher entendia que Deus, como ensinado nas Escrituras, não pode dizer nada. Portanto, a idéia de Deus se confunde com a própria experiência da religião. Ele não crê num Deus transcendente, mas numa divindade imanente que é a própria experiência da religião.





6 A REVELAÇÃO PROPOSICIONAL E SUA INCOMPATIBILIDADE COM O PENSAMENTO DE SCHLEIERMACHER


É verdade que as Escrituras não se preocupam em apresentar uma apologia sistematizada sobre a existência de Deus. Aliás, podemos afirmar que a existência de Deus é a grande pressuposição da teologia.
Contudo, vale lembrar as palavras das Escrituras que nos ensinam: Hebreus 11:6 “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.”. Certamente, o texto da epístola aos Hebreus nos mostra que a existência de Deus é essencialmente uma matéria de fé. Não obstante, crer em Deus não é contrário à constituição humana, por isso, a teologia reformada, e mais especificamente Calvino, reconheceram que Deus plantou no homem uma semente da religião e um senso de divindade. A partir daí, crer em Deus se torna algo completamente natural à constituição do homem.
A partir daí, entendemos que é propósito de Deus revelar-se ao homem e Ele o faz através de atos e palavras . Essa revelação se faz necessária em função do estado de pecado a que o homem se sujeitou . O homem não poderia conhecer a Deus se este não se revelasse a ele, e mesmo dentro dessa divina revelação, o homem só pode conhecer a Deus até onde ele deixar-se conhecer.
Assim, Deus não é a revelação, não podendo ser confundido com ela ou com qualquer sentimento de dependência do outro que exista no ser humano. Contudo, Deus é o sujeito da revelação, que se faz conhecido ao homem. Ademais, sem essa revelação o homem jamais poderia conhecer a Deus. Contudo, isso não significa que a revelação não versa sobre Deus.
Essa revelação que Deus faz de si mesmo tem a necessidade de ser proposicional, ou seja, escrita em palavras.
Além disso, a impessoalidade do sentimento de dependência absoluta e das expressões da religiosidade defendida por Schleiermacher entram em conflito com a idéia da existência de um Deus pessoal. Os atributos de Deus provam a sua pessoalidade e contrariam a proposição do teólogo alemão. Cremos num Deus pessoal que se revela de maneira objetiva.
Sobre isso, Louis Berkhof ainda afirma que: “Todo o nosso conhecimento de Deus é derivado da sua Auto-revelação na natureza e na Escritura” .
Portanto, o pensamento de Schleiermacher é totalmente oposto a idéia de uma revelação proposicional.




CONCLUSÃO


Não se pode esconder a frustração por perceber que alguém formado aos pés da doutrina reformada se desvie tanto de Deus. A vida de Schleiermacher serve para nos mostrar, portanto, o quão carentes nós somos da iluminação do Espírito Santo para compreendermos o que o Senhor tem nos falado.
Ademais, devemos nos lembrar que é propósito de Deus tornar-se conhecido do homem. Esta realidade é confirmada pela revelação geral e pela revelação especial.
Contudo, não podemos afirmar que a doutrina reformada, biblicamente orientada, sofre a mesma aridez que impulsionou Schleiermacher no início da sua jornada. Embora ela não seja superficial como aquela que caracterizou o movimento pietista, ela também toca o homem em suas experiências mais íntimas, mas o faz como resultado de uma profunda e fundamentada transformação.
O estudo do pensamento de Schleiermacher serve para despertar na igreja contemporânea o senso de responsabilidade quanto ao aprendizado das Escrituras como palavra autoritativa de Deus. O abandono ou a negligência desta questão poderá nos afastar seriamente da verdade revelada pelo Senhor.
Portanto, a história deixa o seu exemplo para que a Igreja tenha o seu caminho firmado no Senhor que se revela, de maneira proposicional, nas Sagradas Escrituras.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. 790p.

CAMPOS, Heber C. Teologia da Revelação. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2009. 204 p. (Apostila xerografada).

D’ABADIA, Joacir S. Schleiermacher: A Interpretação da Religião. Disponível em < http://www.webartigos.com/articles/17314/1/schleiermacher-a-interpretacao-da-religiao/pagina1.html > Acesso em: 27 mai. 2009.

RUEDELL, Aloísio. Da Representação Ao Sentido: Através De Schleiermacher À Hermenêutica Atual. Porto Alegre: Edipucrs, 2000. 226 p.

SALLES, Renato. Schleiermacher: Pai da Teologia Liberal Protestante. Disponível em < http://renatosalles.blogspot.com/2009/01/schleiermacher-pai-da-teologia-liberal.html >. Acesso em: 25 mai. 2009.

SCHLEIERMACHER, Friedrich. Brief outline on the study of theology – Philosophical, Historical, Pratical. Translated by Terrence N. Tice. Richmond: John Knox Press, 1966. 132 p.

______. The Christian Faith. Edited By H. R. Mackintosh and J. S. Stewart. Edinburgh: T & T Clark, 1994. 760 p.

______. Friedrich Schleiermacher : Pioneer of Modern Theology. Ed. Keith Clements. Minneapolis: Fortress, 1991. 281 p.

KUNG, Hans. Os Grandes Pensadores Do Cristianismo. Lisboa: Presença, 1999. 219 p.

Quem Sou Eu - Atividade para crianças

 Claro! Aqui estão 5 perguntas do tipo “Quem sou eu?” com personagens bíblicos , formuladas de modo adequado para crianças de 10 a 12 anos ...