quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Construção da Congregação Filadélfia - Patrocínio



Continuamos nosso projeto de construção da congregação Filadélfia. Depois de um tempo estamos retomando nossa construção.
Se você quer fazer parte desse projeto entre em contato conosco.

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

DEPRESSÃO

Este é um problema extremamente comum. Talvez você o esteja enfrentando agora ou quem sabe alguém da sua família.
Por isso estou disponibilizando uma palestra que baixei do site da fiel sobre o assunto. Vale a pena conferir.
Vale a pena conferir o que Jay Adams diz sobre o assunto.

Deus te abençoe,

segunda-feira, 22 de junho de 2009

SCHLEIERMACHER




INTRODUÇÃO


Uma das grandes necessidades do homem é conhecer a Deus. De certo modo, isto não é apenas uma necessidade, mas também uma ordem de Deus para o homem. O profeta Jeremias escreveu: Jeremias 9.24 “mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.”. Contudo, nesta busca pelo conhecimento de Deus e pelas realidades eternas, nem todos tem sido iluminados pelo Espírito Santo e, por conseguinte, suas elucubrações não passam de vãs filosofias.
No presente trabalho apresentaremos, de maneira sumária, o pensamento de Friedrich Schleiermacher, considerado por muitos como o Pai da Teologia Liberal e por outros como o Teólogo do Sentimento.
Na primeira parte do trabalho abordaremos os aspectos biográficos focalizando algumas influências determinantes nos rumos do pensamento de Schleiermacher e nas páginas subsequentes consideraremos alguns temas chaves desenvolvidos por ele.
Por último, de forma objetiva, procuraremos mostrar a incompatibilidade do esquema de pensamento de Schleiermacher com a doutrina reformada.
Desta maneira, os aspectos considerados no desenvolvimento desta pesquisa servirão como material para o desenvolvimento do conhecimento do pensamento de Schleiermacher.
No entanto, o trabalho não tratará com exaustão todas as nuances do pensamento liberal desenvolvido por ele, o que naturalmente provoca o ensejo de uma nova pesquisa que forneça outros subsídios para uma apologética reformada biblicamente orientada. Além disso, deve-se observar que o presente trabalho não tem caráter apologético, mas serve como instrumento de apresentação do pensamento de Schleiermacher.




1 A VIDA DE SCHLEIERMACHER


Certamente, um dos nomes mais importantes da chamada “teologia liberal” é o de Schleiermacher. Naturalmente, isto se deveu ao fato de suas idéias revolucionárias, que fizeram dele, segundo vários estudiosos, o pai da teologia liberal.
Para começarmos a entender o seu pensamento é indispensável uma análise, ainda que breve, dos principais elementos que marcaram a sua vida. Certamente, todos os aspectos mencionados na sua biografia cooperaram decisivamente para que ele se tornasse o teólogo que foi.
Sendo assim, consideraremos neste tópico alguns aspectos relacionados à sua biografia.
Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher nasceu num berço cristão reformado, em Breslau, a 21 de setembro de 1768.
Seu pai, Gotllieb Schleiermacher, era um ministro reformado de uma capela na Prússia. Certamente, tanto a Prússia, quanto a teologia reformada exerceram certa influência na formação primeira de Schleiermacher.
Seus primeiros anos de vida transcorreram debaixo da influência da doutrina calvinista. Contudo, ainda muito jovem ele se viu envolvido com o movimento pietista e, mais particularmente com os Moravianos, cujo nome mais proeminente é o do seu líder Nicolau Von Zinzendorf.
Essas influências petistas o levaram cedo a se envolver com a religião do coração, menos ligada aos sentimentos do coração e penitência do que à alegria da salvação, o que aconteceu a partir do seu ingresso no seminário de Barby, um seminário de orientação Moraviana, quando ele tinha apenas 17 anos.
Considerado o pai da teologia liberal, cedo se destacou como um jovem talentoso, o que lhe abriu inúmeras portas.
Contudo, uma das principais influências de Schleiermacher foram os escritos de Kant, especialmente os Prolegomenos de Uma Futura Metafísica (1783), o que o aproximou do racionalismo-iluminista. Sob a orientação de August Eberhard, Schleiermacher se entregou profundamente aos estudos de Kant.
Estas influências começaram a florescer logo, o que fica claro no trecho de uma de suas correspondências para o seu pai, onde ele diz:

Não posso considerar que alguém que se considerava apenas a si mesmo como o Filho do Homem, possa ser o Deus verdadeiro e eterno. Não posso acreditar que sua morte constituía uma reconciliação substitutiva, porque ele nunca se lhe referiu assim, e porque não posso acreditar que ela fosse necessária...

Particularmente, no que concerne a influência de Kant, Schleiermacher se prendeu ao fato de que também cria que a competência da razão pura encontra-se dentro dos limites da experiência humana.
Aos 28 anos ele abandona o racionalismo e começa a se abrir para influências advindas da sua admiração pelas artes e pela ciência, o que aprofundou o seu antropocentrismo. E aos 31 anos ele publicou sua primeira obra, intitulada “Acerca da religião”.
Contudo, para entendermos Schleiermacher também devemos considerar o momento histórico onde ele viveu. Ele vivenciou os estragos que o racionalismo provocou no cristianismo e sua reação foi considerada por muitos como uma espécie de salvação do cristianismo. No entanto, sua proposição totalmente centralizada no homem e nos sentimentos subjetivou a revelação e praticamente anulou a idéia de Deus. Deste modo, aquilo que se pensou ser o remédio para o caos do cristianismo acabou tornando-se um dos seus maiores venenos.




2 RELIGIÃO COMO SENTIMENTO E RELACIONAMENTO


Um dos aspectos mais importantes do pensamento de Schleiermacher é o seu conceito sobre religião. Durante este tópico procuraremos demonstrar a maneira como ele construiu tal conceito.
Schleiermacher acreditava que a verdadeira religião era sentimento e experiência com o infinito, o que nos leva a entender que para a ele a religião era, em si, a prova do infinito.
Citando Schleiermacher, Renato Salles procura mostrar como ele entendia a religião:

Ele explica: a religião não aspira a conhecer e explicar o universo em sua natureza, como a metafísica, nem aspira a continuar o seu desenvolvimento e aperfeiçoá-lo através da liberdade e da vontade divina do homem, como a moral. A sua essência não está no pensamento, nem na ação, mas sim na intuição e no sentimento. Ela aspira intuir o Universo [...]


Certamente, este seu conceito sobre a religião está conectado ao fato dele ter uma visão intensamente relacional da humanidade. O que, naturalmente, está diretamente ligado à sua visão da religião como um sentimento. Deste modo, quando ele vislumbra as emoções do ser humano, ele não as vê simplesmente como um filtro, mas como um testemunho interno e como respostas para realidades.
Contudo, essa relação com o infinito não são apenas formulações racionais e é nesse aspecto que vislumbramos sua percepção do aspecto relacional da humanidade. Deste modo, todo sentimento de dependência deriva da influência do outro sobre o que sente, conforme a sua natureza.
Então, Salles observa:

Portanto é a ação do infinito sobre o homem que dá origem a intuição, e o sentimento é a resposta do sujeito. Este sentimento que reage à influência do infinito no homem é sentimento de total dependência deste ao Absoluto. Portanto a religião “não é nem uma crença dogmática, nem um código moral, senão um sentimento, e mais precisamente um sentimento de dependência[...].”. Desta maneira a religião seria um conjunto dos conscientes de sua dependência do Absoluto, Absoluto este que é imanente ao mundo. Por isso ele diz: “Amar o espírito do mundo e contemplar gozosamente sua atividade, tal é a meta de nossa religião.”. Toda construção dogmática é posterior, fruto deste sentimento de dependência. A Revelação não seria um conjunto de verdades dado por Deus a qual nós devemos assentir, mas algo subjetivo, que nasce de nossa consciência de dependência do divino, expressão de um infinito que está para além de nossa individualidade e que seria inefável em linguagem racional.


Ainda dentro da mesma perspectiva, Joacir Soares diz:


Para Schleiermacher, a religião é a relação do homem com a Totalidade (com o Todo). Ora, a Totalidade e o Todo se relacionam também com a metafísica e a moral, como ressalta Giovanni Reale. Mas isso, segundo o nosso filósofo-teólogo, foi fonte de graves equívocos, que fizeram penetrar indevidamente na religião grande quantidade de idéias filosóficas e morais. Mas a metafísica diz respeito ao pensamento que se vincula à Totalidade, ao passo que a ética diz respeito ao agir em relação à Totalidade (as simples ações vistas como "deveres" deduzidos da natureza do homem em relação com o universo). Mas a religião não é pensamento nem atividade moral. Então, indaga Reale, o que é ela? É intuição e sentimento do infinito e, como tal, possui fisionomia bem precisa, que se distingue tanto da metafísica como da ética, responde.



Assim, podemos entender que para Schleiermacher a essência da religião não consiste no exercício do intelecto, mas na intuição e no sentimento. Para ele a religião é o sentido e o gosto pelo infinito. Uma atitude que se caracteriza pela sua passividade infantil diante do mistério inefável do universo.
Dentro dessa percepção, Schleiermacher vê o racionalismo e a ortodoxia como responsáveis pela intelectualização e pela rígida codificação do pensamento religioso, enquanto para ele a religião situava-se no domínio dos sentimentos.
Sendo assim, ele crê que a religião é aquela instância capaz de dar a verdadeira universalidade ao espírito humano, facilitando uma visão integral da realidade diante da unilateralidade das atitudes intelectualistas e moralizantes. Por isso ele crê que a religião surge da relação do finito com o infinito, pois implica reconhecer o limitado como uma expressão do infinito. Certamente, esse conceito de Schleiermacher perverte o conceito de uma revelação proposicional divina. Afinal, no pensamento do teólogo alemão, o indivíduo torna-se o ponto de partida do conhecimento, o que caracteriza um processo empírico de elaboração do conceito de religião e da própria idéia do outro.
Ademais, a sua proposição se desdobra em consequências mais sérias, pois o finito e o infinito não podem ser concebidos como realidades separadas. Deste modo, ao enfatizar a imanência do infinito ele chega a conclusão de que não se pode buscar o infinito fora do finito, o que acaba sendo uma espécie de negação da existência autônoma de Deus.
Assim, Schleiermacher desenvolve o seu pensamento ensinando que a essência da religião deve ser encontrada não no conhecimento mas na experiência – num sentimento de dependência absoluta, o que ficará mais claro quando falarmos sobre o seu conceito sobre Deus.
Portanto, para ele a religião é a consciência da divindade tal como se encontra em nós mesmos e no mundo. O que significa que na sua concepção a religião é algo puramente subjetivo.





3 O SENTIMENTO DE DEPENDÊNCIA ABSOLUTA


Antes de pensarmos propriamente no que significa para Schleiermacher esse “sentimento de dependência absoluta”, devemos lembrar que a ênfase dele na religião como sentido deve-se tanto a influência da educação moraviana, com sua ênfase na vida piedosa e pouca fundamentação dogmática, quanto no movimento Romântico e sua ênfase exacerbada na experiência como fator determinante da verdade.
Sendo assim, um dado importante que deve ser anotado é que para ele a religião não deveria competir com a ciência natural, pois a religião jamais ganharia com qualquer competição, antes ele entendia que todas as coisas concorrem para o conhecimento do infinito, no qual todas as coisas subsistem. Outrossim, para ele nenhum conhecimento pode florescer fora de uma consciência piedosa, o que nos leva a entender que para o teólogo alemão a religião do sentido é parte da existência do homem.
Esse sentimento, contudo, é o modo de apreensão da realidade na religião, que deve acontecer como fruto de uma consciência piedosa, o que é definido no pensamento de Schleiermacher como o “sentimento de dependência absoluta ”.
Esse sentimento de dependência absoluta é o mundo da experiência normal. Um mundo no qual nós estamos inseridos e sentimos. Neste mundo nos sentimos dependentes de muitas coisas e esse sentimento de dependência, que se relaciona com a consciência religiosa equivaleria ao próprio Deus, o que acaba tornando-se uma espécie de negação da existência de Deus, e mais objetivamente da possibilidade de uma revelação proposicional. Essa afirmação está claramente exposta na sua principal obra, “The Christian Faith”, onde ele diz:

O elemento comum em todas as diversas expressões da piedade, pelo qual esta coisa se distingue de todos os outros sentimentos, ou, em outras palavras, a essência da autoconsciência da piedade é esta: a consciência de ser absolutamente dependente, ou, o que é a mesma coisa, do ser em relação à Deus.


Mais adiante, na mesma obra, Schleiermacher ainda afirma:

Como observado na identificação dessa dependência absoluta com ‘relação a Deus’ em nossa proposição: Isso deve ser entendido no sentido de que a nossa existência receptiva e ativa, implícita nessa autoconsciência, deve ser designada pela palavra ‘Deus’... .


Outrossim, devemos lembrar que esse sentimento de dependência absoluta se dá a partir da relação com o outro.




4 TEOLOGIA COMO REFLEXÃO


Outro aspecto importante do pensamento de Schleiermacher diz respeito a sua visão da Teologia como reflexão. Em várias obras e de maneira recorrente nós o encontramos tratando desta matéria.
Ele crê que a teologia é uma ciência positiva onde partes diferentes se unem num todo aderente, formando um modo particular de fé. Desse modo a teologia é um maneira particular de ser consciente de Deus. Portanto, na compreensão de Schleiermacher a teologia pode diferir de acordo com cada modo particular de fé.
Neste aspecto, em virtude de sua rejeição a um revelação proposicional, Schleiermacher crê que a teologia é fruto de uma cooperação mútua, enfatizando a experiência do ser em detrimento do caráter revelacional das Escrituras.
Esse conceito ganha ainda mais corpo quando percebemos que na sua concepção as doutrinas cristãs são explicações dos sentimentos ou afeições da religião cristã. Clements observa que para ele as proposições dogmáticas da religião são tipos didaticamente descritivos, como observado no texto do próprio teólogo alemão: “A expressão poética está sempre baseada originalmente sobre o momento de exaltação, o qual vem puramente de dentro – um momento de entusiasmo ou inspiração.” . Assim, ele se prepara para argumentar que as afirmações que Cristo faz sobre si como Redentor, que parecem ser proposições dogmáticas, são na verdade resultado da perfeita apreensão e apropriação dessa experiência religiosa, na pessoa de Cristo.
Então, no intuito de argumentar em favor de uma teologia reflexiva, ele ensina que todas as proposições do sistema de doutrina cristão, são descrições da situação humana. Assim, uma proposição dogmática de um sistema de doutrina, à parte de uma convicção pessoal, não é possível, segundo a concepção de Schleiermacher. Perceba, que mais uma vez essa linha de raciocínio vai de encontro ao conceito de uma revelação proposicional.





5 DEUS NO CONCEITO DE SCHLEIERMACHER


Certamente, o seu conceito sobre Deus não poderia ser apropriado, em função do que já foi exposto nas considerações anteriores.
Schleiermacher crê que a Divindade, em sua acepção habitual, não pode revelar ou dizer nada. Esta afirmação importante ganha contornos mais nítidos quando vislumbramos o seu conceito sobre Deus. Ele entende que Deus é incognoscível para a mente humana. Essa sua concepção o leva a supervalorizar a experiência em detrimento da revelação proposicional e objetiva das Escrituras. Para encontrar Deus uma pessoa deve olhar para dentro de si e experimentá-lo.
Deste modo devemos lembrar que para Schleiermacher o caminho para o conhecimento da divindade era o sentimento de total dependência do outro.
Em sua obra Solilóquios ele chega a declarar: “tantas vezes quanto volto minha atenção para dentro do mais intimo do meu ser, estou no campo da eternidade”. Para ele, esse sentimento íntimo é o lugar adequado para o labor teológico, e isto era o estar relacionando-se com Deus, onde o eu aprende com o eu divino. Deste modo ele tornava Deus uma realidade supra-pessoal. Assim, Cristo não poderia ser Deus, mas alguém em quem brilhava a dependência absoluta da divindade. O que se constitui num grave erro cristológico.
Ainda sobre Jesus, Clements observa que para Schleiermacher Jesus é apenas um homem que tem consciência de Deus . Para ele, Cristo é um homem como nós somos. Deste modo, ele entendia que a obra redentora de Cristo consiste no fato de nos trazer uma consciência sobre Deus. Sobre isso, Clements, interpretando o pensamento do teólogo liberal, diz: “A obra redentora de Cristo (...) consiste em revelar a consciência de Deus ao fiel.” . Contudo, devemos observar que essa consciência de Deus não significa que ele seja um ser independente e pessoal, mas a própria idéia do “outro” como concebida na experiência do indivíduo.
Portanto, há que se observar o fato de que Schleiermacher entendia que Deus, como ensinado nas Escrituras, não pode dizer nada. Portanto, a idéia de Deus se confunde com a própria experiência da religião. Ele não crê num Deus transcendente, mas numa divindade imanente que é a própria experiência da religião.





6 A REVELAÇÃO PROPOSICIONAL E SUA INCOMPATIBILIDADE COM O PENSAMENTO DE SCHLEIERMACHER


É verdade que as Escrituras não se preocupam em apresentar uma apologia sistematizada sobre a existência de Deus. Aliás, podemos afirmar que a existência de Deus é a grande pressuposição da teologia.
Contudo, vale lembrar as palavras das Escrituras que nos ensinam: Hebreus 11:6 “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.”. Certamente, o texto da epístola aos Hebreus nos mostra que a existência de Deus é essencialmente uma matéria de fé. Não obstante, crer em Deus não é contrário à constituição humana, por isso, a teologia reformada, e mais especificamente Calvino, reconheceram que Deus plantou no homem uma semente da religião e um senso de divindade. A partir daí, crer em Deus se torna algo completamente natural à constituição do homem.
A partir daí, entendemos que é propósito de Deus revelar-se ao homem e Ele o faz através de atos e palavras . Essa revelação se faz necessária em função do estado de pecado a que o homem se sujeitou . O homem não poderia conhecer a Deus se este não se revelasse a ele, e mesmo dentro dessa divina revelação, o homem só pode conhecer a Deus até onde ele deixar-se conhecer.
Assim, Deus não é a revelação, não podendo ser confundido com ela ou com qualquer sentimento de dependência do outro que exista no ser humano. Contudo, Deus é o sujeito da revelação, que se faz conhecido ao homem. Ademais, sem essa revelação o homem jamais poderia conhecer a Deus. Contudo, isso não significa que a revelação não versa sobre Deus.
Essa revelação que Deus faz de si mesmo tem a necessidade de ser proposicional, ou seja, escrita em palavras.
Além disso, a impessoalidade do sentimento de dependência absoluta e das expressões da religiosidade defendida por Schleiermacher entram em conflito com a idéia da existência de um Deus pessoal. Os atributos de Deus provam a sua pessoalidade e contrariam a proposição do teólogo alemão. Cremos num Deus pessoal que se revela de maneira objetiva.
Sobre isso, Louis Berkhof ainda afirma que: “Todo o nosso conhecimento de Deus é derivado da sua Auto-revelação na natureza e na Escritura” .
Portanto, o pensamento de Schleiermacher é totalmente oposto a idéia de uma revelação proposicional.




CONCLUSÃO


Não se pode esconder a frustração por perceber que alguém formado aos pés da doutrina reformada se desvie tanto de Deus. A vida de Schleiermacher serve para nos mostrar, portanto, o quão carentes nós somos da iluminação do Espírito Santo para compreendermos o que o Senhor tem nos falado.
Ademais, devemos nos lembrar que é propósito de Deus tornar-se conhecido do homem. Esta realidade é confirmada pela revelação geral e pela revelação especial.
Contudo, não podemos afirmar que a doutrina reformada, biblicamente orientada, sofre a mesma aridez que impulsionou Schleiermacher no início da sua jornada. Embora ela não seja superficial como aquela que caracterizou o movimento pietista, ela também toca o homem em suas experiências mais íntimas, mas o faz como resultado de uma profunda e fundamentada transformação.
O estudo do pensamento de Schleiermacher serve para despertar na igreja contemporânea o senso de responsabilidade quanto ao aprendizado das Escrituras como palavra autoritativa de Deus. O abandono ou a negligência desta questão poderá nos afastar seriamente da verdade revelada pelo Senhor.
Portanto, a história deixa o seu exemplo para que a Igreja tenha o seu caminho firmado no Senhor que se revela, de maneira proposicional, nas Sagradas Escrituras.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. 2. ed. Campinas: Luz Para o Caminho, 1992. 790p.

CAMPOS, Heber C. Teologia da Revelação. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2009. 204 p. (Apostila xerografada).

D’ABADIA, Joacir S. Schleiermacher: A Interpretação da Religião. Disponível em < http://www.webartigos.com/articles/17314/1/schleiermacher-a-interpretacao-da-religiao/pagina1.html > Acesso em: 27 mai. 2009.

RUEDELL, Aloísio. Da Representação Ao Sentido: Através De Schleiermacher À Hermenêutica Atual. Porto Alegre: Edipucrs, 2000. 226 p.

SALLES, Renato. Schleiermacher: Pai da Teologia Liberal Protestante. Disponível em < http://renatosalles.blogspot.com/2009/01/schleiermacher-pai-da-teologia-liberal.html >. Acesso em: 25 mai. 2009.

SCHLEIERMACHER, Friedrich. Brief outline on the study of theology – Philosophical, Historical, Pratical. Translated by Terrence N. Tice. Richmond: John Knox Press, 1966. 132 p.

______. The Christian Faith. Edited By H. R. Mackintosh and J. S. Stewart. Edinburgh: T & T Clark, 1994. 760 p.

______. Friedrich Schleiermacher : Pioneer of Modern Theology. Ed. Keith Clements. Minneapolis: Fortress, 1991. 281 p.

KUNG, Hans. Os Grandes Pensadores Do Cristianismo. Lisboa: Presença, 1999. 219 p.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O PROBLEMA DO SEXO FORA DO CASAMENTO


O Problema do Sexo fora do Casamento



Já não é novidade para os cristãos a estratégia diabólica do mundo secularizado. Cada vez mais intensamente nossos princípios vem sendo violentamente atacados sob o argumento “politicamente correto” da tolerância e da maturidade e como consequência crentes vem se entregando ao pecado por terem suas consciências cauterizadas pelo pecado. Um dos principais problemas dos nossos dias está relacionado à maneira como encaramos a sexualidade.
As Escrituras nos ensinam que Deus criou o homem e a mulher para que, no convívio familiar, pudessem desfrutar da plena satisfação da vida conjugal. Ali, sob a benção do Senhor, almas e corações seriam inseparavelmente ligados sob a ordem de que o que Deus uniu não o separe o homem. Deus reservou para homem e mulher no casamento uma plena satisfação emocional, espiritual e sexual. Isto é tão sério que as Escrituras nos ensinam em Hebreus 13:4: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros”. Deste modo, cremos que:
O sexo fora do casamento é pecaminoso por desonrar a Deus e a família: No casamento há uma entrega íntima, fruto de uma aliança aprovada pelo Senhor. Quando marido e mulher ser relacionam eles desfrutam da alegria da intimidade conjugal como uma benção divina. Mas quando homens e mulheres buscam esta satisfação longe do Senhor, eles revelam seu desprezo pela vontade do Senhor e seu repúdio à família como uma instituição divina.
O sexo fora do casamento produz instabilidade emocional, espiritual e sexual: Também devemos lembrar que fora do casamento o sexo desestabiliza o indivíduo emocionalmente por quebrar a confiança e a credibilidade da aliança familiar; desestabiliza o indivíduo espiritualmente por colocá-lo em oposição à vontade do Senhor e desestabiliza o indivíduo sexualmente por torná-lo vulnerável â doenças (DSTs) e a disfunções diversas.
O sexo fora do casamento atrai o juízo de Deus sobre impuros e adúlteros: Por último, cremos deste modo também, pois as Escrituras nos ensinam que fora do casamento o sexo atrai o juízo de Deus sobre impuros e adúlteros. Aqui devemos lembrar que a impureza está relacionada a todas as perversões da sexualidade (relacionadas ao modo natural ensinado nas Escrituras) e o adultério a todas as formas de infidelidade (tanto para casados quanto para solteiros).
Sendo assim, ore ao Senhor para que sua vida seja preservada e afastada destes pecados. Ame a sua família e entregue a ele também a santidade na sua vida sexual.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A IGREJA PROCLAMADORA


Uma Igreja Proclamadora




Faz parte da essência de qualquer coisa cumprir o propósito para o qual foi idealizado. E isto não é diferente com a Igreja, o que nos leva a dizer que ela só pode existir em função do seu propósito declarado nas Escrituras, qual seja: “Proclamar as virtudes daquele que a chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz”. Sendo assim, compete-nos entender que:
1) É TAREFA DA IGREJA PROCLAMAR A CRISTO EM TODA A SUA PLENITUDE: O apóstolo Paulo diz que Cristo em nós é a esperança da glória (Cl. 1.27). Sabemos que no passado as religiões de ocultismo vivam cegando o entendimento das nações. Contudo o Senhor Jesus, ao realizar o seu ministério, confere a igreja poder para marchar ofensivamente contra os portões do inferno arrancando o homem do caminho da condenação (Mt. 16.18). Somos os instrumentos que Deus quer usar para a comunicação do evangelho libertador de Jesus. Além disso, devemos lembrar também que ...
2) É TAREFA DA IGREJA FAZER DA OBRA MISSIONÁRIA A EXPRESSÃO NATURAL DA SUA EXISTÊNCIA: O que, de certo modo, vai de encontro a prática moderna da igreja. Isto é percebido em nosso tempo quando observamos igrejas se esforçando para criar programas missionários e evangelísticos. Nossas ações isoladas fornecem uma falsa impressão de fidelidade diante da ordem do Senhor. Contudo, nossa ação missionária deve ser como o ato de respirar: natural e contínuo, portanto, um fluxo normal de nossa existência. No mais, devemos lembrar que ...
3) É TAREFA DA IGREJA VIABILIZAR A CAPACITAÇÃO DOS SEUS MEMBROS PARA O SERVIÇO CRISTÃO: Nesse ponto devemos lembrar que o Espírito foi derramado no pentecostes também de modo capacitador. É verdade que Ele se torna o selo e o penhor da nossa herança, comunicando internamente em nosso coração a nossa nova posição diante do Senhor. Contudo, ao ser derramado, o Espírito Santo nos comunica dons que indicam propósitos (Ef. 4). Deste modo, compete a igreja a orientação bíblica adequada para que os crentes dotados pelo Espírito exercem, de modo natural e contínuo, o dom que receberam.
No entanto, todos devemos ler estas tarefas atribuídas à igreja como responsabilidades que recaem sobre todos nós. Embora a instituição seja o mecanismo facilitador destas ações, no âmbito da economia divina as atitudes são sempre requeridas das pessoas.
Que o Senhor continue usando o seu povo como instrumento para a realização dos seus propósitos eternos!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A SI MESMO SE HUMILHOU!


A si mesmo se humilhou…



Quando Jesus se encarnou uma nova história para o pecador começou a ser vislumbrada. Embora ela tenha sido traçada na eternidade, naquele momento pudemos contemplar de maneira prática e objetiva o amor de Deus por nós. Esse amor, eterno e redentor, foi adornado pela determinação do Messias que se humilhou assumindo a forma de servo.
Sendo assim, num momento como este, onde os corações se sensibilizam pela lembrança do sofrimento do Messias, devemos aproveitar o exemplo dEle para transformarmos a nossa vida conforme o exemplo que encontramos.
Por isso:
1) Que sejamos servos
As Escrituras nos ensinam que ele assumiu a forma de servo. Não há em nenhum outro lugar nas Escrituras, nem na história antiga ou contemporânea exemplo mais adequado que o de Jesus, no que tange ao serviço do crente. Embora seja ele Senhor sobre todas as coisas desde a eternidade, sua disposição era a de um servo, que não veio para ser servido, mas para servir dando a sua vida em resgate por muitos.
Assim, se essa foi a disposição do Mestre não nos resta outra alternativa senão seguí-lo.

2) Que sejamos humildes
Ao assumir a forma de servo as Escrituras também ensinam que ele não julgou com usurpação o ser igual a Deus. Ele se sujeitou às nossas debilidades. Experimentou as nossas fraquezas e nisto foi humilhado. Contudo, seu exemplo nos inspira levando-nos não apenas a reflexão mas à necessidade de experimentarmos, de fato, um transformação em nosso ser. Temos de ser como ele é.

3) Que sejamos determinados:
Por último, ao olharmos para a sua caminhada determinada até o Calvário, somos desafiados a enfrentar todas as situações que tentam nos desviar do propósito mor de glorificar ao Senhor. Embora Jesus soubesse da sua hora e da dor que enfrentaria ele perseverou. Pois está escrito:
João 13:1 “Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.”.

Hoje temos sido constituídos discípulos de Cristo. E, o discípulo só o é, de fato, quando tem a disposição de caminhar como o seu Mestre.
Portanto, se ele nos desafiou a uma vida de entrega e serviço, que seja esse o nosso procedimento.

segunda-feira, 9 de março de 2009

EFEITOS COLATERAIS DA OBRA DE CRISTO

INTRODUÇÃO

Não são raros os momentos nas Escrituras onde encontramos os autores sacros falando sobre a dependência que toda criação tem da bondade de Deus. Todos esperam que o Senhor os sustente. E ele, pelo exercício da sua livre vontade, tem cuidado providencialmente de toda a obra de suas mãos.
Ademais, uma das questões mais interessantes relativas a esse cuidado diz respeito às bênçãos que o Senhor derrama sobre a vida dos ímpios. Assim, não podemos negar o fato de que bênçãos celestes têm sido derramadas sobre a vida de homens que não são eleitos. Portanto, a questão decorrente deste ponto é: Seriam essas bênçãos efeitos colaterais da obra de Cristo?
No presente trabalho discutiremos o tema: Os Efeitos Colaterais da obra de Cristo. E, para tanto, consideraremos a extensão da expiação da obra de Cristo em sua relação mais particular com os réprobos, seguido de uma análise do significado da chamada “graça comum”. Em seguida analisaremos a base judicial desta graça, sua relação com a doutrina da providência e do pacto, seguido da apreciação de alguns textos bíblicos.
Nosso trabalho considerará as reflexões de teólogos reformados como Berkhof, Calvino, Palmer, Boettner e outros, no intuito de fundamentar a tese central proposta.
Deste modo, entendemos que a discussão desta matéria fornecerá uma oportunidade de reflexão sobre as bênçãos de Deus sobre a vida dos ímpios.

1 A EXTENSÃO E OS EFEITOS COLATERAIS DA OBRA DE CRISTO


Ainda que não seja o propósito deste trabalho discorrer sobre o caráter soteriológico da obra de Cristo, não podemos deixar de omitir certos conceitos imprescindíveis na elaboração dos fundamentos do tema proposto.
Deste modo, observamos que a obra expiatória de Cristo Jesus está diretamente ligada ao decreto eterno e soberano da eleição. Aqueles que foram marcados por Deus na eternidade, receberam a graça de serem representados por Cristo na sua morte, em função da sua relação federal com o Mediador. Estes eleitos são um número definido, que pelo soberano beneplácito divino, recebem a graça especial e a salvação eterna, sem que nenhum mérito neles seja considerado. Portanto, a expiação na sua proposição soteriológica fundamental é limitada, sendo suficiente e eficiente apenas para os eleitos.
Por outro lado, ao falar sobre a extensão dos efeitos da obra de Cristo, Loraine Boettner diz que os calvinistas entendem que o propósito secreto de Deus era que Cristo morresse apenas pelo povo que ele elegeu, contudo sua morte tem uma “referência incidental” aos outros na medida em que eles se tornam participantes da sua graça comum. Essa referência incidental é o que temos denominado de efeitos colaterais da obra de Cristo. Escrevendo sobre isso Boettner afirma: “Nós não podemos negar, é claro, que toda humanidade recebe muitas e importantes bênçãos por causa da obra de Cristo. A penalidade a qual eles tem sido infligidos por causa do pecado é temporariamente suspensa”.
Boettner entende que essa manifestação das bênçãos de Deus sobre a vida dos ímpios serve aos propósitos do Senhor na promoção da sua glória e são partes necessariamente importantes no desenvolvimento do seu Reino.
Deste modo, Boettner crê que há um sentido em que Cristo morreu por todos os homens. Embora as influências especiais de sua morte sejam aplicadas pelo Espírito Santo apenas nos eleitos e para a sua salvação, nos não salvos são produzidos efeitos incidentais que cooperam para o propósito maior de Deus.
Nesta mesma linha de argumentação, ao discutir sobre a extensão da expiação de Cristo, Leandro Lima, no seu livro – Razão da Esperança, observa: “Arminianos, Luteranos e calvinistas concordam, (…) que todos os seres humanos, mesmo os incrédulos, recebem algum benefício da morte de Cristo.”.
Com isto estamos lembrando que o propósito primeiro e fundamental da obra de Cristo é a salvação dos eleitos. Não pode haver outro propósito tão fundamental quanto este. Ao morrer na cruz do Calvário Jesus Cristo satisfazia de forma perfeita a justiça divina e provia as condições necessárias para que o Espírito aplicasse nos eleitos a salvação. Contudo, em função do estado deplorável a que o mundo ficou sujeito pela corrupção do pecado, Deus tem comunicado bênçãos aos ímpios, com o intuito, em última análise, de tornar o mundo mais suportável para os filhos do seu amor.
Por isso, entendemos que essas comunicações são incidentais e secundárias, embora estejam assentadas na mesma obra expiatória de Cristo.
Assim, devemos então entender como a teologia reformada define essa comunicação de bênçãos aos ímpios, o que faremos no próximo tópico.

2 A GRAÇA COMUM


Teólogos reformados têm procurado fazer uma distinção entre a graça especial e a chamada graça comum. Em suma, podemos dizer que em seus efeitos a graça especial é necessariamente soteriológica, o que não acontece na graça comum.
Contudo, observamos mais especificamente a definição de graça comum, anotada por Berkhof:

“as operações gerais do Espírito Santo pelas quais Ele, sem renovar o coração, exerce tal influência sobre o homem por meio da Sua revelação geral ou especial, que o pecado sofre restrição, a ordem é mantida na vida social, e a justiça civil é promovida; ou as bênçãos gerais, como a chuva e o sol, água e alimento, roupa e abrigo, que Deus dá a todos os homens indiscriminadamente, onde e quando Lhe parece bem fazê-lo”.


Berkhof entende que no cumprimento do seu propósito redentor nada é mais natural do que Deus comunicar certas graças àqueles que se relacionam com o povo dele, e nessa conclusão ele é acompanhado de teólogos como Boettner.
Por isso, Berkhof afirma:

“E não é nada mais natural que seja assim. Se Cristo devia salvar uma raça eleita, paulatinamente chamada do mundo da humanidade no transcurso dos séculos, era necessário que Deus exercesse paciência, detivesse o curso do mal, promovesse o desenvolvimento das faculdades naturais do homem, mantivesse vivo no coração dos homens o desejo de manter a justiça civil, a moralidade exterior e a boa ordem na sociedade, e derramasse incontáveis bênçãos sobre a humanidade em geral.”


Contudo, devemos cuidar para evitar distorções no conceito de graça comum. O termo está relacionado ao fato de que estas graças são comunicadas indistintamente tanto aos eleitos quanto aos ímpios. A diferença fundamental entre a chamada graça comum e a graça salvadora está no efeito soteriológico desta última, o que, portanto, a torna especificamente dirigida aos eleitos.
Portanto, podemos dizer que Deus vem comunicando bênçãos sobre a vida de todos os homens, o que chamamos de graça comum.


3 A BASE JUDICIAL DA GRAÇA COMUM


A partir daí afirmamos que em virtude do seu caráter santíssimo, todo ato de benevolência graciosa da parte de Deus necessita de uma base legal. Ele não pode recompensar o pecado, nem mesmo exercitar a sua paciência, sem que uma provisão seja oferecida.
Desta maneira, lembramos que o homem natural está sob maldição e não sob a condição de receber bênçãos. Contudo, a própria Escritura tem ensinando que Deus ainda continua comunicando bênçãos sobre a vida de todos os homens .
Portanto, ainda que os teólogos reformados, que na sua maioria sustentam a doutrina da graça comum, não cheguem a declarar claramente qual a base judicial para a comunicação destas bênçãos sobre os ímpios, não nos resta outra alternativa, a não ser concluir que a base legal para as comunicações graciosas de Deus sobre a vida dos ímpios está na obra expiatória de Cristo Jesus.
Para desenvolver esta argumentação percebemos algumas inferências consideráveis nos escritos de alguns estudiosos como William Cunningham que afirma que muitas bênçãos celestes fluem para a humanidade em geral provindas da morte de Cristo. Cunningham diz ainda que todos esses benefícios foram previstos por Deus quando ele resolveu enviar o seu Filho paro o mundo. Deste modo, sua declaração de que essas bênçãos provém da morte de Cristo sugerem que a base judicial está na própria obra expiatória de Cristo.



4 RELAÇÃO COM A DOUTRINA DA PROVIDÊNCIA


Embora a teologia reformada tenha tratado a doutrina da providência com uma ênfase maior no seu aspecto soteriológico, podemos afirmar que ela é mais ampla. Uma vez que todas as criaturas existem em função da sustentação que provém do Senhor podemos dizer que a providência é exercida num contexto soteriológico, mas não só.
Ao estudarmos a doutrina da providência de Deus nos colocamos diante daquela sua ação continuada onde ele preserva as coisas que foram criadas, executa os seus decretos e proporciona os meios para que as escolhidos conheçam o Redentor. Nesta sua obra da providência existem três elementos fundamentais: a preservação, o governo e o concursus.
Particularmente, no que concerne a preservação podemos observar que é tarefa especial de Deus preservar o homem. O profeta Isaías assim o declara: “Isaías 41:4 Quem fez e executou tudo isso? Aquele que desde o princípio tem chamado as gerações à existência, eu, o SENHOR, o primeiro, e com os últimos eu mesmo.”. Ao comentar o capítulo onde se encontra esta passagem, Van Groningen o coloca dentre os textos messiânicos do Antigo Testamento , o que nos leva a crer que a ação de preservação de Deus está intimamente relacionada ao ministério do Redentor.
Assim, devemos lembrar que a obra da providência é também uma obra do Filho, que em virtude da sua relação pactual com Israel acaba, incidentalmente, estendendo as bênçãos da aliança a pessoas que não são da aliança. Contudo, devemos lembrar que essa ação providente de Deus visa em primeira instância o bem do seu povo e, por consequência acaba atingindo o ímpio.
É exatamente essa idéia que adorna a expressão do apóstolo Paulo quando ele diz que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus. . O Senhor conduz a história de tal forma que bênçãos são derramadas sobre a vida dos ímpios, para o bem dos escolhidos.
Dentre essas bênçãos analisaremos panoramicamente a ação restringente do Espírito como sinal da graça comum.

4.1 A AÇÃO RESTRINGENTE DO ESPÍRITO COMO SINAL DA GRAÇA COMUM.

De outro modo devemos reiterar a idéia de que muitos são os elementos que se relacionam com a manifestação da graça comum. Palmer, falando sobre essa graça sendo exercida através do ministério do Espírito Santo, escreve:

“Seja como for, a graça comum também compreende outras coisas mais sobre a ação do Espírito Santo na vida da gente. Inclui o fato de que Deus oferece sinceramente a salvação aos que estão perdidos mesmo não sendo eleitos e, portanto, sem nunca crer”.

Deste modo, nosso propósito aqui não será o desenvolvimento extensivo desta doutrina, mas apenas a observação da sua relação com a graça comum e, consequentemente, como efeito colateral da obra expiatória de Cristo.
Podemos dizer que essa ação do Espírito Santo se dá em dois níveis: um positivo e um negativo.
Positivamente o Espírito Santo opera estimulando as boas obras e, negativamente, freando a manifestação do pecado na vida dos indivíduos. Além disso, podemos dizer ainda que o Espírito Santo dota o homem de certas capacidades naturais para o desenvolvimento de certas tarefas culturais. Ao agir desta maneira o Espírito Santo impede a manifestação do mal na sua plenitude e ao abençoar com certa paz os ímpios, faz com que o mundo seja mais agradável aos filhos do reino.
Como nas Escrituras o Espírito é conhecido como o “Espírito da graça”, segue-se que essa ação restringente do Espírito é fruto da graça comum. Deste modo ele age indistintamente sobre todos os homens.

5 RELAÇÃO COM A DOUTRINA DO PACTO


Quando a Confissão de Fé de Westminster, um documento doutrinário de orientação reformada, trata sobre a doutrina do pacto, ela registra:

“Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que embora as criaturas racionais lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele, como bem-aventurança e recompensa, senão por alguma voluntária condescendência da parte de Deus, a qual agradou-lhe expressar por meio de um pacto”.

Isto significa que Deus tem se relacionando com as suas criaturas através de alianças. Citando Paul Helm, Mauro Meister declara que “de acordo com a teologia pactual, todas as relações de Deus com o homem são pactuais, de caráter federal”. . O que concorda com a declaração da Confissão de Fé de Westminster que ensina que Deus expressa a sua condescendência por meio de um pacto. Van Gronigen chega a declarar que a Bíblia “é o registro permanente das relações pactuais de Deus com a humanidade através dos séculos”. .
Nesta relação Deus estabeleceu laços de vida e amor, na criação, com toda a humanidade.
Contudo, Van Groningen observa que esta relação, estabelecida no pacto da criação, foi rompida, mas Deus tornou possível a restauração desse laço através do pacto da redenção. Assim, embora os dois pactos sejam distintos, o da criação e o da redenção, eles são inter-relacionados. Essa inter-relação mostra que existem elementos do pacto da criação que continuam sendo desdobrados no pacto da redenção. Por isso, Van Groningen também declara:

“O pacto da criação é o meio dentro do qual a vontade de Deus para a humanidade é conhecida e deve ser executada. É também o meio para a tarefa educacional e política da humanidade, tarefa essa inerente ao pacto da criação mas revelada à medida que o pacto da redenção é revelado e progressivamente desdobrado.”.

A partir daí, Van Groningen observa que do pacto decorre um mandato. O pacto da redenção traz consigo um mandato redentivo e sobre esse mandado redentivo Van Groningen escreve:

“ele (Deus) estabelece que a humanidade redimida seja uma benção para toda a humanidade – para todas as tribos, povos e nações. Isto será feito pela proclamação do evangelho da redenção e pela instrução nos caminhos que o Senhor designou para o serviço que glorifica a Deus”.


Ora, se o propósito de Deus no seu pacto de redenção é que os seu povo abençoe a humanidade, nada mais natural do que concluirmos que o próprio Deus irá também fazê-lo. Toda boa dádiva oriunda da comunidade do pacto é inspirada na manifestação da misericórdia divina. E, se Deus é misericordioso e gracioso em certa medida, com toda a humanidade, segue-se que ele continua abençoando o homem em virtude dos termos do seu pacto.
Além disso, devemos lembrar que a preservação, por exemplo, apresentada nas Escrituras, também está em conexão com a idéia de pacto. Ora, se a preservação é fruto do pacto, ela é, de certo modo, uma comunicação graciosa de Deus. Assim, se é uma comunicação graciosa de Deus ela tem necessariamente de encontrar uma provisão.
Em outras palavras. Toda comunicação graciosa de Deus necessita de uma provisão. Se ele se relaciona e se revela através de uma pacto, de alguma forma, as comunicações decorrentes desse pacto estão provisionadas neste concerto. Deste modo, na preservação, no governo e em qualquer outra comunicação, Cristo provê as condições.


6 EXEMPLOS BÍBLICOS DE BENÇÃOS DERRAMADAS SOBRE OS ÍMPIOS


Ao olharmos para as Escrituras Sagradas encontramos algumas informações preciosas sobre as bênçãos que o Senhor derrama sobre a vida dos ímpios. Essas indicações escriturísticas nos fornecem elementos imprescindíveis para o estabelecimento da proposta teológica desenvolvida neste trabalho.
Sendo assim, consideraremos neste tópico alguns textos bíblicos apropriados à temática do trabalho.
O primeiro texto bíblico separado é o de Atos 17.28. Nele encontramos o apóstolo Paulo no seu famoso discurso em Atenas. O seu público era formado por eleitos e não eleitos, o que é atestado pelo final da sessão em At. 17.32-34. Contudo ele é enfático ao declarar: Atos 17.28 “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.”. Aqui, Paulo reconhece que Deus continua derramando bênçãos sobre a vida de todos os homens.
Outro texto interessante é o de 2 Coríntios 9:10, onde se lê: “Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça,”. Ao comentar esse texto, Calvino, vislumbrando a provisão do Senhor para o homem, declara: “…tanto a semente como o alimento provém da graça de Deus para o lavrador que semeia e acredita que é através do seu labor que as pessoas são nutridas.” . Ou seja, Deus derrama graciosamente a sua benção sobre o lavrador e, desta maneira, alcança indistintamente os homens. Essa declaração está em conformidade com o que diz o Salmo 145:15, onde se lê: “Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento.”.
Uma das porções bíblicas mais interessantes é a de Hebreus 6.4-6. Aqui o autor fala de um grupo de pessoas que não eram verdadeiramente crentes, mas, que em alguma medida provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo. Calvino identifica essas pessoas com os apóstatas, o que parece muito natural na leitura do texto sagrado:

“4 É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, 5 e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, 6 e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.” Hb. 6.4-6


Contudo, é extremamente interessante o comentário que ele faz sobre o verso 4, quando ele declara:

“Deus certamente confere seu Espírito de regeneração somente aos eleitos, e que eles se distinguem dos réprobos no fato de que são transformados na imagem de Deus, e recebem o penhor do Espírito na esperança de uma vida por vir, e pelo mesmo Espírito o evangelho é selado em seus corações. Em tudo isso, porém, não vejo razão para que Deus não toque os réprobos com o sabor da sua graça, ou não ilumine suas mentes com algumas chispas da sua luz, ou não os afete com algum senso da sua benevolência, ou em alguma medida na grave sua Palavra em seus corações.”

O autor da epístola aos Hebreus está, portanto, apresentando um quadro bem interessante, onde encontramos ímpios experimentando em alguma medida, porções da graça de Deus. Certamente, podemos afirmar que um dos propósitos de Deus é o de trazer ao coração dos verdadeiros crentes o senso de temor, humildade e consciência das nossas limitações diante do Senhor.
Tais textos servem, portanto, como uma breve observação das comunicações indistintas das bênçãos de Deus sobre a vida de todos os homens.


CONCLUSÃO


Deus, na sua insondável sabedoria derrama bênçãos sobre a vida dos não eleitos como efeitos colaterais da obra expiatória e Cristo.
Certamente esta ação de Deus revela a sua bondade e de modo especial ressalta a maneira sábia como ele administra as obras da sua providência. Isto significa que incidentalmente Deus comunica bênçãos sobre a vida de pessoas que não estão numa relação soteriológica com ele. Contudo, entendemos que essas bênçãos derramadas sobre a vida dos ímpios se dão em função do amor que Deus tem pelos seus. Assim, ao abençoar a vida dos réprobos Deus torna o mundo mais tolerável e, pela sua sábia e rica providência, conduz toda as coisas para um fim proveitoso.
Não obstante, devemos lembrar que os ímpios estão guardados sob maldição. Deus, ao abençoá-los revela-nos a grandeza da sua bondade, mas não permite que qualquer insinuação caluniosa macule a sua santidade. Ele ferirá com juízo os que rejeitam deliberadamente a pessoa de Cristo.
Outrossim todas as obras de Deus cumprem o Seu propósito. Ainda que pensemos nessas bênçãos sobre os réprobos como incidentais elas acontecem dentro da vontade decretiva de Deus.
Portanto Deus, com base na obra expiatória de Cristo, tem abençoado os ímpios e cumprido todo o seu propósito.


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